segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Entrevista com Beatriz Seigner, diretora de Bollywood Dream

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Conforme prometido na postagem sobre o filme Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano, aqui vai a exclusiva entrevista com a diretora dessa excelente obra, Beatriz Seigner. O filme teve excelente recepção na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e esteve entre os finalistas para o maior prêmio da Mostra.

Ela gentilmente topou responder a algumas perguntas que fiz, e o resultado vocês podem conferir aqui. Ela conta como foi o processo de elaboração do roteiro, como o apoio com a equipe indiana foi fundamental - sobretudo com a mão de Santosh Sivan - e declara gostar de Taare Zameen Par, dentre outros filmes.

E preciso dizer, mesmo sem ter pedido permissão, mas Beatriz tem apenas 25 anos de idade. Digo principalmente como incentivo a todos, e uso o "apenas" como prova de que com determinação somos capazes de realizar aquilo que queremos, sabendo onde meter a cara, ou tirar o corpo no momento correto. Com poesia e filosofia, essa entrevista com Beatriz Seigner fala muito mais do que as poucas perguntas que fiz.

Em breve vocês também terão a oportunidade de ver uma entrevista com as três atrizes do filme. Aguardem!


Cinema Indiano: Fiquei sabendo que a ideia de fazer um filme na Índia surgiu mais ou menos por acaso, durante um almoço, quando você contou sobre sua viagem para esse país. Mas como foi que o roteiro em si configurou-se? Como surgiu a ideia de Bollywood?

Beatriz Seigner: Então, eu já havia morado na Índia em 2003 já com a ideia de fazer um filme que unisse Brasil e Índia, e estava fazendo um documentário sobre os valores e tradições que estão desaparecendo com o rápido processo de Ocidentalização da Índia, e vários atores, amigos meus, vinham me perguntar como poderiam ir para Bollywood participar de algum filme. Até que uma hora deu o click, e eu falei com a Lorena, na fila de uma peça, sobre fazer um filme chamado Bollywood Dream ( o nome veio junto com o click - nome em inglês pois era um sonho estrangeiro), sobre três atrizes que queriam ir para a Índia para tentar a sorte na indústria cinematográfica de lá e experimentariam os contrastes destas mudanças com as quais eu estava tentando lidar. E a Lorena na hora disse que havia outra amiga dela, a Paula Braun, com quem havia feito O Cheiro do Ralo, e que toparia uma aventura destas.

Acho que naquela mesma semana nos sentamos para almoçar e então perguntei o que cada uma estava com vontade de viver, quais perguntas queriam trazer para os personagens/roteiro. A terceira personagem seria eu mesma aos 18 anos quando fui para lá pela primeira vez. E depois passei esta personagem para a Nataly, pedindo para que ela a tornasse sua com seus próprios questionamentos. E assim começou o processo de desenvolvimento deste roteiro tal como ficou no filme. Isso foi no final de 2006. Encontramos o Ram Devineni, em março de 2007 na Cinemateca Brasileira, que se tornou nosso produtor, e desenvolvi então este roteiro, colocando estas personagens nas situações que eu achava pertinentes para expressar as contradições que passamos neste momento de globalização e hegemonia cultural - por exmeplo o questionamento entre eterno e efêmero no festival do Ganesha, o contraste entre a dança clássica indiana, cheia de significados por trás de cada gesto, e a dança bollywoodiana, o encontro entre culturas no albergue/jazz piano bar onde convivem instrumentos/músicas ancestrais com ritmos e misturas contemporâneas, os pequenos ritos que estão desaparecendo - por exemplo os mandalas "kolans" que são feitos na frente das casas com pó branco para "organizar o universo" - coisa que cada vez fica mais raro nas grandes metrópoles pela falta de tempo em que vivem seus habitantes - e por aí vai.

Foram quatro anos de pesquisa prévia, depois dois anos desenvolvendo este roteiro, e no começo de 2008, fui para lá para ver os estúdios da família do Ram, e as mudanças que tinham acontecido na Índia em 5 anos, e o roteiro ganhou outro salto qualitativo. No final de agosto de 2008 fui para lá fazer a preprodução, e as meninas chegaram no começo de setembro para filmarmos.

CI: Houve alguma mudança no roteiro depois que as dificuldades reais foram enfrentadas?

BS: Muitas. E isso é uma delícia. O roteiro é bom para que se haja um condensamento daquilo que se quer falar/experimentar, uma costura, que as coisas não se percam, pois na hora da ação são muitas forças puxando para direções distintas e é muito fácil perder a coerência de tudo. Eu não queria que o filme fosse um relato de viagem de pessoas vislumbradas consigo próprias, nem uma conversa de bar que não chega a lugar nenhum. Queria propor mudanças e colocar em cheque certos valores modernos. Queria dividir perguntas, principalmente aquela que tanto nos fazem na Índia: "Ao que você pertence, irmão?", pois sinto que cada vez menos pertencemos a alguma coisa neste mundo líquido moderno, inclusive nem a nós mesmos, uma vez que ser íntegro, só fazer aquilo que se acredita ético - no sentido Espinozano do termo, ações que nos trazem felicidade eternas e não efêmeras -, parece ser ingênuo nos dias de hoje.

Quis olhar para o passado, numa sociedade onde ainda se encontra estes valores sendo discutidos nas ruas, para questionar de alguma maneira os caminhos que estamos escolhendo para nosso futuro em termos de humanidade. Mergulhadas nos personagens destas três atrizes, que também estão em buscas - errantes, confusas. Com a palavra pertencer surge o questionamento de identidade, de pertencimento coletivo, das várias camadas de condicionamentos sociais, culturais, familiares, geográficos e temporais a que estamos submetidos. Surge nossa identidade em construção como brasileiros no espelho de outra cultura estrangeira. E este vira o centro do furacão/jornada destes personagens.

Muitas coisas foram se transformando durante as filmagens, principalmente no modo como filmamos, interagindo com as pessoas realmente nas ruas, porque queríamos que tudo parecesse ocorrido ao acaso, "por coincidência" e sorte, mas essa essência, este fio condutor, continuou o mesmo. E isso só foi possível porque tínhamos um roteiro e uma pesquisa elaborada por cerca de 7 anos, que nos deixou livres para improvisar nas situações que existem de verdade com segurança. Como jazz, busca-se o evento, o acontecimento apenas possível naquele momento com aquelas pessoas naquela situação, sobre uma chave já combinada de antemão com todos os músicos presentes. Daí, consegue-se dar alguns voos livres, entre os galhos de pousos nesta estrutura.

CI: Eu achei bem interessante a sutil presença de Bhavana Rhya, dando o tom do choque cultural vivido por cada uma. Como veio essa ideia?

BS: Ela é minha professora de Odissi desde 2002. Foi com ela que esta paixão pela Índia e sua cultura começou. Essa ideia do contraste entre aquilo que se dançava há milhares de anos, as histórias que se contava através da dança, os questionamentos a que se propunham com aqueles movimentos, "dançar para fazer os deuses dançarem e assim exercerem suas funções" e aquilo que se dança hoje, é de certa forma a raiz de todo o resto.

Quando as pessoas na Índia vêem aquela sequência nas cavernas imediatamente elas falam "ah, elas voltaram no tempo!".

CI
: Você já tinha visto algum filme indiano antes de fazerem O Sonho Bollywoodiano?

BS: Sim, muitos.

CI: Suponho que hoje já tenha visto alguns. Que reação teve com o primeiro que viu? Gostou de algum em particular?

BS: Achei muito engraçado. O primeiro que vi num cinema lá era uma versão indiana daquele filme hollywoodiano A Rocha. O mais divertido era a reação das pessoas avisando o mocinho ou o vilão que a mocinha ainda estava viva, estava atrás deles e etc...

Gosto do Taare Zameen Par, que representa bem o momento de mudança que passa Bollywood atualmente, e de vários outros filmes indianos que não seguem a fórmula nem a estética Bollywoodiana, em particular gosto de mais dos filmes de Satyajit Ray e os do Santosh Sivan.

CI: De volta ao filme, quanto tempo vocês passaram na Índia? Fizeram algum preparo anterior à viagem ou foram para lá da mesma maneira que chegam as personagens?

BS: Eu fiquei lá por 12 semanas e as meninas por 8. Sim, muitos preparos da minha parte. Até agora para finalizar o filme já foram 4 viagens até lá.

CI
: O que mais a impressionou lá?

BS: Puts, tive que fazer um filme inteiro para conseguir expressar isso! :)

CI
: Para um ocidental, fazer um filme na Índia está longe de ser a coisa mais fácil do mundo. As coisas pioram por vocês todas serem mulheres. Quais foram as maiores dificuldades que vocês enfrentaram?

