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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Lage Raho Munna Bhai (2006) - लगे रहो मुन्नाभाई

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Hoje, 2 de outubro de 2009, Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma, faria seus 140 anos. Há apenas três feriados nacionais fixos na Índia, e hoje, não por menos, é um deles - o Gandhi Jayanti.

Poucos podem dizer sobre a real importância de Mahatma Gandhi na constituição da atual Índia, mas o que realmente importa para hoje é que Gandhi é amado por metade da Índia - a outra metade, porém, o odeia. Mesmo dentre os que o amam, no entanto, a ignorância em relação ao o que ele foi e representou é grande.

E eis que no ano de 2006, a continuação do filme Munna Bhai M.B.B.S (2003) resolveu trazer Gandhi ao tema central de seu roteiro, causando uma pequena revolução silenciosa na juventude indiana. Lage Raho Munna Bhai é uma típica comédia bollywoodiana, mas conseguiu tocar fundo nos indianos, de maneira talvez inesperada. E desde que fundei esse blog prometo falar desse filme e finalmente estou cumprindo!

O filme conta mais uma história do bizarro Murli Prasad Sharma, o Munna Bhai, interpretado por nada mais que Sanjay Dutt, que desta vez apaixona-se por Jhanvi (Vidya Balan), uma locutora de rádio de Mumbai. Todos os dias de manhã, era religioso para Munna Bhai escutar o "Gooooood mooooooorniiiiiiing, Mumbaaaiii" de Jhanvi; ele se derretia.

E então, na oportunidade do Gandhi Jayanti, ela lança um concurso de perguntas sobre o Mahatma e quem acertasse teria a oportunidade de conhecê-la. É a chance de ouro para Munna Bhai, mas... "... quem é Gandhi? Aquele cara que está em todas as notas de rúpia? Ah, ok." Essa observação feita é tipissíssima dentre os jovens indianos, que veem Gandhi em suas rúpias todos os dias, que todos os anos ficam felizes por mais um feriado nacional, mas nada sabem sobre aquele que outrora uniu o país e cuspiu fora os britânicos de lá.

Mas daí Munna Bhai e sua gangue (sim, porque como tanto gosta Bollywood, Munna Bhai pertence ao submundo de Mumbai) raptam alguns professores universitários para que eles ajudassem a responder às perguntas sobre Gandhi. O resultado é que Munna Bhai "acerta" todas as perguntas e então Jhanvi o convida para dar uma espécie de palestra sobre Gandhi a um grupo de idosos.

Munna Bhai se vê numa enrascada e percebe que a única solução será estudar profundamente sobre Gandhi - até porque ele não queria de modo algum desapontar sua amada! Ele então entra numa biblioteca especializada em Gandhi (abandonada às traças) e lá fica por três dias e três noites, sem comer e nem dormir. Num dado momento, eis que o espírito de Gandhi aparece para Munna Bhai, tentando convencê-lo de que o melhor seria contar a verdade a Jhanvi. Diz ainda que, quando necessário, bastaria cantar o Raghupati Raghava Raja Ram para chamá-lo (essa música ficou famosa nos tempos de Gandhi, pois era um dos seus hinos devocionais preferidos).

Munna Bhai não consegue contar a verdade, mas mesmo assim Gandhi vai ajudando-lhe a dizer sobre ele próprio, o que acaba por conquistar o coração de Jhanvi, que acredita que Munna Bhai é realmente um profundo conhecedor do Mahatma. Assim, ela o convida para participar com ela de um novo programa na rádio, que seria ajudar as pessoas a sair de seus problemas a partir do pensamento gandhiano. Essa parte é o coração do filme. Tão logo ambos iniciam o programa e Mumbai inteira para todos os dias para escutá-los, ansiosos para ver e emocionarem-se com cada caso solucionado (e Gandhi dizendo tudo o que fazer por trás dos ombros de Munna Bhai).

