domingo, 29 de junho de 2008

Intermission

Nos cinemas da Índia, não importa qual for o filme, se estrangeiro ou nacional, se de duas ou de três horas de duração, sempre haverá um intervalo no meio. Esta foto logo acima é uma cena do clipe da música Bum Bum Bole, de Taare Zameen Par, bem na hora que aparece na frente da cara de Aamir Khan (o palhaço da foto) a palavra INTERMISSION, indicando o intervalo do filme pra fazer um xixizinho.

Aproveitando a deixa, informo que estarei ausente deste domingo (29/06) até o domingo próximo (06/07). Aproveitem para procurar os filmes que já indiquei e ponham o milho pra estourar. Logo logo estarei de volta com novas postagens sobre as indústrias locais do cinema indiano. Aguardem!

sábado, 28 de junho de 2008

The Namesake - Trailer

Este filme é falado em bengalês e inglês, mas é dirigido por Mira Nair, diretora independente, o que faz com que ele não seja diretamente feito pela indústria de Calcutá. Como alguns dos filmes de Mira Nair, para gringo ver, trata de questões mais ocidentalizadas e, neste caso, o exemplo dos conflitos entre a tradição indiana e o modo de vida estadunidense. De qualquer maneira, é um bom filme e vale a pena ser assistido. É bem provável que esse filme tenha nas locadoras de arte no Brasil.

Aproveitem e visitem o Bangla Movie Online (http://banglamovieonline.com/), com informações atualizadas sobre os mais recentes filmes bengaleses, inclusive sobre aqueles mais populares da região.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O Cinema Bengalês

Este é o primeiro post de uma série que tratará, pouco a pouco, das indústrias locais de cinema indiano. Hoje começaremos com o cinema bengalês.

Antes que eu comece falando do cinema bengalês, imagino que alguns de vocês devam estar se perguntando que raios de bengalês é esse. Bom, o bengalês, ou Bengali, como é falado na Índia, é a língua de uma boa parte do leste indiano, mas que hoje está dividida entre o estado de West Bengal, cuja capital é Calcutá, e o país Bangladesh. É uma região fartamente ocupada desde há muito, e hoje sofre com pobreza extrema, ainda mais com uma leve contribuição da natureza, que leva a eles inundações anuais que afogam tudo e mais um pouco. Mesmo assim, eles fazem filmes também.

Bom, não só bastasse os bengaleses fazerem filmes, eles produzem BONS filmes.

A história do cinema bengalês data da década de 1890, quando houve a primeira projeção em Calcutá, ainda na época em que ali estava sediada a capital do Governo Britânico nas Índias. Neste mesmo momento surgia Hiralal Sen, considerado o grande pai do cinema da era Vitoriana. Ele criou ali a Royal Bioscope Company, filmando o que se passava nos palcos do Star Theatre, do Minerva Theatre e do Classic Theatre. Seguindo Sen, Dhirendra Nath Gangulv (D.G.) criou a Indo British Film Co, em 1918. Tão logo foi criada também a Madan Theatre Ltd., lançando o primeiro filme bengalês, em 1919, chamado Billwamangal – ainda era, porém, época do cinema mudo. Depois disso vieram muitas outras produções, até que a tecnologia permitiu também que os filmes fossem falados e depois coloridos.

Os filmes falados começaram a ser feitos na Índia a partir de 1930, sendo que o primeiro filme falado bengalês foi lançado em 1931 e chamava-se Jamai Shashthi. Ele foi lançado no mesmo ano que Alam Ara, o primeiro filme falado na Índia, produzido na nascente indústria cinematográfica da então Bombaim.

Hoje em dia existem duas indústrias de filmes bengaleses, sendo a maior e mais produtiva a de Calcutá e a menos conhecida Dhallywood, indústria de Bangladesh, estabelecida em Dhaka, a capital do país. Dhallywood produziu, em média, cerca de 100 filmes por ano nos últimos anos.

A produção bengalesa de Calcutá está sediada no bairro de Tollygunge e, por incrível que pareça, é distinta do resto das indústrias cinematográficas indianas. Isso significa que suas produções são menos song-and-dance e mais produções de arte. Essa característica do cinema bengalês faz dele, na verdade, a indústria mais próxima do cinema ocidental na Índia.

Nos anos 80 houve uma decadência no cinema bengalês, ao mesmo tempo em que houve uma sensível mudança na forma de fazer filme naquela região, que passou a migrar do cinema de arte que o consagrou, para o estilo mais popular que faz de Bollywood a maior indústria de cinema indiana.

Somente no final dos anos 90 é que a região viu suas produções aumentarem novamente e melhorarem em qualidade, lançando bons diretores, como Gautam Ghose, Rituparno Ghosh, Aparna Sen e Sandip Ray, além de atores como Tapas Pal, Proshenjit, Chironjeet e Rituparna Sengupta. Nesses anos recentes, inclusive, alguns desses diretores e atores migraram para outras indústrias de cinema indiana, após o reconhecimento de seus trabalhos. Da mesma forma, atores consagrados de Bollywood, por exemplo, estrelaram alguns filmes bengaleses, como Chokher Bali, de 2003, com nada mais nada menos que Aishwarya Rai.

terça-feira, 24 de junho de 2008

O Cinema Indiano - भारतीय चलचित्र

A indústria de cinema da Índia é absolutamente a mais produtiva e com maior público do mundo. A arrecadação chega a beirar os 10 bilhões de dólares por ano com venda de ingressos e dos demais direitos de imagem e das músicas, e corresponde a cerca de 73% das arrecadações com cinema em toda a região da Ásia e do Pacífico. Não existem disponíveis dados muito recentes, mas consta que, no ano de 2003, foram produzidos 877 filmes e 1177 curtas na Índia.

De qualquer maneira, em termos de qualidade técnica, a produção estadunidense supera e muito a produção indiana, que se reproduz no esquema “muita gente a baixo custo”.

A Índia não chega a produzir filmes nas suas mais de 10.000 línguas, mas ao menos 30 línguas diferentes já apareceram nas telas, sendo a grande maioria derivada dos grandes grupos lingüísticos, como Hindi, Tamil, Telugu, Bengali, Marathi, Kannada e Malayalam. Todos esses filmes, no entanto, são produtos de indústrias de cinema, geralmente baseadas nas capitais dos estados das respectivas línguas. Existe, ainda, diretores independentes, que atuam tanto dentro quanto fora da Índia, produzindo filmes sobre o país, porém desvinculados às indústrias locais.

Destes, destacam-se Mira Nair, cuja produção mais famosa é Monsoon Wedding (Casamento à Indiana, em português). No entanto, talvez o diretor indiano mais famoso no mundo seja M. Night Shyamalam, de O Sexto Sentido, Sinais e A Vila, dentre outros. Embora Shyamalam não faça filmes sobre a Índia, há quem diga que muito de seus filmes resgata os mais diversos aspectos da cultura hindu.

A despeito da grandiosidade da indústria cinematográfica indiana, não há, ainda, seu consumo e reconhecimento no mundo. Nos países com significativa colônia indiana há uma boa aceitação dos filmes de Bollywood, principalmente. Recentemente, a Alemanha, a Inglaterra e o Canadá vêm ganhando muitos adeptos também da população não-indiana.

O cinema indiano é agraciado com uma série de premiações distintas. Também pudera, numa sociedade em que cinema e vida cotidiana estão indissociados, era mais do que merecido haver toda e qualquer premiação. As mais antigas e mais importantes são a National Film Awards e a Filmfare Awards (ambas criadas em 1954). Enquanto a primeira é patrocinada pelo governo e premia a produção das indústrias de todo e qualquer estado, a Filmfare Awards premia somente os filmes em hindi, de Bollywood. Também existe outra premiação dada pelo governo, que é a Directorate of Film Festivals (DFF), que premia, por sua vez, toda produção indiana, seja ela de alguma indústria ou independente.

Ainda há, dentro da Índia, as premiações Stardust Awards (desde 2003, patrocinada pela revista Stardust, premia os jovens talentos do cinema indiano) e a Star Screen Awards (criado em 1994, funciona à maneira do Oscar, com uma academia montada com profissionais da própria indústria indiana).