BS: Acho que para qualquer projeto cinematográfico que se queira fazer, a chave principal, e talvez o mais difícil e importante, seja encontrar os pares certos para se realizar aquilo que se quer. Pessoas que estejam afinadas estéticas e ideologicamentes. Quando encontramos a equipe que tinha os mesmos gostos, ousadias e princípios que a gente, tudo começou a se mover de maneira orgânica, e ficou mais fácil suportar o trabalho pesado e os percalços do caminho. Pois parece fácil, parece tudo coincidência, mas é tudo puro suor e trabalho meticuloso, repetitivo, artesanal, para que tudo pareça ao acaso como a vida. Passamos por muitas situações limites, de esgotamento físico e mental, e sem dúvida foi uma tarefa hercúlea para todos nós. 99% das probabilidades era que não fosse dar certo, que saíssemos de lá sem um filme. Nos agarramos naquele 1% que era nossa intuição que nos dizía que tínhamos um propósito no qual acreditávamos, e que custasse o que custasse, íamos com a experiência até o fim.

As dificuldades foram muitas, mas minha maior alegria agora, é quando ouço alguém que viu o filme dizer que dá vontade de pegar uma câmera e meter as caras para fazer algo que acredita também. Fui muito instigada nesta empreitada por aquele poema do Goethe que diz que "coragem contém genialidade, poder e magia em si" e que quando a pessoa se compromete de verdade com algo, uma série de encontros que ninguém poderia prever acontecem, e cada encontro traz consigo uma mão daqui, outra dali, e quando você percebe a coisa está se realizando em frente aos seus olhos.

Muitas vezes quando eu apertava o botão "rec" da câmera me parecia que eu estava recordando uma cena que eu havia escrito mas que na verdade já estava acontecendo em algum lugar, e que eu tinha voltado para um momento no tempo antes da realização do roteiro e estava apertando ali, com as atrizes, o botão "recordar". E a Índia é o lugar ideal para que todos os seus conceitos de tempo, espaço, limite, inconsciente coletivo venham à tona e sejam questionados.

Dificuldades? Ah, tantas. Mas já nem me lembro direito delas. Pois nenhuma delas chegou de fato a nos imobilizar. Como dizia F. Pessoa: "Fazer das quedas passos de dança".

CI: Vocês fariam algum filme de Bollywood, mesmo se fosse apenas para aparecer em alguma cena de dança, como querem as personagens?

BS: Fizemos isso para conseguir filmar dentro de sets de filmagem de outros filmes de verdade. Mas com o puro propósito de realizar nosso filme.

CI: Para fazer esse filme vocês contracenaram com pessoas importantes no meio tamil, além de ter tido o apoio de Santosh Sivan, que tem forte projeção não só na indústria tamil, mas também em Bollywood. Vocês tinham consciência da importância deles? Como foi o trabalho com essa equipe indiana?

BS: Sim, Santosh virou nosso grande amigo e produtor executivo de nosso filme. A primeira equipe com que trabalhamos não deu nada certo, pois tínhamso estéticas diferentes, eles gostavam de glamour e eu acho humilhante qualquer pessoa que precisa de glamour para se olhar no espelho. Eles queriam heroínas e eu queria seres humanos. Eles queriam planos explícitos e eu queria filmar pelas sombras, entre cabides, deixar muita coisa fora de quadro, câmera na mão, iluminação natural, para que tudo parecesse captado ao acaso, quase como um documentário, ou reality show.

Queríamos andar na fronteira onde todos estes estilos borram uns aos outros, onde todas estas limitações tornam-se ilusórias. Queria improvisar e fazer planos sequências, e para eles isso era horroroso. Então depois do primeiro dia de filmagem desistimos de dar murro em ponta de faca e fomos atrás de pessoas com maior veia experimental e que pudessem nos ajudar a ir na direção que queríamos. Foi quando o Santosh entrou no nosso barco e nos mandou os assistentes dele para nos ajudar em definitivo. E os percalços daí em diante ficaram mais fáceis de serem transpostos, pois estávamos todos na mesma sintonia, indo na mesma direção.

CI: Eu comentei na minha crítica que algumas dificuldades vividas pelas personagens foram semelhantes ao que eu mesmo vivi lá (a reserva no hotel, o trem errado etc.). Houve alguma inspiração real para isso?

BS: Claro, sempre. A paixão pela realidade, e a transcendência dela através da subjetividade humana, é o que nos dá tesão nesta arte.

CI
: Por fim, o que vocês trazem hoje na bagagem depois dessa experiência?

BS: A própria experiência desta realização, e a delícia das amizades e encontros que este filme proporcionou.

Filmes

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A fim de disciplinar as postagens específicas sobre os filmes e facilitar a vida de todos, aqui estão listados todos os filmes que foram publicados aqui no Cinema Indiano. As novas postagens serão imediatamente atualizadas nesta lista.

Para acessar esta página, basta clicar no link Filmes Indianos, já existente na coluna ao lado, e assim poder encontrar de maneira bem mais eficiente o texto sobre o filme que procura.

A lista está em ordem alfabética. O que estiver em laranja representará as postagens (atualizações) mais recentes.

AAG (2007)
Bandit Queen (1994)
Black (2005)
Bollywood Dream (2009)
Bombay (1995)
Delhi-6 (2009)
Devdas (2002)
Firaaq (2008)
Gauri: The Unborn (2007)
Ghajini (2008)
Jodhaa Akbar (2008)
Kaminey (2009)
Kanchivaram (2008)
Lagaan (2001)
Lage Raho Munna Bhai (2006)
Madholal Keep Walking (2009)
Maine Gandhi Ko Nahin Mara (2005)
Matrubhoomi (2003)
Oye Lucky! Lucky Oye! (2008)
Rang De Basanti (2006)
Roadside Romeo (2008)
Roja (1992)
Saawariya (2007)
Sholay (1975)
Slumdog Millionaire (2008)
Taare Zameen Par (2007)
Tashan (2008)
The Terrorist (1999)
Welcome to Sajjanpur (2008)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Firaaq (2008) - फ़िराक़ - فراق

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Esta quinta-feira guardou para mim o sexto e último filme indiano que restava eu ver na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Este ficou por último simplesmente porque eu não tinha como vê-lo em nenhum dos outros dias que esteve em exibição, mas por Vishnu e Alá, ele tinha mesmo que ficar por último! Para mim, Firaaq fechou a Mostra com a mais dourada das chaves de ouro.

O filme é indiano, mas não pertence a nenhuma indústria. Firaaq vem do seio do cinema paralelo da Índia, que produz - desde há muito tempo - obras mais do que fabulosas, com autores e atores dos melhores. E esta obra havia sido já citada na postagem Muslim Socials.

E este filme não é de qualquer um. É a estreia na direção da até então atriz Nandita Das, que ganhou a mais do que merecida projeção após interpretar o polêmico papel de uma lésbica, ao lado de Shabana Azmi, no filme Fire (1996), de Deepa Mehta. Depois ela foi também protagonista do filme Earth (1998), da mesma diretora.

Firaaq é um filme e tanto, mas não é nada fácil de ser digerido. Ele se passa no mês imediatamente subsequente aos gravíssimos atentados que aconteceram no Gujarat, em 2002. Um aviso nos diz que o filme é ficção, mas que o roteiro foi baseado em mil histórias reais. Assim que começa, vemos dois muçulmanos enterrando dezenas de corpos em uma vala comum. Eles estão visivelmente abalados emocionalmente, até que chega um caminhão e despeja mais uma dezena de corpos. Nesse amontoado de novos corpos, há provavelmente por engano o corpo de uma hindu, que por princípios religiosos não pode ser enterrada. Um dos homens que ali estava, ao ver a mulher hindu morta, pega a pá que tinha em mãos e, num ataque de fúria viceral descontrolada, vai pra cima dela querendo matá-la. O outro o segura, acalmando-o e dizendo que não adianta nada querer matar um morto. A cena é demasiadamente densa e assim já somos introduzidos ao que iremos ver e sentir nas quase duas horas seguintes.

Aos poucos, vamos sendo apresentados às personagens que irão revelar para nós as mais variadas faces do ser humano traumatizado. Logo conhecemos a jovem Muneera, muçulmana, que chega à sua casa com seu marido e seu pequeníssimo bebê, encontrando-a toda queimada. No desespero, ela pergunta ao marido quem fez aquilo, ao que ele responde, mais desesperado ainda, para ela perguntar a sua melhor amiga, que é hindu.

