
Fazia um certo tempinho que eu não via filmes fora do circuito hindi e de repente fui ver nada mais que a obra tamil que ganhou o prêmio de Melhor Filme no National Film Awards desse ano, premiação esta entregue pelo governo indiano para toda a produção de cinema do país.
Kanchivaram é um belíssimo filme, escrito e dirigido por Priyadarshan. Prakash Raj, protagonista do filme e que na mesma premiação levou o prêmio de Melhor Ator, é fantástico. Isso sem falar na trilha sonora, de M.G. Sreekumar, que é deliciosa. A fotografia, então, é linda. E o enredo é delicado, sensível, denso e poético. Ufa, basta de elogios?Esse filme conta um caso fictício num fato histórico real que se passou no Tamil Nadu, à época da Índia recém-independente. Naquele período - e quiçá talvez até hoje, confesso que não sei - aquela região da Índia produzia as melhores e mais bonitas peças de seda, cobiçadas pelo mundo inteiro e que por séculos teve o comércio controlado pelo Reino Unido. O município de Kanchivaram (atual Kanchipuram), em especial, era um centro notório dessa produção.
Acontece que enquanto os líderes locais lucravam horrores com a comercialização da seda (sem falar nos britânicos que compravam e depois revendiam a preços ainda mais absurdos), os tecelões - fonte de toda a criatividade dos belos tecidos - seguiam absolutamente pobres, pra não falar miseráveis. Enfim, a estrutura que conhecemos bem.Quando o filme começa, um prelúdio em texto nos informa da importância da seda no hinduísmo, dizendo que, por sua pureza, recomenda-se usá-la ao menos em dois momentos da vida: no casamento e na morte. Acontece que até mesmo pra comprar um novelo de fios de seda já é caro demais pra um mero tecelão.
Para eles, possuir um pedaço de seda é tão absolutamente impossível que nem em sonho isso passa na cabeça deles.Mas Vengadam (Prakash Raj) resolveu sonhar o impossível. No nascimento de sua primeira filha, ao cumprir o ritual de fazer uma promessa no ouvido da neonata, promete-lhe um sari de seda em seu casamento. Todos que estão presentes entreolham-se e a esposa de Vengadam, Annam (Shreya Reddy), recolhe-se, entristecida. Mas Vengadam tenta convencê-la de que se eles pouparem dinheiro o tanto quanto puderem, na hora do casamento de Thamarai (Shammu), a filha, eles teriam dinheiro suficiente para comprar o sari de seda prometido.
Acontece que o próprio Vengadam trai o acordo, ao dar ao seu cunhado uma bela quantia do dinheiro guardado, já que ele passava por problemas. Para contornar, e tentar garantir que a promessa se cumprisse, Vengadam começa a roubar fios de seda todos os dias ao sair da tecelagem, enfiando os novelinhos na boca e evitando ser descoberto. Assim, dia após dia, e por 16 anos, Vengadam tecia um sari de seda pra sua filha no velho tear de seu pai, sem que ninguém soubesse.A história vai se passando em flash back. Vengadam está sendo levado da prisão, de Koimbatore a Kanchivaram, num dia de muita chuva. Os policias que o acompanham levam-no num ônibus, e de tudo acontece durante essa viagem, que se torna angustiantemente longa. Enquanto tudo vai acontecendo, o pensativo Vengadam vai lembrando-se de toda sua vida, até chegar onde chegou - e o filme são suas lembranças. Assim percebemos que a maior parte da história se passa com a Índia ainda dominada pelos britânicos, durante o período da Segunda Guerra Mundial.
Nesse cenário, Vengadam acaba entrando em contato com os ideais comunistas, primeiro clandestinamente, mas depois "liberados" após a União Soviética lutar ao lado dos Aliados, dos quais a Grã-Bretanha pertencia. Ele torna-se um líder revolucionário dos tecelões, e comanda a primeira greve entre eles. No entanto, ele se vê entre a cruz e a espada ao receber um ultimato para casar sua filha. O problema era que o sari ainda não estava pronto e para terminá-lo o único jeito seria voltar a trabalhar nas tecelagens para seguir roubando a seda e cumprir sua promessa.A verdade é que até esse ponto já estamos relativamente próximos ao final do filme. Muito se passa nesse meio tempo, e omiti fatos um tanto pesados na história - assim garanto um certo efeito surpresa. Mas o desfecho da história surpreende um bom tanto, ao mesmo tempo em que a delicadeza da trama é mantida do começo ao fim.
A parte real da história é que os tecelões de Kanchipuram existem até hoje, e de fato eles passaram por uma micro-revolução nos primeiros anos da independência do país, eliminando as estruturas opressoras e formando cooperativas.Não vi todos os filmes que concorreram no National Film Awards de 2009, mas esse filme tamil é totalmente merecedor, sem sombras de dúvidas.
Ah, e vale muito dizer que esse filme pode ser visto completo no YouTube, em 13 partes, com qualidade boa da imagem e legendas em inglês. E por hora, fiquem com o trailer: