quarta-feira, 18 de junho de 2008

Abra os olhos da alma


Os onze prêmios dados ao filme Black são muito mais que merecidos. É uma produção com qualidade insuperável e de uma simplicidade muito difícil de se fazer. Seria injustiça dizer que Bollywood não faz bons filmes, assim como não seria correto afirmar que um filme precisa ter cenas de música para conseguir ser produzido em Bollywood. Tudo depende da vontade conjunta do diretor, produtor e atores... talvez para Black ter saído tenha sido necessária a presença de Amitabh Bachchan, o Big B, no importante papel de Mr. Debraj Sahai. Big B é o ator cuja adoração na Índia, na verdade, ainda está por ser superada talvez por Shahrukh Khan. Na Índia, sendo as pessoas mais velhas muito respeitadas, e sendo atores de Bollywood tratados como deuses, ser então um velho ator renomado é quase o mesmo que ser o Deus Supremo. E Amitabh Bachchan fez o seu melhor neste filme.

Mas Rani Mukerji também merece todas as condecorações que sua atuação pode receber. No papel de Michelle McNally (que seria então a Helen Keller neste filme), Rani consegue brilhantemente enganar a todos e faz-nos pensar que é realmente cega e surda. Sua angústia e vontade de viver atravessam a tela e atingem em cheio nossa arrogância. E ainda surpreendente, Michelle criança é interpretada pela atriz-mirim Ayesha Kapoor, afligindo-nos com seu comportamento animalesco com que Mr. Sahai se deparou ao vê-la pela primeira vez. O prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante só não teve o Coadjuvante retirado porque Rani Mukerji merecia mesmo o principal.

O filme se passa na então capital de verão britânica, Shimla. A família McNally, anglo-indiana, é cristã e muito rica. Quando Mr. Sahai é contratado para tentar educar a pequena Michelle, de imediato o pai entra em desacordo com a maneira bruta com que o tal professor trata a criança. Mas ou Michelle aprenderia com tratamento de choque, ou a família McNally seria geradora de um bizarro ser humano-animal incontrolável. Mr. Sahai é mandado embora, mas por um golpe de sorte, no mesmo dia o pai de Michelle vai viajar por 20 dias e o professor fica na casa com "consentimento" da mãe. Em 20 dias de luta, Mr. Sahai quase nada consegue fazer e sofre nocautes atrás de nocautes da menina-animal. Mas no vigésimo dia, numa sequência de cenas angustiantes, o milagre acontece e Michelle identifica a água e fala por sinais. É o início de um longo ciclo que a levará à universidade, dezoito anos depois.

Na entrevista de admissão na universidade, os professores fazem algumas perguntas a Michelle, para testar sua inteligência. A entrevista termina com a pergunta "O que é conhecimento para você?". E Michelle responde: "Conhecimento é tudo. Conhecimento é espírito, sabedoria, coragem, luz, som. Conhecimento é a Bília, Deus. Conhecimento é meu professor". Neste instante, Michelle declara publicamente seu amor por Mr. Sahai, uma relação difícil de se estabelecer. Afinal, Mr. Debraj Sahai desisitiu de sua própria vida para doá-la a Michelle. Talvez aí esteja um dos pontos importantes que fez o diretor Sanjay Leela Bhansali mudar a história real e trocar a professora por um professor, criando uma dificílima relação edipiana entre pessoas de sexos opostos. E a sensibilidade da direção reina nesse contexto, não pecando em exageros que deturpariam a profundidade da existência de Michelle.

Em outras alterações da vida real, no filme Black Michelle possui uma irmã mais nova, que tem ciúmes por nada girar em torno de si. Mas Michelle não sabe o que é ego, não sabe o que é apego; para ela, a existência de sua irmã representa um anjo em sua vida - nada mais do que isso. O cenário escolhido, a cidade de Shimla, cria um clima um tanto quanto introspectivo, tentando nos levar para dentro dos olhos que não vêem de Michelle. Shimla, no início dos Himalaias, é pequena e agradável, além de trazer consigo a neve das montanhas. Em uma cena clássica, Michelle sente a neve chegar antes mesmo de ser ela visível aos olhos de quem vê.

E mais no final da história (e é na verdade o que se mostra no começo do filme), Mr. Sahai sofre de Alzheimer e já não se lembra de mais nada. Não pode ver Michelle graduando-se e nem compartilhar com ela a felicidade de tal feito; mas ela sabe que nada no mundo é impossível. Como ela mesma diz, a única palavra que o professor não ensinou a ela foi "impossível". E eu poderia ainda acrescentar uma coisa que um amigo indiano me ensinou: em inglês, a palavra impossível (impossible), poderia ser traduzida por "I m possible", ou, eu sou possível. Black leva isso ao extremo. Em alguns momentos, é possível estabelecer uma relação entre Black e o filme alemão O Enigma de Kaspar Hauser, que conta a história real do homem que cresceu dentro de uma cela, no escuro, sem aprender a comunicar-se ou qualquer outro tipo de relação social. Ao ser liberto, Kaspar passa por um longo processo de aprendizado e desconstrução de seu também mundo quase animalesco.
Mas de novo, a ficção imita a vida real. E se a história é (quase) real, então nada nesse mundo é impossível. Se desconhecemos a dimensão do mundo porque vemos e ouvimos, então abra os olhos da alma e enxergue o universo. Black é imperdível.

Link pro wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Black_(film)

4 comentários:

Priscila disse...

Ibirá estou emocionadíssima com esse filme!!!
Acabei de assistir e foi o filme em mais me emocionei em toda a minha vida!!!

A profundidade das emoções e as atuações foram perfeitas! A forma como demonstra o descobrimento dos significados, do mundo e da vida é maravilhoso! Eu esperava muito desse filme, mas não esperava tanto assim!!!

Sinto uma enorme gratidão por você por nos dar essa oportunidade de conhecermos filmes maravilhosos como este e, com isso, despertarmos sentimentos que precisão de um empurrãozinho para aparecerem.

Abraços!!!

Ibirá Machado disse...

Oras, Priscila! Não me agradeça, agradeça aos filmes por existirem! :D

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado

Ibirá Machado disse...

Não há de quê! ;)