Khan Sahab (Naseeruddin Shah) é um velho cantor clássico muçulmano, alienado a tudo que acontece, acostumado a cantar a hindus e muçulmanos em sua casa, e não compreende porque sua casa há tempos não recebe mais ninguém. Seu empregado/acompanhante esconde a verdade, preocupado com a saúde do velho.

Aarti é uma hindu dona de casa, que está à beira da loucura por ter negado abrir a porta de sua casa a um casal muçulmano que estava sendo perseguido por hindus durante os atentados. A imagem da mulher queimada batendo na porta ou na janela da sala não sai da sua cabeça e a atormenta. Uma de suas estratégias para tirar esses sons e imagens de sua mente é pingando óleo fervente em seu braço. Ao mesmo tempo, seu marido é o mais perfeito dos estúpidos. Manda em Aarti como se ela fosse sua escrava. Descobrimos, depois, que ele e um amigo participaram dos ataques contra muçulmanos.

Depois de um tempo, Aarti encontra um pequeno garoto muçulmano perdido, Mohsin, que ela leva à sua casa para cuidar dele, meio que num ato desesperado de curar seu carma. Ele diz a ela que presenciou toda sua família sendo estrangulada, violentada e assassinada e que ele apenas se safou por ter se escondido numa lata de lixo. No entanto, Mohsin presencia Aarti levando uma forte bofetada de seu marido, e ele então foge de volta para a rua, à procura do pai que ele ainda não sabe que está morto.

Conhecemos também o casal Sameer e Anu. O primeiro é muçulmano, a segunda, hindu. São ricos e vivem harmoniosamente, mas devido ao medo irão mudar-se para Delhi. A loja que Ameer possuía em sociedade com o irmão de Anu havia sido saqueada durante os conflitos.

E assim temos todos os personagens que compõem esse mosaico entrelaçado e assim o filme é construído.

Nandita Das teve a extrema audácia de realizar uma obra tão linda, tão real, tão densa, tão triste. Sem abusos, sem recursos desnecessários, Firaaq escancara que hindus e muçulmanos podem ser os mais cruéis dos seres humanos, mas que, ao mesmo tempo, podem também ter os melhores corações. Nos mesmos pesos e mesmas medidas, pessoas de ambas religiões são expostas pelo lado da luz e da sombra, do medo e da coragem, da crueldade e da bondade.

E de maneira muito sutil, Nandita coloca Mohsin, o garoto órfão, como eixo do filme. E também foi impossível não ter feito comparações com Madholal Keep Walking. Se Madholal queria mostrar que o indiano é forte e não se curva aos atentados, o que Firaaq faz é mostrar a realidade inerente ao ser humano, que não muda nem pela raça, nem pelo credo, e menos ainda pelo gênero.

E finalizando, antes de deixar o trailer a vocês, a palavra "Firaaq" vem do urdu e significa ao mesmo tempo "separação" e "busca". Não é lindo?



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Madholal Keep Walking (2009)

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Domingo passado fui ao MIS (Museu da Imagem e do Som) assistir Madholal Keep Walking (Madholal Siga em Frente), mais um dos filmes indianos da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A sorte de ter ido ver no MIS é que lá as exibições são gratuitas (em comparação aos R$14,00/R$7,00 do preço tabelado da Mostra), mas... antes o filme fosse bom.

Antes de o filme começar fomos avisados que estavam presentes ali o diretor, Jai Tank, e o produtor, Apurva Tank, e que após o filme rolaria um debate de 20 minutos. Na hora fiquei animado! Embora na Mostra aqui de São Paulo seja comum toparmos com os diretores dos filmes que formos ver, confesso que não esperava encontrar um diretor indiano.

Esse é o primeiro filme de Jai Tank, que até então só tinha experiência com publicidade e vídeos institucionais. Também todo o elenco é novato no cinema.

Bom, e então o filme começou. E tão logo começou já vi vícios e mais vícios de filmagem, diálogos fracos e clichês por todos os lados. Comecei a pescar vendo o filme, um pouco com vergonha, pois os indianos estavam na fileira atrás da minha. De repente uma super explosão super malfeita no filme despertou-me definitivamente, e dali em diante decidi ficar realmente acordado por respeito aos moços e pra tentar também pegar algum ponto que eu pudesse questionar na hora do debate.

Mas a tentativa da história é boa. Madholal é um homem comum dos subúrbios de Mumbai. É casado e tem duas filhas. Todos os dias ele pega o trem pro trabalho (segurança num escritório), e com isso sofre também todas as consequências das grandes cidades - sobretudo em países em desenvolvimento. Atrasos são quase inevitáveis, e quase inevitáveis são também as intolerâncias dos patrões. Pegando o trem todos os dias no mesmo horário, acaba por fazer amizade com outros indianos comuns, na mesma situação que ele.

Mas um dia, eis que uma bomba explode no trem. Madholal sai gravemente ferido e acaba por perder um braço. Sai do hospital e fica em casa, sem ânimo pra absolutamente nada. Mas a depressão é acompanhada de um grave trauma e Madholal vê ameaças de bomba por todos os lados, reagindo de maneira absolutamente neurótica. Pra ajudar, o vizinho - muçulmano - é preso sob a alegação de que ele estaria envolvido na conspiração que resultou no atentado, embora ele jure de pés juntos que é inocente.

Aos poucos, família e amigos tentam fazer com que Madholal reaja, o que parece ser um tanto difícil. Daí, obviamente, não vou contar o final, mas digo que se o filme fosse de autoajuda, ou se fosse um curta de 10 minutos, então o desfecho estaria apropriado. Mas pra uma produção de cinema, de duas horas... e pra piorar, esse filme defende descaradamente uma suposta superioridade dos indianos em encarar atentados e situações afins, em comparação com o ocidente, como se eles não se entregassem ao medo como nós aparentemente fazemos (segundo diz o filme). Por que raios os indianos precisam tanto afirmar e acreditar nessas mentiras?

Bom, e quando o filme acabou, metade da plateia ficou. O debate foi muito pobre, principalmente pelo fato de a maioria que estava ali não conhecia nem a Índia e menos ainda o cinema indiano. Eu acabei não fazendo perguntas porque uma tosse besta resolveu deixar-me rouco em pleno feriado. Mas tive a impressão que alguns que estavam ali gostaram do filme, e pro diretor é isso que importa. Eu é que sou muito chato!

Ah, e o filme ainda não estreou nem na Índia. A estreia está prevista para o dia 18 de dezembro. E vejam agora o trailer (que aliás, é quase megalômano em relação ao que o filme de fato é):



terça-feira, 3 de novembro de 2009

Akshay Kumar - अक्षय कुमार

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Babem, hoje é dia de falarmos dele, Akshay Kumar, o ator mais bem pago dentre todos os astros de Bollywood do momento. Não existe razão clara do porquê não termos falado dele até agora; as coisas vão acontecendo meio naturalmente neste blog, de acordo com o momento, de acordo com demandas, de acordo com promessas. E enfim, Akshay era uma promessa, e finalmente aqui está a postagem sendo cumprida - e espero que ao gosto do freguês!

Akshay não se chama Akshay; e nem sequer Kumar ele é. Em verdade ele é Rajiv Hari Om Bhatia, nascido no Amristar (Punjab), no dia 9 de setembro de 1967. Ainda pequenino, sua família foi transferida pra Delhi, pois seu pai era funcionário público. Akshay, ops, Rajiv, cresceu em Chandni Chowk, na velha Delhi. Mas também não pra sempre. Quando adolescente, mudaram-se pra Mumbai, e lá ele estudou primeiro na Don Bosco School e depois na Khalsa College, onde criou gosto pelos esportes.

Pra tentar ganhar a vida, mudou-se pra Bangkok, na Tailândia, onde trabalhava como chef de um restaurante, enquanto aprendia artes marciais, sua paixão. Depois de um tempo, retornou a Mumbai, onde começou a dar aulas de artes marciais. Por sorte do destino, um de seus alunos era um fotógrafo que lhe recomendou trabalhar como modelo, já oferecendo a ele uma proposta pra posar pra uma sessão de fotos a uma pequena agência.

Ele topou, ainda receoso, mas por duas horas de fotos ele ganhou mais que o salário que ganhava por mês como professor de artes marciais. Não teve jeito, o caminho estava aberto. E tão logo o caminho abriu-se, poucos meses depois de desfilar e posar por aí, foi convidado para o primeiro papel em Bollywood, no desconhecido filme Saugandh (1991). Em 1992 já estava em quatro filmes, sendo Deedar o primeiro filme de Akshay em papel de protagonista.

Em 1993, apareceu em cinco fracassos. Mas em 1994, Akshay foi ao limite: apareceu em 12 diferentes filmes, tendo sido indicado ao prêmio de melhor ator pelo Filmfare Awards com o filme Yeh Dillagi. Outros dois filmes do ano, Main Khiladi Tu Anari e Mohra foram uns dos que mais lucraram no ano. Ele inevitavelmente já era alguém em Bollywood.

