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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Rani Mukerji - रानी मुखर्जी - রাণী মুখার্জী

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Atendendo a apelos na comunidade no Orkut deste blog, chegou a merecida vez de sabermos um bocadinho mais sobre essa fabulosa, incrível e conceituada atriz, a Rani Mukerji (ou, em outras grafias possíveis, Rani Mukherjee, ou Mukherji, enfim, no final da postagem vocês entenderão melhor).

Rani é bengalesa, nascida em Calcutá, no dia 21 de março de 1978. Sua família desde há muito está no seio do cinema indiano e, sobretudo, de Bollywood. Seu pai, Ram Mukherjee, é um diretor de filmes, embora esteja agora aposentado, e foi um dos fundadores da Filmalaya Studios (uma das dezenas de subpartes de Bollywood, em Mumbai). A mãe de Rani, Krishna, era uma famosa cantora de playback dos filmes de Bollywood. Seu irmão, Raja Mukherjee, é produtor e mais recentemente tornou-se diretor também. Sua tia por parte de mãe, Debashree Roy, é uma atriz bengalesa mais do que famosa (já tendo, inclusive, sido agraciada com o National Award de melhor atriz). Dentre os primos de Rani, a mais destacada é nada mais que Kajol. Outro primo, Ayan Mukerji, também trabalha com cinema, escrevendo e dirigindo filmes. Ufa!

Bom, a pequena Rani cresceu em Mumbai, tendo estudado na Maneckji Cooper High Schooli e posteriormente entrou an Mithibai College. Ainda jovem começou a aprender Odissi, tornando-se profissional desta dança clássica indiana proveniente do estado de Orissa.

Em 1992, Rani apareceu muito rapidamente no filme bengalês Biyer Phool, de seu pai. No entanto, sua estreia oficial no cinema aconteceu anos depois, em 1996, com o filme Raja Ki Aayegi Baraat, quando ela ainda estava na faculdade. Embora seu papel tenha sido elogiado, o filme fracassou e ela retornou aos estudos. O que ela não esperava, porém, era o que ocorreria dois anos depois.

Em 1998, ela foi convidada ao filme Ghulam, ao lado de Aamir Khan. Não só o filme foi bem nas bilheterias, como Rani ficou famosa com o povão graças à música Aati Kya Khandala. Daí, em seguida, ela apareceu no super sucesso Kuch Kuch Hota Hai, ao lado de Shahrukh Khan e Kajol, no qual ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Filmfare Awards.

De qualquer forma, em 1999 e 2000 ela não fez muito sucesso nos filmes seguintes, nem mesmo em Badal (2000), que teve boa arrecadação na bilheteria. Mas então, em 2001, ela aparece no filme Chori Chori Chupke Chupke, junto de Salman Khan e Preity Zinta, interpretando uma mulher impossibilitada de ter um filho por causa de um aborto e que procura uma mulher que aceite ser uma barriga-de-aluguel. A crítica só faltou lamber os pés de Rani com sua interpretação.

No ano seguinte, Rani protagonizou o filme Mujhse Dosti Karoge!, ao lado de Hrithik Roshan e Kareena Kapoor, marcando sua estreia na Yash Raj Films, tão cobiçada pelos atores. No mesmo ano, interpretou um excelente papel de uma jovem estudante recém-casada (e infeliz com isso) no filme Saathiya. Seu papel deu-lhe o prêmio de melhor atriz pela crítica no Filmfare Awards, além de ter sido indicada na lista oficial de melhor atriz desta mesma premiação.

Já em 2003 apareceu em 4 filmes, dentre eles Chalte Chalte e Chori Chori. No primeiro, ao lado de Shahrukh Khan, ela foi indicada pela segunda vez ao prêmio de melhor atriz. No segundo, marcou sua estreia em um papel cômico. Em 2004 foi a vez de receber seu segundo prêmio de melhor atriz coadjuvante com Yuva, de Mani Ratnam, além de também ter sido indicada ao mesmo prêmio pelo filme Veer-Zaara, que acabou por ser o maior sucesso do ano. Mas outro prêmio a aguardava neste mesmo: o de melhor atriz, também no Filmfare Awards, pela atuação Hum Tum.