Mas nem tudo são flores. Enquanto tudo isso acontece, porém, Lucky Singh (Boman Irani), um inescrupuloso empresário, quer casar sua filha com o filho (Abhishek Bachchan, totalmente secundário, ou melhor, terciário, no filme) de outro empresário, Kkhurana. O astrólogo de Kkhurana diz que seria muito auspicioso se a casa em que eles morassem fosse a Second Innings House. Acontece que tal casa é justamente onde mora Jhanvi. Para despistar Jhanvi e Munna Bhai, Lucky manda ambos para Goa, junto dos velhinhos, enquanto a própria gangue de Munna Bhai esvazia a casa de Jhanvi.

A partir daí a história entra pra parte mais crítica e também mais emocionante. E não vou contar!

O filme foi um super sucesso em 2006, ficando apenas atrás de Dhoom 2 em arrecadação no ano. Na lista dos fillmes que mais arrecadaram na história de Bollywood, Lage Raho Munna Bhai está em sexto lugar.

Como eu disse no início, esse filme é um dos poucos que mudam o rumo social da Índia. Curiosamente, no mesmo ano estava no cinema o filme Rang De Basanti, que também teve um impacto social profundo no país. Os dois, juntos, levantaram a juventude indiana e fizeram-na acordar para as injustiças e para as possibilidades de transformações socioeconômicas e políticas. Rang De Basanti teve o impacto de trazer os jovens para o centro da "revolução", enquanto que Lage Raho Munna Bhai trouxe a eles os valores gandhianos da não-violência e da desobediência civil. Os anos se passaram e muito já ficou pra trás, mas ainda hoje existem manifestações organizadas pela juventude indiana, fruto do que provocou ambos os filmes na alma deles.

Vale muito a pena assistir. A despeito dos comportamentos escusos de Sanjay Dutt, sua atuação nesse filme é indubitavelmente ótima e convincente. Não dá pra negar o valor que seu papel teve para a Índia - e isso devemos venerar. E também a atuação de Arshad Warsi, como Circuit, o fiel escudeiro de Munna Bhai, é imprescindível, tendo ele levado o prêmio de melhor ator coadjuvante num papel cômico, pelo Filmfare Awards. Além deste prêmio, o Lage Raho Munna Bhai levou o prêmio de melhor filme pela crítica e de melhor roteiro. No National Film Awards, levou o estranho Best Popular Film Providing Wholesome Entertainment, além dos prêmios de melhores letras de música, melhor roteiro e melhor ator coadjuvante para Dilip Prabhavalkar, que fez o Gandhi no filme.

Ah sim, e a trilha sonora do filme (a cargo de Shantanu Moitra) é bem divertidinha, com alguns song-and-dances também divertidos. A direção dessa obra é de Rajkumar Hirani, com produção de Vidhu Vinod Chopra.

Não achei nenhum trailer decente do filme, mas decidi colocar o clipe da música-título, que embora não seja um resumo do filme, é bem engraçadinha. E não deixem de ver!



quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Mahatma Gandhi - महात्मा गांधी

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Hoje, 2 de outubro, é um dia muito especial: é o aniversário de nascimento de Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma. E devo confessar que uma imensa parte do meu interesse por Índia está diretamente relacionado ao Gandhi e diretamente por causa dele que acabei indo a este país no primeiro semestre deste ano.

Hoje Mahatma Gandhi faria seus 139 anos de vida, mas desde seu assassinato passam meros 60 anos e alguns meses. De lá pra cá muita coisa aconteceu, muito se falou, e hoje uma grande parte da população indiana odeia o Mahatma - enquanto outra o idolatra. Os motivos não cabem aqui ser explicados, mas o que importa é o fato de Gandhi ter sido um grande ícone do século XX e - ouso dizer? - de toda a história da humanidade.

Mas como este blog pretende falar de cinema, vamos falar um pouquinho do que já se falou de Gandhi nas produções cinematográficas indianas. Na verdade, antes de falar da produção indiana em si, não posso deixar de citar o próprio filme Gandhi, de Richard Attenborough. Esta produção, de 1982, é uma obra prima de três horas de duração, estrelada pelo até hoje insubstituível Ben Kingsley no papel de Mahatma Gandhi. Por incrível que pareça, até hoje, nenhum ator conseguiu encarnar Gandhi com tanta fidelidade quanto Kingsley, que nem indiano é. Este filme, em 1983, foi indicado para 11 óscares, dos quais ganhou 8, incluindo de melhor filme e melhor ator. Vejam este trecho do filme:



Bom, agora voltando ao cinema indiano em si, existem diversos filmes que já abordaram seu tema de alguma maneira, destacando-se Lage Raho Munnabhai, Gandhi My Father e Maine Gandhi Ko Nahin Mara. Mas para que esta postagem não se estenda muito, deixarei para a próxima semana (que marca a 27ª Semana Gandhi aqui em São Paulo) as postagens respectivas para estes filmes. Até porque assim eles podem receber a dedicação exclusiva que merecem.