Para completar, ainda há as premiações realizadas fora da Índia, como a Bollywood Movie Awards (em Long Island, Nova Iorque), a Global Indian Film Awards, a International Indian Film Academy (IIFA) Awards e a Zee Cine Awards. Essas três últimas ocorrem cada ano em um país, sendo a IIFA a mais importante, embora restrita a Bollywood.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Jana Gana Mana - जन गण मन - Hino Nacional Indiano

Nas salas de cinema da Índia, antes de começar qualquer exibição de um filme nacional, a platéia deve levantar-se para a execução do Hino Nacional do país, o Jana Gana Mana. Na tela da sala passa esse vídeo acima, totalmente ufanista como todo bom indiano. Nada melhor que postar este vídeo bem agora quando o blog completa uma semana de vida.

A produção desse clipe foi feita por A.R. Rahman, o mais premiado músico indiano de todos os tempos, nascido no Chennai, Tamil Nadu.

Agora, por favor, desliguem seus celulares e tenham uma boa sessão!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Contatos Imediatos

Antes tarde do que nunca, mas nem tão tarde pra lamentar. Este post de hoje vem com a missão de introduzir mais detalhadamente a que se presta este blog, quem sou eu, como será nossa dinâmica aqui etc etc etc... eu poderia ter feito isso antes, mas antes TZP e Black gritavam para terem seus posts publicados; e eu obedeci a tais anseios.

Então vamos começar. Olá, meu nome é Ibirá Machado, tenho 23 anos de idade, moro em São Paulo, capital, e sou Geógrafo formado pela USP. Trabalho e, por isso, não tenho muito tempo pra fazer postagens diárias. Portanto, sejam pacientes comigo!

Tenho algumas esquisitices e uma delas é gostar de cinema indiano. Embora não só a produção da Índia me interesse, neste espaço falarei apenas sobre isso - e nada mais. Se em algum momento eu recorrer a outras coisas que não sejam cinema indiano, é porque eu quis buscar exemplos externos (e por muitas vezes internos da própria Índia) para ilustrar o que eu tiver falando sobre nosso assunto tema do blog.

Vivi quase três meses na Índia, entre fevereiro e abril de 2008. Minhas experiências estão no mais do que recomendado blog da Prof. Sandra Bose (http://indiagestao.blogspot.com/), relatadas em 15 depoimentos que fiz. Procure pelo marcador "Depoimento". Minha viagem à Índia foi apenas a materialização/realização de uma vontade e de um interesse que sempre existiram. Lá, e isso é impagável, pude viver a vida realmente indiana graças aos meus amigos que afetuosamente me acolheram.

Ao decidir criar esse blog, minha primeira idéia não era fazer sinopses, ou pelo menos isso não seria a parte mais importante. Como entrei em contato imediato de terceiro grau com a sociedade indiana, minha idéia aqui seria fazer uma análise daquilo que está sendo mostrado no filme, comparado à realidade da Incredible India. O cinema indiano não é apenas Bollywood; e não será Bollywood meu único tema.

Todos estão super convidados a participar deste blog. Não é porque o criei que sou eu a fonte inesgotável deste assunto - muito pelo contrário! Dependo de procurar informações e a ajuda de vocês é de grande valia. Algumas pequenas sugestões já foram feitas e eu as acatarei na medida do possível!

Acho que por hora é só. Mais uma vez, sejam muito bem vindos! Bahut Swagatam!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Clipe com a música tema do filme Black

Esse clipe mostra a atuação de Ayesha Kapoor, no papel de Michelle McNally ainda criança, e de Rani Mukerji. Essa é a única música do filme, que se repete com algumas modificações ao longo das cenas.

Abra os olhos da alma


Os onze prêmios dados ao filme Black são muito mais que merecidos. É uma produção com qualidade insuperável e de uma simplicidade muito difícil de se fazer. Seria injustiça dizer que Bollywood não faz bons filmes, assim como não seria correto afirmar que um filme precisa ter cenas de música para conseguir ser produzido em Bollywood. Tudo depende da vontade conjunta do diretor, produtor e atores... talvez para Black ter saído tenha sido necessária a presença de Amitabh Bachchan, o Big B, no importante papel de Mr. Debraj Sahai. Big B é o ator cuja adoração na Índia, na verdade, ainda está por ser superada talvez por Shahrukh Khan. Na Índia, sendo as pessoas mais velhas muito respeitadas, e sendo atores de Bollywood tratados como deuses, ser então um velho ator renomado é quase o mesmo que ser o Deus Supremo. E Amitabh Bachchan fez o seu melhor neste filme.