Mas no ano seguinte Rani Mukerji superaria todos os seus limites. Logo no princípio do ano ela apareceu no incrível Black, de Sanjay Leela Bhansali e com Amitabh Bachchan, interpretando o impossível papel de uma mulher cega e surda, baseado na história real de Helen Keller. Rani chegou a recusar o papel, alegando não ser atriz suficiente para encará-lo. Sanjay acreditou nela, e o resultado foi a rara dupla premiação no Filmfare Awards, a de melhor atriz na lista oficial e também pela crítica, além de dezenas de outros prêmios.

Mas ainda em 2005, Rani apareceu em Bunty Aur Babli, Paheli, e Mangal Pandey. O primeiro foi um dos maiores sucessos do ano, embora os outros dois também tenham sido muito bem sucedidos.

Em 2006, Rani aparece em Kabhi Alvida Naa Kehna, ao lado de Amitabh Bachchan, Abhishek Bachchan, Shahrukh Khan e Preity Zinta, filme esse que se tornou o de maior arrecadação fora da Índia em todos os tempos. Outro filme de Rani do mesmo ano, Baabul, acabou por também fazer mais sucesso fora da Índia do que dentro do país.

Em 2007 ela apareceu em Ta Ra Rum Pum, que foi bem recebido, o que não aconteceu com Laaga Chunari Mein Daag e Saawariya. Este último, de Sanjay Leela Bhansali, foi a primeira coprodução da Sony na Índia e, graças a isso, pode ser encontrado à venda e para locação em alguns lugares aqui no Brasil.

O filme Thoda Pyaar Thoda Magic foi o único a ter Rani em 2008, mas que não fez sucesso. Agora em 2009, ela também aparece em somente um filme, Dil Bole Hadippa, no qual interpreta uma mulher que se disfarça de homem para entrar no mundo do críquete. Ao que consta, embora ainda esteja em cartaz por lá, ele também não vem fazendo sucesso.

Certo, e agora vamos à vida pessoal de Rani Mukerji.

A começar por uma característica não muito comum às personalidades em geral, que é a discrição. Os fofoqueiros em geral insistem em descobrir fatos da vida de Rani, mas o que acabam por fazer é inventar histórias, imediatamente desmentidas por ela.

Mas um fato interessante de sua vida diz respeito ao seu nome na transliteração ao inglês. Originalmente Mukherjee, ela mudou-o para Mukerji há anos, tendo alegado motivos de numerologia. No entanto, recentemente, Rani teria dito que a história da numerologia era balela e que o verdadeiro motivo para a mudança foi o fato de seu passaporte ter sido registrado como Mukerji, levando-a a adotar essa transliteração em todos os lados.

Outra estranha história de conta e desmente envolvendo Rani diz respeito a uma entrevista que ela deu à britânica Desi Xpress, na qual ela teria dito que seu ídolo é Adolf Hitler, sendo então super criticada. Um ano depois, em outra entrevista, dessa vez na Times Now, ela afirmou veementemente que jamais disse aquilo.

Em 2006, durante as filmagens de Laaga Chunari Mein Daag em Varanasi, seus seguranças particulares acabaram agredindo fisicamente a multidão que se formou em volta. Rani foi duramente criticada pela mídia por não ter interferido no que ocorreu, o que a forçou a emitir um pedido formal de desculpas à população.

Mas há também fatos memoráveis. Em 2004, Rani foi às dunas do Rajastão prestar seu apoio e solideriedade aos soldados indianos que defendem as tensas fronteiras do país com o Paquistão. No ano seguinte, apareceu com vários outros atores na HELP! Telethon Concert para arrecadar fundos às vítimas do tsunami. No mesmo ano, também participou dos shows para arrecadar dinheiro ao National Centre For Promotional of Employment for Disabled People (Centro Nacional de Promoção de Emprego aos Deficientes).

Em 2007, Rani levou 5.000.000 de rúpias (mais de 100 mil dólares) na versão indiana do Quem Quer Ser Milionário?. O dinheiro foi inteiro doado ao Holy Family Hospital, especializado em crianças com problemas cardíacos.

domingo, 31 de maio de 2009

Saawariya (2007) - सावरिया

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Saawariya (Amado/a) é um filme bem tipicamente bollywoodiano, ainda mais tendo sido dirigido por Sanjay Leela Bhansali, que em sua curta filmografia, dirigiu dois dos filmes de maior sucesso de público e de crítica na história de Bollywood: Devdas e Black.