Om Shanti Om

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Cinema Tamil / Kollywood - கோலிவுட்

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Hoje, retomando nossa série sobre os cinemas regionais da Índia, vamos falar sobre o cinema do estado de Tamil Nadu, completando, assim, os quatro estados do sul da Índia. O nome popular da indústria tamil é Kollywood, derivado de Hollywood com Kodambakkam, o bairro em Chennai (antiga Madras) onde estão instalados os principais estúdios.

A história do cinema por ali é antiga. Consta que, em 1909, para celebrar a visita do Rei George V, uma grande exibição foi organizada em Madras, com projeções de pequenos filmes. Após esse evento, um fotógrafo indiano conseguiu ficar com os equipamentos (que vieram da Inglaterra) e montou ele mesmo a primeira sala de cinema de Tamil Nadu, em 1912, que existe até hoje, embora com outro dono. Tão logo também começaram os esforços para que os primeiros filmes fossem feitos naquele estado. Na década de 20, porém, embora filmes mudos já fossem produzidos em Tamil Nadu, o processamento das imagens e de edição tinha que ser realizado ou em Pune (Maharashtra), ou em Calcutá (West Bengal). Foi somente a partir da década de 30 que foram montados estúdios propriamente e, nos anos 40, Chennai era já o principal centro de produção cinematográfica de todo o sul da Índia.

Em 1931 era lançado Kalidaas, o primeiro filme falado em tamil, no mesmo ano que era lançado Alam Ara, em hindi, que é considerado o primeiro filme falado de toda a Índia. O sucesso de Kalidaas marcou o início da produção em massa de filmes no Tamil Nadu. Em 1939, Thyagaboomi, de K. Subramaniam, acabou ficando famoso por toda a Índia por um duplo motivo. Seu tema, muito polêmico para a época, glorificava a luta de Mahatma Gandhi e seus companheiros pela independência do país. E, por causa disso, acabou sendo banido pelo governo britânico, tornando-se, assim, o primeiro filme indiano a ser banido. Esses dois motivos – o tema e a censura – acabaram trazendo a ele maior fama.

Nas décadas seguintes a produção intensificou-se e diversificou-se. Antha Naal, do diretor S. Balachander, foi lançado em 1954 em um novo modelo: o cinema noir. Contando os diferentes pontos de vista sobre uma morte, o filme baseia-se na produção Rashômon, de Akira Kurosawa, e não tem nenhuma música sequer. Em anos recentes vários filmes de arte vêm sendo produzidos em tamil; mas além disso, reconhece-se que haja uma preocupação mais refinada com técnicas de direção, mesmo em filmes populares, que não aparecem nas outras indústrias regionais. O filme Iyarkai, de 2003, acabou ganhando o prêmio de melhor filme pelo National Film Awards, como reconhecimento pela não usual maneira com que o filme é rodado.

Hoje Tamil Nadu impõe-se como grande centro de produção cinematográfica não só no sul do país, mas também em toda a Índia. Muitas de suas produções são refilmadas em outras indústrias, ou ao menos são lançadas nos outros estados com legendas ou dublagens. Suas grandes produtoras também fazem o mesmo com filmes de sucesso de outros estados, refilmando-os em tamil. Além disso, algumas dessas produtoras, como a Madras Talkies, já produziu filmes de sucesso de outras indústrias, como Guru (2007), sucesso de Bollywood.


sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cinema Punjabi - ਪੰਜਾਬੀ ਸਿਨੇਮਾ

Vamos agora falar sobre o cinema punjabi, ou Punjwood, feito e falado na língua do estado do Punjab, noroeste da Índia. Preciso dizer que, por motivos que direi a seguir, não foi fácil recolher informações muito concisas e confiáveis sobre este cinema regional.