Nos dois anos seguintes ele apareceu em apenas cinco filmes, mas dois deles, Sabse Bada Khiladi e Khiladiyon Ka Khiladi, foram mega sucessos, seguindo a série "Khiladi". Em 1997 ele estava num dos filmes de maior sucesso de Bollywood, Dil To Pagal Hai, com Shahrukh Khan e Madhuri Dixit como protagonistas. 1998 e 1999 foram anos de poucos sucessos, mas Akshay subiu mais ainda no conceito da crítica com seus papéis em Sangharsh e Jaanwar.

O ano 2000 foi um ano importante para Akshay: foi a primeira vez que ele fez um papel cômico, no filme Hera Pheri. E não só bastasse ter sido a primeira vez, foi também um super sucesso. E também no ano seguinte ele conquistou ainda mais público com o filme Ajnabee, no qual ele fez o primeiro papel de vilão, ganhando também o primeiro Filmfare Award de melhor vilão. Em 2002 ele foi também muito bem recebido com o papel de um cego em Aankhen. Mas tendo ele sido descoberto como um excelente ator para comédias, atuou então em Awara Paagal Deewana (2002), Mujhse Shaadi Karogi (2004) e Garam Masala (2005). Este último deu a ele o prêmio de melhor ator de comédia, na mesma premiação.

Nesse meio tempo, foram também sucessos seus papéis de ação nos filmes Ek Rishtaa (2001), Bewafaa (2005) e Wagt: The Race Against Time (2005).

Em 2006 veio Phir Hera Pheri, a continuação de Hera Pheri, de novo um super sucesso. No final do mesmo ano, Akshay apareceu ao lado de Salman Khan no filme Jaan-E-Mann, cujo papel foi bem elogiado, e no sucesso Bhagam Bhag.

Mas eis que veio 2007. Alguns arriscam dizer que o sucesso que Akshay fez em 2007 não foi feito antes e nem depois por nenhum outro ator bollywoodiano, com quatro filmes seguidos de super sucesso. O primeiro deles, Namastey London, estourou nas bilheterias. Daí veio então Heyy Babyy e depois Bhool Bhulaiyaa, que seguiram estourando. Seu último do ano, Welcome, bateu o recorde de quinto filme seguido de super sucesso para um ator de Bollywood (considerando Bhagam Bhag, do ano anterior).

E então veio 2008 com o filme Tashan, que não fracassou mas também não foi o mesmo sucesso dos anteriores. O segundo do ano, Singh Is Kinng, foi tão bem sucedido que bateu o recorde de bilheteria na primeira semana de estreia, antes pertencente a Om Shanti Om. Agora em 2009 fez Chandni Chowk to China, a primeira produção da Warner Bros em Bollywood, em 8x10 Tasveer, em Kambakkht Ishq e em Blue. Somente os dois últimos fizeram sucesso, embora não no nível dos de 2007. Para 2010 já há quatro filmes no prelo com Akshay no elenco.

Bom, Akshay é casado com a atriz Twinkle Khanna desde 2001, com quem teve o garoto Aarav, em 2002. Em abril desse ano, o casal foi autuado durante a Lakme Fashion Week, após Twinkle desabotoar o jeans de Akshay durante uma performance. Devem ter ficado com medo de ver a arma do super Akshay!

E em 2006, Akshay uniu-se a Saif Ali Khan, Preity Zinta, Sushmita Sen e Celina Jaitley para o tur mundial do Heat 2006, uma série de shows para alertar sobre o aquecimento global.

Para finalizar, acho que é importante dizer que o que Akshay ganha dos outros nem é tanto pelo talento, mas sim pelo seu carisma e simplicidade. Ele não demonstra ter pretensões de nada; conquista o que tem que conquistar com o que é, não com o que tenta ser. E por isso ele merece estar onde está. Estou errado?

domingo, 1 de novembro de 2009

Oye Lucky! Lucky Oye! (2008) - ओए लक्की! लक्की ओए!

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Neste sábado fui assistir a mais um filme indiano na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E mais uma vez, que surpresa! Oye Lucky! Lucky Oye! é mais um belo exemplo do que Bollywood vem fazendo de bom nos anos recentes. Desta vez, o filme ganha meu respeito muito menos pelo tema em si, mas sim pela capacidade de ser um bom cinema, além do simples entretenimento comum das grandes indústrias indianas.

Abhay Deol é Lucky Singh, protagonizando o papel de um personagem tema mais do que recorrente no cinema indiano: o mais perfeito ladrão de que se tem notícia. Assim que o filme começa uma mensagem diz que a história é inspirada em fatos reais, e ao que consta, na vida real existiu um sujeito chamado justamente Lucky Singh, que teria sido o mais eficiente ladrão já existente em Delhi. E o que se segue é surpreendente e difícil imaginar que pode realmente ter havido alguém naquele nível de perspicácia.

Mas embora Oye Lucky! abuse desse tema do submundo que a Índia tanto gosta, o diretor Dibakar Banerjee conseguiu transformar esse filme numa obra muito original, tal qual achei Kaminey (mais ou menos do mesmo tema) muito original também. Esse filme é o segundo de Dibakar e ele realmente conseguiu fazer um filme extremamente bem cuidado em todos os detalhes.

A história básica é a seguinte: Lucky Singh é de uma família sikh de classe média-baixa de Nova Delhi e desde cedo quer mais do que pode ter. De uma maneira banal, descobre como é fácil roubar - e sobretudo o que quer, não qualquer coisa. Mas Lucky tem a seu favor uma arma infalível: seu carisma imbatível. E tão logo Lucky começa a trabalhar a serviço de um chefão local, que só faz aumentar as ousadias de Lucky.

De Delhi ele começa a também planejar e realizar assaltos em Bangalore, Mumbai e Chandigarh. E suas preferências são descaradamente as altas elites dessas cidades, com direito a levar todos os objetos de maior valor que encontrava pela frente. Logo Lucky se torna um famoso playboy e também tão logo já sabem qual é a "profissão" do rapaz. Mesmo sabendo, porém, pouco há o que se fazer; Lucky é de uma sagacidade sem igual, além de, na verdade, não haver maldade real em seus atos. Um tanto Robin Hood? Talvez, mas Lucky quer mesmo o seu próprio status. E claro, no meio disso tudo há uma garota também.

O bom mesmo do filme é o próprio filme. Ele é levado do começo ao fim com pitadas carregadas de humor negro, incrementadas com recursos cinematográficos inusitados, como momentos de câmera superlenta, fotos com aspecto Polaroid contando trechos da história e músicas inesperadas e totalmente inseridas no clima (a trilha sonora é de Sneha Khanwalkar). Vez ou outra, músicas dos tempos antigos de Bollywood apareciam, fosse como trilha sonora mesmo, fosse na TV que alguém estivesse vendo (num desses momentos, eis que estão vendo a outrora proibida Choli Ke Peeche Kya Hai).

O auditório do Matilha Cultural, no centro de São Paulo, estava lotado e as pessoas deram boas risadas em diferentes momentos. Com exceção de uma pequena confusão que ocorreu com a legenda eletrônica (até agora, todos os filmes que vi na Mostra tiveram problemas com as legendas eletrônicas) e com um certo desentendimento com o aviso de Intermission que apareceu no meio do filme (que supostamente indicaria um intervalo e que aqui no Brasil não fazemos), fiquei com a sensação de que o público gostou do filme.

Ah sim, e a título de curiosidade, o nome desse filme está em punjabi, não em hindi, e significa "Ei Lucky! Lucky Ei!". Como a cidade de Amritsar, no estado do Punjab, é a "sede" da religião sikh, alguns termos daquela região aparecem no filme.

No Filmfare Awards desse ano, o ator Manjot Singh, que fez o Lucky jovem, levou o prêmio de melhor ator pela crítica. O filme também levou o prêmio de melhor diálogo.

E aí vai o trailer:



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bilal (2008) - বিলাল

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Hoje foi o dia de ir ver Bilal na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Já adianto que será um pouco difícil escrever sobre este documentário. Pra começar, não sendo um filme, não há aqui espaço pra ficar contando a historinha, descrevendo o roteiro. Não, Bilal é um documentário e, assim sendo, mostra um caso real. E o que vi não é tão fácil de descrever.

Bilal é um menino de três anos de idade, filho de pais cegos e irmão de um menininho de um ano e meio. Moram todos dentro de um pequeno cômodo num bairro pobre de Calcutá. O próprio fato de pai e mãe serem cegos já merecia um documentário, mas a realidade é mais cruel ainda. O fardo dos pais cegos recai-se sobre o pequeno garoto, que tem sobre si a imensa responsabilidade de ser, na prática, os olhos da casa.