Embora eu tenha feito um super elogio para o filme Black, o mesmo não foi dispendido na minha crítica a Devdas, mas pouparei Saawariya. Pra começar, neste filme Sanjay Leela Bhansali seguiu o seu estilo e fez um filme cem por cento em estúdio, com cenário propositadamente exagerado e atuações também propositadamente forçadas. Além disso, o filme se passa inteirinho à noite, facilitando questões de cenário e iluminação. Não que eu não goste disso, um filme pode ser muito bem feito dessa maneira. Aliás, eu gostei de Saawariya, eu poderia dizer que ele é um filme bem bonitinho, mas não passa muito disso. Os personagens são caricatos, o cenário é caricato e quase surreal até, tem uma boa dose de song-and-dances no meio das duas horas de filme, e é uma simpática história de amor-utopia.

E eu diria que, talvez, as atuações dos dois então estreantes Ranbir Kapoor e Sonam Kapoor (que fizeram os protagonistas) foram bem importantes para o filme. Eu digo isso pensando na ideia inicial de Sanjay de colocar como protagonistas Salman Khan e Rani Mukerji (que acabaram sendo coadjuvantes). Acho que a aposta de Sanjay de colocar rostos desconhecidos para os papéis principais foi uma boa sacada, contribuindo mais ainda com o clima bucólico-surreal e mesmo delicado da trama. E esse nem é o estilo de Sanjay, já que em Devdas os protagonistas foram nada mais que Shahrukh Khan e Aishwarya Rai e em Black foram Amitabh Bachchan e a mesma Rani Mukerji que aparece de novo aqui, como coadjuvante. E por Saawariya, Ranbir Kapoor levou o prêmio de melhor ator estreante no Filmfare Awards.

A história do filme é baseada no livro Noites Brancas do russo Fiodor Dostoievski, conforme é dito assim que o filme começa. Toda a trama se passa numa cidade fictícia e é narrada por Gulabji (Rani Mukerji), uma das mais conhecidas prostitutas locais, que conta então a história de Ranbir Raj (Ranbir Kapoor). Raj é um misterioso rapaz que aparece na cidade dizendo ser músico e logo começa a trabalhar no bar RK, o preferido de Gulabji, que se encanta pelo ingênuo e inocente músico. Procurando um lugar pra morar, Raj encontra a pensão de Lilian (Zohra Segal, na época com 95 anos), uma simpática velhota, que ele logo apelida de Lilipop. Os dois acabam por se adotarem como mãe e filho.

Andando pela cidade numa noite (sempre é noite no filme, ok), Raj esbarra com uma misteriora mulher que está chorando sobre uma ponte. Ele logo descobre que ela é Sakina (Sonam Kapoor), mas não consegue entender o porquê da tristeza em seus olhos. Obviamente, no mesmo instante ele apaixona-se por ela, mas quando decide por revelar seu amor, descobre que ela espera há um ano por seu grande amor, Imaan (Salman Khan). Raj, no entanto, não consegue disfarçar seu sofrimento e declara-se para Sakina, dizendo que Imaan jamais apareceria.

Mas eis que o final não é bem favorável a ele, embora, confesso, eu tenha achado bem bonitinho na maneira com que aconteceu.

Eu não li o livro de Dostoievski que inspirou esse filme, mas soube que seu nome, Noites Brancas, deve-se ao fenônemo que ocorre no verão das regiões perto dos pólos, quando o sol não se põe durante algumas noites. O livro se passa justamente durante essas "noites" claras, brancas, portanto, de São Petersburgo, na Rússia. No filme as noites não são brancas, mas ao contrário, são escuras e frias. Mais pro final neva (será a noite branca?), e senti que Sanjay fez um certo resgate do momento poético da neve que ele já havia feito em Black. E depois de saber que o livro originalmente se passa em São Petersburgo, entendi muito melhor a cidade fictícia criada para o filme, totalmente europeia, além de ter uns certos canais no meio, à la Veneza, com direito a gôndolas e tudo - São Petersburgo é chamada de "A Veneza da Rússia".

E fiquei sabendo, depois, de uma outra curiosidade importante: Sanjay Leela Bhansali é grande admirador da obra do finado Raj Kapoor, considerado por muitos o "Chaplin da Índia", e que, portanto, a primeira cena do filme seria uma homenagem à obra Barsaat (1949), que consagrou Raj Kapoor. Além disso, o bar "RK" é uma homenagem direta a ele. Não só bastasse isso, Ranbir Kapoor é nada mais que seu neto.