Mas Rani Mukerji também merece todas as condecorações que sua atuação pode receber. No papel de Michelle McNally (que seria então a Helen Keller neste filme), Rani consegue brilhantemente enganar a todos e faz-nos pensar que é realmente cega e surda. Sua angústia e vontade de viver atravessam a tela e atingem em cheio nossa arrogância. E ainda surpreendente, Michelle criança é interpretada pela atriz-mirim Ayesha Kapoor, afligindo-nos com seu comportamento animalesco com que Mr. Sahai se deparou ao vê-la pela primeira vez. O prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante só não teve o Coadjuvante retirado porque Rani Mukerji merecia mesmo o principal.

O filme se passa na então capital de verão britânica, Shimla. A família McNally, anglo-indiana, é cristã e muito rica. Quando Mr. Sahai é contratado para tentar educar a pequena Michelle, de imediato o pai entra em desacordo com a maneira bruta com que o tal professor trata a criança. Mas ou Michelle aprenderia com tratamento de choque, ou a família McNally seria geradora de um bizarro ser humano-animal incontrolável. Mr. Sahai é mandado embora, mas por um golpe de sorte, no mesmo dia o pai de Michelle vai viajar por 20 dias e o professor fica na casa com "consentimento" da mãe. Em 20 dias de luta, Mr. Sahai quase nada consegue fazer e sofre nocautes atrás de nocautes da menina-animal. Mas no vigésimo dia, numa sequência de cenas angustiantes, o milagre acontece e Michelle identifica a água e fala por sinais. É o início de um longo ciclo que a levará à universidade, dezoito anos depois.

Na entrevista de admissão na universidade, os professores fazem algumas perguntas a Michelle, para testar sua inteligência. A entrevista termina com a pergunta "O que é conhecimento para você?". E Michelle responde: "Conhecimento é tudo. Conhecimento é espírito, sabedoria, coragem, luz, som. Conhecimento é a Bília, Deus. Conhecimento é meu professor". Neste instante, Michelle declara publicamente seu amor por Mr. Sahai, uma relação difícil de se estabelecer. Afinal, Mr. Debraj Sahai desisitiu de sua própria vida para doá-la a Michelle. Talvez aí esteja um dos pontos importantes que fez o diretor Sanjay Leela Bhansali mudar a história real e trocar a professora por um professor, criando uma dificílima relação edipiana entre pessoas de sexos opostos. E a sensibilidade da direção reina nesse contexto, não pecando em exageros que deturpariam a profundidade da existência de Michelle.

Em outras alterações da vida real, no filme Black Michelle possui uma irmã mais nova, que tem ciúmes por nada girar em torno de si. Mas Michelle não sabe o que é ego, não sabe o que é apego; para ela, a existência de sua irmã representa um anjo em sua vida - nada mais do que isso. O cenário escolhido, a cidade de Shimla, cria um clima um tanto quanto introspectivo, tentando nos levar para dentro dos olhos que não vêem de Michelle. Shimla, no início dos Himalaias, é pequena e agradável, além de trazer consigo a neve das montanhas. Em uma cena clássica, Michelle sente a neve chegar antes mesmo de ser ela visível aos olhos de quem vê.

E mais no final da história (e é na verdade o que se mostra no começo do filme), Mr. Sahai sofre de Alzheimer e já não se lembra de mais nada. Não pode ver Michelle graduando-se e nem compartilhar com ela a felicidade de tal feito; mas ela sabe que nada no mundo é impossível. Como ela mesma diz, a única palavra que o professor não ensinou a ela foi "impossível". E eu poderia ainda acrescentar uma coisa que um amigo indiano me ensinou: em inglês, a palavra impossível (impossible), poderia ser traduzida por "I m possible", ou, eu sou possível. Black leva isso ao extremo. Em alguns momentos, é possível estabelecer uma relação entre Black e o filme alemão O Enigma de Kaspar Hauser, que conta a história real do homem que cresceu dentro de uma cela, no escuro, sem aprender a comunicar-se ou qualquer outro tipo de relação social. Ao ser liberto, Kaspar passa por um longo processo de aprendizado e desconstrução de seu também mundo quase animalesco.
Mas de novo, a ficção imita a vida real. E se a história é (quase) real, então nada nesse mundo é impossível. Se desconhecemos a dimensão do mundo porque vemos e ouvimos, então abra os olhos da alma e enxergue o universo. Black é imperdível.

Link pro wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Black_(film)