A incrível inteligência de Bilal surpreende, mas é também responsável por fazer dele uma criança muito travessa, pra não dizer violenta mesmo. O que vem primeiro não importa, mas o fato é que assim como ele apronta muito, na mesma medida ele apanha também muito. E antes fosse somente dos pais cegos que ele apanhasse; o garoto leva também da criançada da vizinhança, do menino que vai em casa ensiná-lo a ler, da avó, do tio... e ele revida como pode.

A cena chave do documentário é num momento em que, após ver a violência subjetiva instaurada por todos os lados, ele vai pra um canto com um ursinho de pelúcia e uma caneta e simplesmente enfia a caneta na cabeça do ursinho.

Num dado momento a mãe é questionada do por quê bater tanto no menino, e a resposta é seca e objetiva: "você não está aqui o tempo todo; eu sei o que acontece e o que tem que ser feito. Ele é muito levado e precisa aprender". Curiosamente, em muitos outros momentos os pais parecem ser muito carinhosos e isso percebe-se ser algo realmente natural também. É também real o fato de que Bilal consegue divertir-se no meio disso tudo, com muita espontaneidade e muita simplicidade.

É apenas uma criança.

Tudo o que se vê é angustiante do começo ao fim. A sala do Cine Olido, no centro de São Paulo, não estava muito cheia e umas cinco pessoas levantaram-se e foram embora antes de o filme terminar. Ver tudo isso não é fácil, mas mais difícil ainda é aceitar a realidade, é aceitar a violência humana levada de maneira tão natural.

Este documentário foi produzido e dirigido por Sourav Sarangi, com apoio do Ministério das Relações Exteriores da Finlândia. Sourav diz, no começo do filme, que conheceu Bilal quando sua esposa disse à ele que havia num hospital um bebê de oito meses com traumatismo craniano, cujos pais eram cegos. O desenrolar da história resultou nesse documentário.

Vejam abaixo o trailer deste documentário. E quem quiser, é possível assisti-lo inteiro, com legendas em inglês, aqui.



quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Delhi-6 (2009) - दिल्ली 6

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E então lá fui eu hoje assistir a mais um filme indiano na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E meu Deus, quando Delhi-6 acabou eu só tinha uma palavra na cabeça: "Wah!". Essa é a expressão em hindi para o nosso "uau", e era realmente só isso que eu tinha a dizer, ou pensar, ou reagir, ou o que fosse que tinha que acontecer.

Confesso que com esse filme eu tinha uma certa expectativa, principalmente pelos fatores a seguir: 1. por ser escrito e dirigido por Rakeysh Omprakash Mehra, diretor de Rang De Basanti (2006) - um dos melhores filmes indianos que conheço; 2. por ter Abhishek Bachchan como protagonista, o que na verdade não necessariamente significa alguma coisa; 3. e por ter trilha sonora de A.R. Rahman, que significa muito. E ao finalmente assisti-lo - e no cinema! - que bela surpresa!

O senhor Rakeysh Omprakash Mehra já havia conquistado o topo de meu respeito com Rang De Basanti, que foi seu segundo filme e é fantástico. Esse, o terceiro dele, só deixou claro pra mim que ele sabe o que faz e sabe fazer direito.

Ao que consta, Delhi-6 é uma ficção com muito de autobiográfico do próprio diretor, que cresceu no centro da Delhi velha, numa região conhecida como Chandni Chowk. Mas autorreferências à parte, o filme conta a história de Roshan (Abhsishek Bachchan), um estadunidense filho de indianos, que decide levar sua avó (Waheeda Rahman) a Delhi para que ela possa morrer em sua pátria. E o próprio Roshan narra a história toda.

E assim, nesse princípio, o filme é muito gostoso de se ver, pois Roshan vai descrevendo suas impressões da Índia, que para ele lá é tudo tão louco quanto para qualquer um ocidental - que é o que ele é, na verdade. Aos poucos, porém, as coisas vão acontecendo na tumultuada vizinhança da velha Delhi.

Pra começar, Bittu (Sonam Kapoor), filha do covarde vizinho Madangopal (Om Puri), está se preparando secretamente para participar do Indian Idols (a versão indiana do Ídolos). Ao mesmo tempo, está sendo acertada a sua venda, ou melhor, o seu casamento, totalmente contrário à sua vontade. E desde o primeiro instante os olhares de Bittu e Roshan entrecruzam-se anormalmente, por bem dizer.

Paralelamente - e na verdade como eixo central da história - Roshan já chega na velha Delhi num momento em que dizem estar havendo o ataque de um suposto macaco preto. A história cresce de tal maneira num disse-que-disse, a ponto de dizerem que o macaco preto tem quase o tamanho de um homem, luzes no peito, unhas grandes e afiadas e pula como se tivesse molas nos pés.

A idiotice toda vai tomando tal tamanho que os hindus e muçulmanos que conviviam pacificamente na Chandni Chowk começam a voltar-se um contra o outro. Embora, num primeiro momento, esse tema já pareça um tanto batido em águas bollywoodianas (ou mesmo britânicas, com o Quem Quer Ser um Milionário?), tudo foi levado de uma maneira original.

Daí pra diante contenho-me para não contar o final. Digo-lhes que o filme vai desenvolvendo-se numa angústia crescente e quase desesperadora. E eu coloco esse "desesperadora", porque sei muitíssimo bem que todas as cenas que aparecem lá não são mera ficção - antes fossem! Desespera saber que de fato certas coisas acontecem na Índia, sobretudo causadas por pura ignorância e intolerância. Ao mesmo tempo, entretanto, vinha-me um sentimento ambíguo de felicidade por ver mais um filme tão bom vindo de Bollywood, podendo ter a capacidade transformadora, como teve o próprio Rang De Basanti.

E Mehra não faz à toa. A história do macaco preto é 100% baseada no fato real que aconteceu em Delhi, em 2001, quando um suposto homem-macaco aterrorizou algumas pessoas. Eu acho que deve ser uma versão indiana do chupa-cabra, embora alguns por lá tenham dito que o Pé Grande havia vindo dos Estados Unidos, ou o Yeti havia descido os Himalaias. Mas isso não importa; importa sim como esse caso é tratado no filme como eixo central de uma profunda crítica à sociedade indiana que Rakeysh Omprakash Mehra já vinha fazendo desde seu último filme.

Enfim, e Rahman faz valer totalmente sua fama com as músicas dessa obra, sendo a trilha considerada uma das melhores que ele já fez. Também gostei bastante da atuação do Abhishek. O filme não foi muito bem recebido pela crítica indiana, nem pelo público, mas também não chegou a ser considerado um fracasso. É muito difícil entender o que faz a crítica gostar ou não de um filme, embora saber do que o público gosta seja mais fácil. Esse filme não tem song-and-dances e isso já quase basta para não fazer sucesso. Mas tem, ao menos, uma cena de música em Nova Iorque, por exemplo, que eu particularmente gostei.

Bom, e chega de falar. Ainda há chances de ver esse filme na Mostra; quem puder, não perca. E enquanto isso, o trailer:



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano (2009)

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Nem a tempestade que resolveu cair na tarde de hoje, em São Paulo, impediu-me de ir à première do filme Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano, na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ok, também hoje era a única oportunidade que tinha para vê-lo. Cheguei em cimíssima da hora, com os pés encharcados, mas o esforço valeu à pena. Não só gostei do filme, como tive a grande sorte de dividir a plateia com o próprio elenco do filme, além da diretora Beatriz Seigner e de Ram Devineni, produtor da obra e curador da mostra de cinema indiano que anualmente ocorre aqui em São Paulo. Como sortes não podem ser desperdiçadas, em breve trarei a vocês uma entrevista exclusiva com as três protagonistas do filme e com a diretora.

Bollywood Dream estrela Paula Braun, Lorena Lobato e Nataly Cabanas, como três brasileiras que, mais ou menos na louca, vão à Índia tentar ganhar a vida como atrizes de Bollywood. O filme me passou a sensação de ser quase autobiográfico, embora seja tudo (supostamente) ficção. Do começo ao fim, situações vividas pelas brasileiras eram muito semelhantes ao que eu mesmo vivenciei por lá. A dificuldade com o sotaque, a reserva no hotel "cancelada", a felicidade dos indianos de descobrir que são brasileiras e imediatamente cantarolar "Aquarela do Brasil", o trem errado, ou simplesmente a pura curiosidade de ver ocidentais.