E se tinha momentos no filme que eu ficava mais feliz que o normal era quando aparecia Lilipop, a velhota dona da pensão, que era uma graça. Infelizmente ela não aparece tanto, mas gostei muito de vê-la.

O filme não fez tanto sucesso na Índia, embora no exterior tenha sido bem recebido. Foi a primeira produção de Bollywood a ser coproduzida por um estúdio de Hollywood, a Sony Pictures Entertainment. Quando lançado, produtores de Kollywood acusaram Sanjay Leela Bhansali de estar plagiando o filme tamil Iyarkai, mas a acusação não se sustentou pois os filmes são muito diferentes. No entanto, ambos eram baseados no mesmo livro Noites Brancas, obviamente justificando alguma semelhança.

E vejam o trailer do filme a seguir.



Colaborou: Barbarella

sábado, 30 de agosto de 2008

Bollywood - बॉलीवुड - Primeira Parte


Finalmente, encerrando nossa série sobre os cinemas regionais da Índia, falaremos sobre a quase onipotente, onipresente e onisciente Bollywood (mistura de Bombay com Hollywood). Tive que utilizar o “quase”, pois embora haja um megalomanismo único nesta indústria, ela ainda não conquistou os quatro cantos do planeta. Mesmo assim, ainda que restem alguns passos para a divindade de Bollywood, seus atores são mesmo deuses para os indianos.


Bom, então vamos ao que interessa. Embora Bollywood seja conhecida por quase que a totalidade de nossos leitores, estou certo que muitos não sabem o que é realmente essa indústria. Diferentemente de outras regiões da Índia, Bollywood não tem um espaço físico próprio, uma sede, ou um complexo de estúdios. A verdade é que Bollywood é sustentada por uma rede de estúdios, diretores e produtoras espalhados por Mumbai, capital do estado do Maharashtra, cuja língua oficial é o marathi. Mas não é do marathi que Bollywood faz sua fama, mas sim do hindi, a língua predominante no norte do país.


Consta que Bollywood produz, sozinha, mais filmes que Hollywood. Os números não são precisos, mas nem sequer os próprios indianos têm noção de quantos filmes estão sendo lançados a cada semana. Embora Bollywood faça filmes em hindi e acabe servindo principalmente à porção norte do país, toda a Índia curva-se à sua magia. As indústrias do sul, na maioria dos casos, conseguem ter maior audiência com as populações locais, mas os grandes sucessos do cinema hindi são, de fato, grandes sucessos de toda a Índia.


E vamos agora falar de história. Quem vem acompanhando esta série talvez se lembre da postagem sobre o cinema marathi, em que se dizia que seu primeiro filme foi lançado em 1913, com o título de Raja Harichandra, feito por Dadasaheb Phalke, um diretor marathi por nascimento. Acontece que Bollywood também pega pra si como sendo este o seu primeiro filme, uma vez que o filme era mudo e que ele tenha sido feito nos embriões desta futura grande indústria. O fato é que o primeiro filme definitivamente hindi foi Alam Ara (1931), de Ardeshir Irani, o primeiro filme falado nesta língua. Foi um grande sucesso.


Embora nos anos 30 e 40 a Índia tenha sofrido os efeitos da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, as indústrias de cinema puderam resistir, aproveitando inclusive o cenário externo e os temas relevantes ao país no momento, como a luta pela independência. Nas décadas seguintes a indústria hindi foi caminhando a passos nem tão largos assim. Alguns atores ficaram muito famosos e ganharam projeção nacional, como Dev Anand, Dilip Kumar e Meena Kumari. Os temas eram desde romances até filmes de ação, passando até para filmes sobre gângsters – foi em um desses que surgiu o hoje divindade Amitabh Bachchan, ainda nos princípios dos anos 70.