Para explicar este problema, sou obrigado a remeter à história da independência da Índia. Após os esforços conjuntos de diversas pessoas, dentre elas Gandhi, a Inglaterra cedeu e aceitou a autonomia indiana, nos idos do ano de 1947, pondo fim ao poderoso British Raj, ou reinado britânico. No entanto, na independência, muçulmanos quiseram para si um país próprio, separado da Índia, que se chamaria Paquistão. Assim sendo, ainda de posse daquelas terras, a coroa britânica teve a brilhante idéia de dar a incumbência de desenhar o traçado de fronteira entre os dois novos países a uma pessoa que nada sabia de Índia. O resultado disso foi que a mais fértil de todas as províncias do Império Indiano, o Punjab, foi brutalmente cortado ao meio, entre Índia e Paquistão. De um lado ficou Lahore, no Punjab paquistanês, e de outro ficou Amritsar, na Índia. Na separação, as mais sangrentas cenas da independência indiana solidificaram os mais profundos ódios existentes até hoje entre hindus e muçulmanos.


E eis que, do ódio que ainda sangra na ferida indiana, cada qual escreve uma história diferente de um cinema que tem língua dividida entre estados de mesmo nome em países diferentes.


Pela pesquisa que pude fazer, consta que o primeiro filme na língua punjabi chamava-se Heer Hanjha e foi lançado em 1932, ainda na época do domínio britânico. No entanto, o diretor, Abdul Rashid Kardar, era muçulmano e a história toda trata de um amor entre um homem e uma mulher também muçulmanos. Justamente por isso que em muitos locais sobre a história do cinema punjabi é atribuído o primeiro lançamento a Sheila (1935), do diretor hindu Krishna Dev Mehra, que teve, inclusive, mais sucesso. Uma curiosidade da produção deste filme, aliás, é que ele foi inteirinho produzido em Calcutá, onde havia mais recursos, e foi lançado em Lahore, que era a então capital do estado do Punjab.


Lahore acabou tornando-se um centro importante do cinema indiano, na época, atraindo diretores e produtores de outras províncias da colônia, além de tornar-se base de muitos jornalistas que escreviam sobre a produção cinematográfica nacional. Porém, 1947 trouxe consigo o destino e levou do Punjab a prosperidade que Deus havia lhe dado. A produção de cinema da região caiu drasticamente e, ao que consta, muitos desses produtores, diretores e jornalistas mudaram-se para Mumbai e ali fizeram a diferença na criação de Bollywood.


A história que agora se segue tratará apenas do cinema punjabi indiano. O produzido do lado paquistanês será tratado especialmente numa postagem só sobre o cinema do Paquistão. Nas décadas de 50 e 60 pouco se fez na região. Na realidade, em 1969 foi lançado o primeiro grande sucesso do cinema punjabi pós-independência: Nanak Naam Jahaz Hai, de Ram Maheshwari. Além de ser o primeiro grande sucesso, resgatou o tema religioso, comum na época, contando uma ficção entremeada na religião Sikh, predominante no Punjab. A partir de então, novos filmes passaram a ser lançados muito mais recorrentemente do que antes.


Em 1980, o filme Chann Pardesee, de Chitraart, é, até hoje, o único filme do cinema punjabi a ganhar um prêmio do National Film Awards. E confesso, digo “um prêmio”, porque não consegui encontrar que prêmio foi esse em nenhum lugar e se alguém souber me dizer eu agradeço muito! No decorrer da década de 80 muitos outros filmes foram lançados, na rabeira de Chann Pardesee. No entanto, os anos 90 viram a completa decadência do cinema regional do Punjab, que voltou a respirar somente agora, no século XXI. Poucos destacaram-se, porém, mas podemos citar Waris Shah e Dil Apna Punjabi (2006), este último com boa recepção da crítica. Este filme, também, marcou a entrada dos investimentos de produtoras bollywoodianas em terras punjabis, com o investimento da famosa Yash Raj Films na produção da película.