E pelo que já havia sido adiantado na postagem anterior, muitas cenas eram de fato vividas, sentidas, sofridas e assimiladas - ou não - pelas atrizes.

Elas chegam em Chennai, a reserva do hotel estava cancelada, vão parar num pseudo-hotel cujo gerente é muito gente boa e descobrem que a pessoa que elas tinham o contato não mora ali, mas sim em Mumbai, do outro lado do país. E ele era o contato para o mundo do cinema indiano. Mas como na Índia tudo é mesmo muito inesperado, elas acabam ganhando com a sorte, conhecendo um garoto que as ensina coreografias, além de serem apresentadas a uma atriz que lhes dá algumas aulas de interpretação na melhor técnica indiana de melodrama.

Nesse meio tempo, são confundidas por acaso com umas dançarinas russas e com isso iniciam uma bateria de ensaios de coreografias para definitivamente participarem de algum filme. Depois pegam o trem a Mumbai, mas vão parar em Varanasi por engano.

Mas isso tudo é um suposto enredo de fundo de um filme que fala muito mais de outras questões muito mais interessantes no que diz respeito ao efetivo choque entre culturas tão distantes. Como está na sinopse do filme no próprio site oficial, "seus sonhos se modificam no contraste entre o oriente e o ocidente, o ancestral e o novo, entre os valores individuais e coletivos". E é mesmo um pouco muito disso que é o filme. Tanto que, na verdade, não há um fim; ao menos não um fim como nossa mente costuma esperar e nos trai em momentos como esse.

Bom, e confesso que fiquei particularmente feliz de ver Paraneshwa Naiar como dono do pseudo-hotel em que elas se hospedam, em Chennai. Imediatamente lembrei-me do belíssimo filme tamil The Terrorist, de Santosh Sivan, no qual esse mesmo ator atua como dono da casa em que Malli, a terrorista, se hospeda. E em tempo, Santosh Sivan em pessoa é o produtor executivo do núcleo indiano deste filme de Beatriz Seigner.

E intercalado com o enredo, temos a oportunidade de ver algumas performances de Bhavana Rhya, a incrível dançarina Odissi brasileira. Aliás, quem tiver a oportunidade de assistir a alguma apresentação sua, não deixe de ir.

Enfim, é isso. Quarta-feira próxima será a última oportunidade de ver esse filme na Mostra de São Paulo. Espero que ele depois entre oficialmente em cartaz, dando mais oportunidades a todos.

E aguardem a entrevista com a diretora e as atrizes que em breve sairá exclusivamente para vocês, aqui no Cinema Indiano.

E abaixo vejam o trailer do filme:



Artigo sobre o filme "O Sonho Bollywoodiano"

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Só teremos mais duas oportunidades para assistir à coprodução indo-brasileira O Sonho Bollywoodiano na Mostra de São Paulo, sendo uma hoje mesmo e outra na quarta-feira.

Enquanto isso, leiam o artigo que saiu hoje no portal G1 sobre esse filme:

Atriz Brasileira lembra experiência de filmar na Índia: "Passamos perrengues"
Coprodução entre Brasil e Índia, "O Sonho Bollywoodiano" está na Mostra. Paula Braun conta sobre a viagem e diz que viveu momentos inesquecíveis.
Débora Miranda, do G1, em São Paulo

Depois da moda indiana que tomou o país com a novela "Caminho das Índias", chega agora aos cinemas uma coprodução entre Brasil e Índia, com elenco e diretora brasileiros. Em cartaz na Mostra Internacional de São Paulo, "O Sonho Bollywoodiano" foi rodado na Índia, com o apoio de um produtor indiano, mas conta a história de três atrizes brasileiras em busca de trabalho em Bollywood - o maior mercado de cinema do mundo.

A atriz Paula Braun, conhecida por sua atuação em "O Cheiro do Ralo" (como a dona da bunda pela qual o personagem de Selton Mello se apaixona), conta que a ideia do flme surgiu durante um almoço de amigas. "Fazer 'O Cheiro do Ralo' foi muito legal, porque foi quando começou o interesse pelo meu trabalho. Cinema é o que eu sempre quis fazer. Mas fiquei um pouco assustada [com a repercussão do longa] e estava pensando em fazer uma viagem", lembra.

Conversando com as atrizes Beatriz Seigner e Lorena Lobato, surgiu a ideia da Índia. "A Bia me falou da Índia, para onde ela tinha ido. Passamos o almoço conversando sobre isso e nasceu a ideia de fazer um filme lá", lembra a atriz, namorada de Mateus Solano, que interpreta os gêmeos Miguel e Jorge em "Viver a Vida".

O trio foi então a um festival de cinema indiano realizado em São Paulo, e entrou em contato com o produtor Ram Devineni, um indiano que vive nos Estados Unidos. "Chegamos na cara de pau e falamos que queríamos fazer um filme. Ele achou a gente meio maluca,mas comprou a ideia. A Bia escreveu, produziu e foi atrás de tudo". Beatriz acabou ficando respnsável pela direção do longa, que além de Paula e Lorena conta ainda com a participação de Nataly Cabanas.

As quatro embarcaram para a Índia, onde o longa seria rodado. "Nossa base foi em Chennai, onde ficamos por cerca de três semanas, mas depois passamos por outras cidades próximas. A maioria era menos turística, a gente chegou a ir a vilas sem telefonoe. No começo foi difícil, pois é um país machista. Éramos três mulheres, diferentes deles fisicamente, chamávamos muito a atenção. E mais uma mulher dirigindo. Às vezes o clima ficava tenso. Quando começávamos a filmar, juntava muita gente, muito homem", lembra.

"Para mim foi uma experiência forte. Havia momentos em que me sentia num lugar de ninguém. Qualquer coisa que acontecesse comigo lá, ia ser dif'ícil conseguir assistência, pois não entendia nada o que eles diziam, e não é todo mundo que fala inglês. Dava um pouco de desespero às vezes, passamos por vários perrengues. Mas também tivemos momentos inesquecíveis", conta, destacando a equipe indiana contratada para colaborar com as filmagens.

Em cena, as três protagonistas também enfrentaram perrengues. Paula conta que muita coisa foi aproveitada das experiências reais vividas pelas três no país. "A gente nunca tinha ido para a Índia. O que as personagens estavam estranhando e conhecendo, nós também estávamos. A Bia tinha a câmera sempre com ela, às vezes ligava e resgitrava o momento."

O Sonho Bollywoodiano

Segunda-feira (26), às 15h40, no Cinema da Vila
Quarta-feira (28), às 14h30, no Unibanco Arteplex 5

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Já temos novo banner!

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Queridos eleitores, ops, leitores, muito obrigado pela participação de todos! É com muito prazer que lhes informo que, com 15 votos e 2 menções, o banner vencedor foi o número 1, feito por nada mais que eu mesmo, Ibirá Machado.

O segundo banner mais votado foi o número 3, realizado por Willian Robert, tendo ele recebido 11 votos. Curiosamente, o banner de número 5 (realizado pela equipe do Grand Masala) foi citado por 6 pessoas, mas recebeu oficialmente apenas um votinho, enquanto que o banner número 2 recebeu 4 votos oficiais, mas nenhuma menção específica. E o quarto banner, pobrezinho, recebeu apenas um voto e nenhuma menção.

Como houve aconselhamentos de melhorias aqui e ali, penso que o banner vencedor passará por algumas sutis alterações cosméticas com o intuito de deixá-lo ainda melhor. Mas por enquanto, aí acima ficará o banner eleito tal qual vocês o conheceram.

E abaixo, despeçam-se do antigo layout de nosso querido Cinema Indiano, agora com nova carinha, pouco a pouco virando gente grande, graças a todos vocês! Mais uma vez, meus sinceros agradecimentos a todos que participaram, e um agradecimento especial aos que inscreveram suas propostas, sem as quais a mudança perderia toda a graça.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Amigos, na sexta-feira próxima, dia 23 de outubro, dá-se início a 33ª Mostra Internacional de São Paulo, a mais importante do país e cada vez mais vicejada no resto do mundo.

E como sempre, há filmes indianos na programação e é isso que aqui nos interessa. Serão cinco filmes realizados na Índia, mais a premiere da primeira produção indo-brasileira da história. Dos cinco filmes genuinamente indianos, dois são de Bollywood e os outros três são obras independentes.

Talvez por influência de Jodhaa Akbar, que na Mostra passada foi tão bem aceito que levou até o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro pelo público, desta vez há a aposta em mais dois filmes bollywoodianos. E de forma geral, um número de 5 filmes e meio originários da Índia nesta Mostra é algo bem relevante.