Foi somente nos anos 90 que a Bollywood deu a volta por cima e transformou-se na grande indústria de cinema da Índia, com o tema que até hoje ainda se repete como fórmula de sucesso: família - amor “impossível” - song-and-dance. O primeiro a surgir assim foi Hum Aapke Hain Kaun (1994), seguido pela unanimidade Dilwale Dulhania Le Jayenge – DDLJ (1995). Foi aí que surgiu nada mais nada menos que a outra divindade Shahrukh Khan. Durante esta década nenhum filme fez mais sucesso que DDLJ, que segue até hoje como o “grande filme” hindi. Mas nos anos 2000 uma nova série de produtoras, diretores e atores surgiram com novas idéias e tecnologias – na verdade aproveitando-se da onda de crescimento econômico indiano que ainda não terminou.


A era dos efeitos especiais e das mega produções estava só começando na Índia, liderada por Bollywood. Produtoras como Yash Raj Films e Dharma Productions encabeçaram os lançamentos. Ao mesmo tempo, novos shoppings eram construídos pelo país, e novas salas multiplex eram inauguradas, dando respaldo para o lançamento de filmes cada vez mais bem elaborados e mais caros. Foi nesses anos recentes que lançaram os mega sucessos Devdas, Koi... Mil Gaya, Kal Ho Na Ho, Veer-Zaara e a série Dhoom. Também surgiram e se consolidaram novas divindades, como o próprio Shahrukh Khan, Amitabh Bachchan, Hrithik Hoshan, Aamir Khan, Aishwarya Rai, Karina Kapoor e Rani Mukerji.


No entanto, nesta segunda metade dos anos 2000, uma nova mudança vem sendo notada em Bollywood. Após a grande onda de euforia e entrada de dinheiro em caixa, a repetição de temas e fórmulas parece estar se esgotando; ou ao menos irão se manter, ao mesmo tempo que um novo estio começa a aparecer. Alguns diretores, na maior parte novatos, estão aproveitando um novo terreno que surge na Índia, ao mesmo tempo que ajudam a construí-lo com a força que o cinema tem nessa país. Um processo de ocidentalização acelerado na Índia – que ocorre graças ao crescimento econômico também acelerado – está trazendo novos padrões sociais, quebrando alguns dogmas, regras e preconceitos. Os filmes estão ficando mais sérios, embora às vezes mantenham cenas de song-and-dance, ou ao menos apenas cenas com música, como se fossem clipes no meio da trama. São exemplos recentes disso o próprio premiado Taare Zameen Par e Shaurya. O primeiro trata sobre a dislexia (veja as postagens que já existem sobre este maravilhoso filme) e o segundo sobre a tensa relação hinduísmo-islamismo e a Caxemira. Também não posso deixar de citar Black, já comentado também neste blog, que nem sequer cena de música tem, embora tenha apoiado-se sobre as ótimas atuações de Amitabh Bachchan e Rani Mukerji.


E nos tempos mais recentes ainda, talvez eu possa afirmar que agora, no ano de 2008, filmes ainda mais ousados para aquela indústria estão surgindo, como adiantou a Sandra no Indi(a)gestão (www.indiagestao.blogspot.com). São filmes que talvez causem polêmica, ou talvez ninguém nem fique sabendo. A produção Hostel tratará sobre um garoto que é estuprado; It's a Man's World contará sobre a prostituição masculina no país; e Pankh revelará o drama de um jovem em relação à sua opção sexual. É importante que vocês saibam que na Índia os indianos afirmam com unhas e dentes não haver homossexualidade por lá, o que é a mais profunda mentira. Até mesmo indianos esclarecidos falam que por lá não há gays como no ocidente, o que é de novo uma mentira. Ainda que estes filmes não façam sucesso, talvez sejam o início de um processo de aceitação sobre uma realidade presente para eles.


Bollywood, mais que outras indústrias indianas, tem um importantíssimo papel de trazer novos valores para a sociedade indiana. Alguns podem afirmar que isso é negativo, que é um processo de aculturação, ocidentalização e descaracterização da verdadeira cultura indiana. Pode até ser que seja mesmo isso que esteja ocorrendo, mas prefiro pensar que se a característica de um povo é ser hipócrita e preconceituoso, então que mudem mesmo para melhor; não por mim, não pelo mundo globalizado, mas por eles mesmos.


Falar sobre Bollywood dá muito pano pra manga. Este post já está muito grande e, por isso, continuarei numa segunda postagem. Clique aqui e leia a continuação!


quarta-feira, 18 de junho de 2008

Abra os olhos da alma


Os onze prêmios dados ao filme Black são muito mais que merecidos. É uma produção com qualidade insuperável e de uma simplicidade muito difícil de se fazer. Seria injustiça dizer que Bollywood não faz bons filmes, assim como não seria correto afirmar que um filme precisa ter cenas de música para conseguir ser produzido em Bollywood. Tudo depende da vontade conjunta do diretor, produtor e atores... talvez para Black ter saído tenha sido necessária a presença de Amitabh Bachchan, o Big B, no importante papel de Mr. Debraj Sahai. Big B é o ator cuja adoração na Índia, na verdade, ainda está por ser superada talvez por Shahrukh Khan. Na Índia, sendo as pessoas mais velhas muito respeitadas, e sendo atores de Bollywood tratados como deuses, ser então um velho ator renomado é quase o mesmo que ser o Deus Supremo. E Amitabh Bachchan fez o seu melhor neste filme.

Mas Rani Mukerji também merece todas as condecorações que sua atuação pode receber. No papel de Michelle McNally (que seria então a Helen Keller neste filme), Rani consegue brilhantemente enganar a todos e faz-nos pensar que é realmente cega e surda. Sua angústia e vontade de viver atravessam a tela e atingem em cheio nossa arrogância. E ainda surpreendente, Michelle criança é interpretada pela atriz-mirim Ayesha Kapoor, afligindo-nos com seu comportamento animalesco com que Mr. Sahai se deparou ao vê-la pela primeira vez. O prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante só não teve o Coadjuvante retirado porque Rani Mukerji merecia mesmo o principal.

O filme se passa na então capital de verão britânica, Shimla. A família McNally, anglo-indiana, é cristã e muito rica. Quando Mr. Sahai é contratado para tentar educar a pequena Michelle, de imediato o pai entra em desacordo com a maneira bruta com que o tal professor trata a criança. Mas ou Michelle aprenderia com tratamento de choque, ou a família McNally seria geradora de um bizarro ser humano-animal incontrolável. Mr. Sahai é mandado embora, mas por um golpe de sorte, no mesmo dia o pai de Michelle vai viajar por 20 dias e o professor fica na casa com "consentimento" da mãe. Em 20 dias de luta, Mr. Sahai quase nada consegue fazer e sofre nocautes atrás de nocautes da menina-animal. Mas no vigésimo dia, numa sequência de cenas angustiantes, o milagre acontece e Michelle identifica a água e fala por sinais. É o início de um longo ciclo que a levará à universidade, dezoito anos depois.

Na entrevista de admissão na universidade, os professores fazem algumas perguntas a Michelle, para testar sua inteligência. A entrevista termina com a pergunta "O que é conhecimento para você?". E Michelle responde: "Conhecimento é tudo. Conhecimento é espírito, sabedoria, coragem, luz, som. Conhecimento é a Bília, Deus. Conhecimento é meu professor". Neste instante, Michelle declara publicamente seu amor por Mr. Sahai, uma relação difícil de se estabelecer. Afinal, Mr. Debraj Sahai desisitiu de sua própria vida para doá-la a Michelle. Talvez aí esteja um dos pontos importantes que fez o diretor Sanjay Leela Bhansali mudar a história real e trocar a professora por um professor, criando uma dificílima relação edipiana entre pessoas de sexos opostos. E a sensibilidade da direção reina nesse contexto, não pecando em exageros que deturpariam a profundidade da existência de Michelle.

Em outras alterações da vida real, no filme Black Michelle possui uma irmã mais nova, que tem ciúmes por nada girar em torno de si. Mas Michelle não sabe o que é ego, não sabe o que é apego; para ela, a existência de sua irmã representa um anjo em sua vida - nada mais do que isso. O cenário escolhido, a cidade de Shimla, cria um clima um tanto quanto introspectivo, tentando nos levar para dentro dos olhos que não vêem de Michelle. Shimla, no início dos Himalaias, é pequena e agradável, além de trazer consigo a neve das montanhas. Em uma cena clássica, Michelle sente a neve chegar antes mesmo de ser ela visível aos olhos de quem vê.