E vamos aos filmes e seus horários de exibição. Marquem em suas agendas as datas que podem e não percam esta brilhante oportunidade. Lá vai:

Delhi - 6 (2009)
27/10 (terça) - 20h - Unibanco Arteplex 3
30/10 (sexta) - 16h20 - Cinemateca Sala BNDES
02/11 (segunda) - 14h - Unibanco Arteplex 4
05/11 (quinta) - 18h10 - Unibanco Arteplex 1

Oye Lucky! Lucky Oye! (2009)
24/10 (sábado) - 18h30 - Multiplex Marabá 2
25/10 (domingo) - 16h30 - Espaço Unibanco Pompeia 2
29/10 (quinta) - 17h20 - Unibanco Arteplex 4
31/10 (sábado) - 18h20 - Matilha Cultural

Firaaq (2008)
23/10 (sexta) - 12h - Reserva Cultural 1
28/10 (quarta) - 17h10 - Cinemateca Sala Petrobras
31/10 (sábado) - 16h40 - Reserva Cultural 1
05/11 (quinta) - 19h30 - Unibanco Arteplex 4

Madholal Keep Walking (2009)
24/10 (sábado) - 18h10 - Cinemateca Sala BNDES
26/10 (segunda) - 17h30 - Cinema da Vila
1/11 (domingo) - 19h50 - MIS-Museu da Imagem e do Som
05/11 (quinta) - 18h50 - Unibanco Arteplex 2

Bilal (2008)
27/10 (terça) - 17h50 - Espaço Unibanco Pompeia 2
30/10 (sexta) - 17h - Cine Olido
31/10 (sábado) - 13h30 - Cinesesc
1/11 (domingo) - 17h50 - Cine Bombril 2

Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano (2009)
24/10 (sábado) - 19h50 - Unibanco Arteplex 1
25/10 (domingo) - 14h - HSBC Belas Artes - Sala 2
26/10 (segunda) - 15h40 - Cinema da Vila
28/10 (quarta) - 14h30 - Unibanco Arteplex 5

Para saber detalhes de cada filme, basta clicar nos títulos. Para endereços de onde os filmes serão exibidos, clique aqui. E para saber a programação completa da Mostra, entre no site oficial, aqui. E a vinheta:



terça-feira, 20 de outubro de 2009

Kanchivaram (2008) - காஞ்சிவரம்

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Fazia um certo tempinho que eu não via filmes fora do circuito hindi e de repente fui ver nada mais que a obra tamil que ganhou o prêmio de Melhor Filme no National Film Awards desse ano, premiação esta entregue pelo governo indiano para toda a produção de cinema do país.

Kanchivaram é um belíssimo filme, escrito e dirigido por Priyadarshan. Prakash Raj, protagonista do filme e que na mesma premiação levou o prêmio de Melhor Ator, é fantástico. Isso sem falar na trilha sonora, de M.G. Sreekumar, que é deliciosa. A fotografia, então, é linda. E o enredo é delicado, sensível, denso e poético. Ufa, basta de elogios?

Esse filme conta um caso fictício num fato histórico real que se passou no Tamil Nadu, à época da Índia recém-independente. Naquele período - e quiçá talvez até hoje, confesso que não sei - aquela região da Índia produzia as melhores e mais bonitas peças de seda, cobiçadas pelo mundo inteiro e que por séculos teve o comércio controlado pelo Reino Unido. O município de Kanchivaram (atual Kanchipuram), em especial, era um centro notório dessa produção.

Acontece que enquanto os líderes locais lucravam horrores com a comercialização da seda (sem falar nos britânicos que compravam e depois revendiam a preços ainda mais absurdos), os tecelões - fonte de toda a criatividade dos belos tecidos - seguiam absolutamente pobres, pra não falar miseráveis. Enfim, a estrutura que conhecemos bem.

Quando o filme começa, um prelúdio em texto nos informa da importância da seda no hinduísmo, dizendo que, por sua pureza, recomenda-se usá-la ao menos em dois momentos da vida: no casamento e na morte. Acontece que até mesmo pra comprar um novelo de fios de seda já é caro demais pra um mero tecelão. Para eles, possuir um pedaço de seda é tão absolutamente impossível que nem em sonho isso passa na cabeça deles.

Mas Vengadam (Prakash Raj) resolveu sonhar o impossível. No nascimento de sua primeira filha, ao cumprir o ritual de fazer uma promessa no ouvido da neonata, promete-lhe um sari de seda em seu casamento. Todos que estão presentes entreolham-se e a esposa de Vengadam, Annam (Shreya Reddy), recolhe-se, entristecida. Mas Vengadam tenta convencê-la de que se eles pouparem dinheiro o tanto quanto puderem, na hora do casamento de Thamarai (Shammu), a filha, eles teriam dinheiro suficiente para comprar o sari de seda prometido.

Acontece que o próprio Vengadam trai o acordo, ao dar ao seu cunhado uma bela quantia do dinheiro guardado, já que ele passava por problemas. Para contornar, e tentar garantir que a promessa se cumprisse, Vengadam começa a roubar fios de seda todos os dias ao sair da tecelagem, enfiando os novelinhos na boca e evitando ser descoberto. Assim, dia após dia, e por 16 anos, Vengadam tecia um sari de seda pra sua filha no velho tear de seu pai, sem que ninguém soubesse.

A história vai se passando em flash back. Vengadam está sendo levado da prisão, de Koimbatore a Kanchivaram, num dia de muita chuva. Os policias que o acompanham levam-no num ônibus, e de tudo acontece durante essa viagem, que se torna angustiantemente longa. Enquanto tudo vai acontecendo, o pensativo Vengadam vai lembrando-se de toda sua vida, até chegar onde chegou - e o filme são suas lembranças. Assim percebemos que a maior parte da história se passa com a Índia ainda dominada pelos britânicos, durante o período da Segunda Guerra Mundial.

Nesse cenário, Vengadam acaba entrando em contato com os ideais comunistas, primeiro clandestinamente, mas depois "liberados" após a União Soviética lutar ao lado dos Aliados, dos quais a Grã-Bretanha pertencia. Ele torna-se um líder revolucionário dos tecelões, e comanda a primeira greve entre eles. No entanto, ele se vê entre a cruz e a espada ao receber um ultimato para casar sua filha. O problema era que o sari ainda não estava pronto e para terminá-lo o único jeito seria voltar a trabalhar nas tecelagens para seguir roubando a seda e cumprir sua promessa.

A verdade é que até esse ponto já estamos relativamente próximos ao final do filme. Muito se passa nesse meio tempo, e omiti fatos um tanto pesados na história - assim garanto um certo efeito surpresa. Mas o desfecho da história surpreende um bom tanto, ao mesmo tempo em que a delicadeza da trama é mantida do começo ao fim.

A parte real da história é que os tecelões de Kanchipuram existem até hoje, e de fato eles passaram por uma micro-revolução nos primeiros anos da independência do país, eliminando as estruturas opressoras e formando cooperativas.

Não vi todos os filmes que concorreram no National Film Awards de 2009, mas esse filme tamil é totalmente merecedor, sem sombras de dúvidas.

Ah, e vale muito dizer que esse filme pode ser visto completo no YouTube, em 13 partes, com qualidade boa da imagem e legendas em inglês. E por hora, fiquem com o trailer:



sábado, 17 de outubro de 2009

Novo Banner para o Cinema Indiano - Votação

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Ontem encerrou-se o prazo de entrega das propostas para o novo banner para o Cinema Indiano. Eu apenas não tinha revelado ainda os materiais que recebi devido ao Diwali, que apareceu no meio do caminho e - obviamente - ganhou prioridade aqui.

Houve baixíssima participação neste concurso, o que é compreensível, embora eu me recuse um certo-tanto-muito-bastante em aceitar o argumento de que não sabem mexer "nessas coisas". Ora, ora! Pois agora o prazo já acabou e revelo a todos quais são as cinco opções que ficarão no pleito.

Vocês é que irão decidir qual cabeçalho é o melhor. Como acredito que, neste caso, é um tanto arriscado deixar a opção de enquete ao lado, prefiro que vocês deixem seus votos aqui mesmo, em forma de comentário. Aceito votos anônimos, quanto a isso não se preocupem - o importante é não deixar de participar! As votações ficarão em aberto por uma semana e no fim de semana próximo nós aqui já teremos uma nova carinha.

O nome do proponente vencedor será divulgado após o término da votação. E para ver com mais nitidez, recomendo clicarem nas imagens para vê-las ampliadas.

E agora, com vocês, as cinco propostas. Confiram e elejam uma - e tão somente uma - dentre as cinco:

1.






2.






3.







4.







5.





Feliz Diwali!