E mais no final da história (e é na verdade o que se mostra no começo do filme), Mr. Sahai sofre de Alzheimer e já não se lembra de mais nada. Não pode ver Michelle graduando-se e nem compartilhar com ela a felicidade de tal feito; mas ela sabe que nada no mundo é impossível. Como ela mesma diz, a única palavra que o professor não ensinou a ela foi "impossível". E eu poderia ainda acrescentar uma coisa que um amigo indiano me ensinou: em inglês, a palavra impossível (impossible), poderia ser traduzida por "I m possible", ou, eu sou possível. Black leva isso ao extremo. Em alguns momentos, é possível estabelecer uma relação entre Black e o filme alemão O Enigma de Kaspar Hauser, que conta a história real do homem que cresceu dentro de uma cela, no escuro, sem aprender a comunicar-se ou qualquer outro tipo de relação social. Ao ser liberto, Kaspar passa por um longo processo de aprendizado e desconstrução de seu também mundo quase animalesco.
Mas de novo, a ficção imita a vida real. E se a história é (quase) real, então nada nesse mundo é impossível. Se desconhecemos a dimensão do mundo porque vemos e ouvimos, então abra os olhos da alma e enxergue o universo. Black é imperdível.

Link pro wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Black_(film)

terça-feira, 17 de junho de 2008

Black - ब्लैक



Vamos imaginar uma coisa: você é cego, mas pelo menos pode ouvir e falar. Agora imagine que você é surdo, mas pode ver e se comunicar com a linguagem de sinais. Mas agora se imagine cego e surdo. Você não vê e não ouve. Seu mundo não tem luz nem sons; somente o tato é sua ponte entre o mundo externo e você. E a comunicação torna-se o maior de todos os desafios. Mas sonhe que um dia, nessas condições, você terá um diploma universitário e virará escritor.

Em 1880 nascia Helen Keller, no estado de Alabama, Estados Unidos. Ainda com poucos meses de idade, em conseqüência de alguma doença não muito bem esclarecida, a pequena criança fica completamente cega e surda e seus pais simplesmente não sabem como lidar com isso, menos ainda como educá-la. Aos oito anos de idade, Helen comporta-se como um animal, agindo sob instintos, absolutamente alijada de qualquer meio de comunicação com seu mundo exterior. No entanto, eis que aparece Anne Sullivan, uma ex-cega, que aceita a impossível tarefa de ensinar Helen a comunicar-se. Mrs. Sullivan não só consegue educar Helen, como, após longo tempo, consegue sua admissão em uma faculdade de filosofia. Mrs. Sullivan a acompanha em todas as aulas, fazendo para Helen os sinais daquilo que estava sendo dito pelos professores. Helen consegue graduar-se e acaba tornando-se uma notável escritora, além de ativista pelos direitos humanos – era uma socialista declarada.

A história que contei não é do filme Black, que ainda irei falar. Expus aqui a história real de Helen Keller, cuja inacreditável vida serviu de inspiração direta para este maravilhoso filme de Bollywood. Em 1962, Hollywood produziu um filme, chamado The Miracle Worker (O Milagre de Anne Sullivan, no Brasil, e O Milagre de Helen Keller, em Portugal), contando a história de Helen Keller somente até o momento em que ela consegue identificar a primeira palavra. Black faz muitas coisas semelhantes, inclusive de interpretação, relacionadas ao The Miracle Worker, mas vai além e tenta prosseguir na história, dessa vez até a graduação da garota cega-surda.

No entanto, Sanjay Leela Bhansali, o diretor e escritor deste filme, por algum motivo, decide que seu filme não seria uma história real, mas apenas baseada em. Em Black, Helen Keller é Michelle McNally (Rani Mukerji) e Mrs. Anne Sullivan é Mr. Debraj Sahai (Amitabh Bachchan). Embora tudo no filme seja explicitamente a vida de Helen Keller, sua professora é um professor e o fim da história já não é a mesma coisa que aconteceu na vida real. Apesar disso, o filme é absolutamente maravilhoso.

Black é a produção com maior número de prêmios recebidos no Filmfare Awards de todos os tempos, com onze premiações. O recorde, batido em 2006, passou o sucesso absoluto na Índia, Dilwale Dulhania Le Jayenge – DDLJ (1995), e Devdas (2002), ambos com dez prêmios cada. Na premiação mais famosa da Índia, Black levou o troféu de Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz, Melhor Performance pela Crítica (pra Amitabh Bachchan e Rani Mukerji), Atriz Coadjuvante, Edição, Fotografia, Cenário e Melhor Filme pela Crítica.

A seguir veja o trailer e clique aqui para ler a segunda postagem sobre este filme, onde faço a minha crítica.