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Queridos leitores do Cinema Indiano, para quem ainda não sabe, hoje é celebrado o Diwali, o Festival das Luzes da Índia, que é considerado o maior festival de todo o país, provavelmente maior até que o Holi, celebrado no primeiro semestre.

Embora de origem hindu, o festival das luzes é comemorado por praticamente toda a população indiana, inclusive por muitos muçulmanos. A grosso modo, simboliza a vitória da luz sobre as trevas.

E pra celebrar a ocasião, trouxe para vocês a múscia Aayi Diwali Aayi, do filme Khazanchi, de 1958. Quem canta é a célebre Asha Bhosle.

Eu poderia até mostrar alguma música de algum filme mais recente, mas como (quase) nunca falo de filmes antigos, e como esse clipe é bem bonitinho, decidi compartilhá-lho. E confesso que isso é um pouco de contaminação que sofri de tanto ver postagens sobre os clássicos indianos no simpaticíssimo blog Grand Masala, que vocês não podem deixar de conferir.

Deliciem-se:



Colaborou: Rodolfo

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Os professores nos filmes de Bollywood

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Hoje, 15 de outubro, é Dia dos Professores aqui no Brasil. Muitas escolas fecharam hoje, em merecido respeito aos imprescindíveis mestres que nos ensinaram e ensinam sobre o mundo. Alguns conseguem ter a façanha de fazermos odiar certas disciplinas, ou certos assuntos, mas por vezes estes mesmos são responsáveis pela paixão de alguns outros por determinados temas. Nossas demandas e nossas resistências fazem com que nossos mestres sejam também esforçados aprendizes, com suas inerentes dificuldades e facilidades, num dos movimentos dialéticos mais lindos que podem existir em nossas vidas.

Estou escrevendo este texto um pouco tarde, pois certamente a maior parte de vocês já estará lendo isto quando o sol ilumina o dia seguinte , mas ainda assim deixo aqui o meu profundo respeito e admiração pelos professores - de todas as categorias -, em reconhecimento pelos seus esforços e pela missão que todos têm a cumprir. E das mais dignas, que bem se diga.

E sim, nosso blog é sobre cinema indiano. Pois bem. Na Índia, o dia dos professores é comemorado no dia 5 de setembro, ou seja, ficou 40 dias para trás. Naquela ocasião, foi publicado um texto na glamsham.com falando a respeito de alguns filmes de Bollywood que abordaram a temática dos professores ao longo da história. Como eu fui ter acesso a esse artigo há pouco tempo, achei por bem deixar para pulicá-lo hoje (ainda que nos últimos minutos do dia), em homenagem aos nossos professores.

Então aqui vai:

O Dia dos Professores e os professores nos filmes hindi
Enkayaar

Um dos fatos mais subestimados que existem é de que a indústria de filmes é uma indústria que inevitavelmente desenvolve-se a partir da relação entre mestre e discípulo. O mais sincero e direto reconhecimento dessa relação veio de Raj Kapoor, que disse que ele não estaria onde está, não fosse o efeito que teve nele a obra de Kidar Sharma. Da mesma maneira, para Rishi Kapoor, foi Raj Kapoor quem lhe ensinou as mais sutis possibilidades da arte de se fazer cinema, fazendo-o entender como caminhar no labirinto do mundo do cinema.

O papel básico de um professor é o de ensinar, e a partir dessa perspectiva podemos encontrar uma série de fatos que comprovam que o cinema não está de fora dos exemplos dessa relação entre mestre e discípulo.

Quando o tema da relação entre professor e aluno aparece nas telas, o Big B é um dos que mais fizeram este tipo de papel no cinema. Ao fazer tais papéis, porém, ele deve dedicá-los a um ilustríssimo professor que ele teve ainda dentro de casa, certamente sua inspiração - Harivansh Rai Bachchan [seu pai]. O primeiro personagem como professor apareceu em Chupke Chupke (1975), no qual era um professor de inglês e que conquistou grande respeito. A mesma consideração repetiu-se em Kasme Vaade (1978), que embora ele tenha tipo uma pequena participação, sua atuação como professor foi feita com tanta dedicação que até hoje não foi superada totalmente. Na geração seguinte, quando vestiu de novo as roupas de professor em Mahabbatein (2000), ele mostrou como um professor transforma-se a partir das próprias experiências. Mohabbatein é sem dúvidas um tributo à profissão de ensinar e um exemplo de como duas gerações de professores - e suas respectivas visões de mundo - podem entrar em conflito; o professor mais novo é nada mais que Shahrukh Khan.

Outra característica do professor que tem sido experimentada com frequência nos filmes é a de preparar o aluno a enfrentar o mundo e lutar contra as injustiças. Essa questão foi também interpretada por Amitabh Bachchan algumas vezes, mas sua geração seguinte trouxe isso com mais força. Ajay Devgan, Sanjay Dutt e Salman Khan, além de Aamir Khan, seguiram com essa tradição.

Em relação ao papel de um professor na formação e crescimento de uma criança, nada bate os filmes Kitaab (1977), de Gulzar, e Taare Zameen Par (2007), de Aamir Khan. A diferença entre esses dois filmes está no fato de que em Kitaab a preocupação está em trazer a questão da importância da escola em si, e em Taare Zameen Par é escolhido um tema em específico para enfatizar essa questão.

Um fato bem irônico disso tudo é que embora o cinema hindi tenha justamente o hindi como sua língua, os professores de hindi são sempre os mais ridicularizados, filme após filme. Provavelmente isso deve-se ao fato de uma certa aversão que existe de se falar o hindi corretamente, e assim tal professor acaba sendo caricaturado. Asrani, Jagdeep etc., representaram esse tipo de professor.

O cinema hindi também não deu a importância devida às professoras. Quando apareciam, elas estavam mais ligadas à sexualidade do que ao papel de professora em si. Ela foi mais representada como um produto efetivamente do que em sua sensibilidade, e a última manifestação disso foi em Main Hoon Na (2004); no passado, foi em Mera Naam Joker (1970).

Independentemente do que virá, o que é certo é que o cinema hindi não sorevive sem os professores. E esse é um momento oportuno pra reolharmos de que maneira os professores vêm sendo representado ao longo dos tempos.

[adendo do Ibirá: embora eu tenha achado esse artigo interessante, senti falta de outros notórios professores do cinema indiano, como o professor Debraj Sahai, do lindo filme Black (2005), interpretado pelo próprio Amitabh Bachchan, ou do treinador de Chak De! India (2007), interpretado por Shahrukh Khan. Ambos os filmes são ótimos e foram muito premiados e, na minha opinião, deveriam ter sido mencionados. As duas primeiras fotos desta postagem, portanto, referem-se a eles.]

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Camlin Whiteboard Markers

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Lá pelos idos do mês de abril, quando o Cinema Indiano fundava oficialmente sua vertente dos comerciais indianos, exibimos a bem bolada propaganda da Caneta Camlin, que abordava questões intrínsecas às tradições indianas.

Desta vez, descobri uma série de três curtos comerciais sobre canetas para lousa branca da mesma marca Camlin. Não consegui em nenhum canto encontrar que agência foi responsável por tais propagandas, assim como não sei ao certo de quando são. O que posso dizer é que, no mínimo, estes comerciais foram feitos em 2006, senão antes. Isso porque dois deles datam deste ano quando foram colocados no YouTube.

Bom, e vamos a eles. Todos os três se passam numa sala de reuniões de alguma companhia, com um senhor (possivelmente o chefe, ou algo em nível próximo) explicando aos funcionários o que precisa ser feito na empresa - e para isso utiliza a lousa e uma caneta Camlin. O primeiro chama-se Repositioning (Reposicionamento), no qual o tal senhor diz o seguinte:

- Na verdade, o que essa organização realmente precisa é reposicionamento. Isso significa que...

E então eis que ocorre o que vocês verão a seguir:



O segundo comercial chama-se One-on-One Approach (algo como "Atenção individualizada", mas que pode ser interpretado literalmente como "aproximação um a um"). Aquele mesmo senhor diz:

- O que essa organização precisa é de uma atenção individualizada...

E daí, quando ele se volta aos funcionários, vê o seguinte:



E finalmente, o terceiro da série chama-se Change (Mudança, mas que também pode ser "troco" - de dinheiro -, por exemplo). O senhor, de volta, inicia dizendo que:

- O que a organização precisa desesperadamente é de mudança...

Mas ele vira-se e...



E no fim das contas, o que importa é que a caneta é facilmente apagável da lousa branca. E aí está mais um bom exemplo da criatividade indiana, com qualidade, humor simples e sem deixar de lado as boas sacadas.

Ah, e antes que me esqueça (mas já tarde), feliz Dia das Crianças e feliz Dia de Nossa Senhora Aparecida a todos! :)