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domingo, 19 de setembro de 2010

Zubeidaa (2001) - ज़ुबैदा

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Zubeidaa é definitivamente um filme muito curioso. Eu tenho um pouco de dificuldade de dizer que o filme é realmente bom, mas de alguma maneira ele me cativou e certamente está na lista dos que gostaria que todos assistissem se querem mesmo entender mais do cinema indiano.

A verdade é que cada vez que vejo um filme indiano que fala sobre o próprio cinema indiano me dá uma sensação de que o que nós sabemos dessa indústria absurdamente grande e tão antiga é mesmo um nada. Daí isso colocado nas mãos de um Shyam Benegal, que sabe fazer as coisas com uma certa inegável maestria, e com trilha composta por A.R. Rahman, cujo efeito-emoção de suas músicas não se questiona, temos então uma obra verdadeiramente cativante. Sem contar algumas músicas cantadas por Lata Mangeshkar, que trazem uma estranha nostalgia desconhecida bem no meio da espinha.

Bom, e pra ajudar tudo, embora ficção, Zubeidaa é inspirado em fatos reais, o que torna a história um pouco mais interessante. O filme é escrito por Khalid Muhammed, filho de Zubeida Begum, uma mal-sucedida atriz e desastrada mulher que acabou por se casar com o Marajá de Jodhpur na metade do século XX.

Logo no começo do filme conhecemos Riyaz (Rajit Kapoor), filho de Zubeidaa, hoje jornalista e muito interessado em descobrir a verdadeira história de sua mãe. Aos poucos ele vai coletando informações, confrontando dados estranhos e imprecisos, de fontes já quase apagadas. Conforme ele vai juntando a história, descobrimos que Zubeidaa (Karisma Kapoor) era filha única de Suleman Seth (Amrish Puri), um famoso cineasta de Bollywood. Seu sonho era ser uma grande atriz e, escondida de seu pai, começa a atuar. Quando ele descobre, porém, a proíbe integralmente de entrar num estúdio e acaba por casá-la com um rapaz, contra todas as suas vontades.

Ela engravida de seu marido, mas, no dia em que ela dá a luz a Riyaz, problemas de família forçam seu marido a se divorciar dela. É então que Rose (Lillete Dubey), uma espécie de amante semi-oficial do pai de Zubeidaa, faz-se mais presente do que já era e introduz Zubeidaa a Vijayendra Singh (Manoj Bajpai), Marajá de Fatehpur, com quem mais tarde acaba se casando.

Acontece que o Marajá já era casado com Mandira Devi (Rekha), a rainha oficial, embora ele demonstrasse um significativo afeto por Zubeidaa. Mas o espírito livre - leia-se rebelde - de Zubeidaa logo mostra-se incompatível com toda a nova realidade que ela estava vivendo - ou talvez com toda realidade que ela fosse viver em qualquer que fossem as circunstâncias.

E o ideal é que eu pare a história por aqui. Riyaz vai aprofundando sua pesquisa até desvendar os últimos segredos, e é nessa procura que ficamos presos, sobretudo pela busca de um objeto em especial e absolutamente único - o único rolo de filme em que Zubeidaa havia gravado a única cena de dança, entregue em alegria e realização, e que estava desaparecido.

A maestria de Shyam Benegal foi reconhecida com o prêmio de melhor filme em hindi dado pelo National Film Awards, em 2001. E a brilhante atuação de Karisma Kapoor também não ficou de fora; ela levou o prêmio de melhor atriz pela crítica no Filmfare Awards, mais do que merecidamente. E, por fim, Zubeidaa faz parte de uma trilogia+1 de Shyam Benegal, sobre filmes que tocam em questões islâmicas. O primeiro foi Mammo (1994), o segundo foi Sardari Begum (1996) e o terceiro foi Zubeidaa. O +1 apareceu agora em 2010, com o filme Well Done Abba.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ankur (1974) - अंकुर

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Ankur, definitivamente, não é um filme qualquer, por vários motivos. Ele é a estreia tanto de Shyam Benegal na direção e de Shabana Azmi no cinema, ambos nomes que acabaram por se tornar imensas referências no cinema paralelo indiano. Além disso, ele apareceu num momento de reforço e consolidação deste cinema, à margem das indústrias regionais da Índia.

Pra ajudar no fato, Ankur conta uma história real que se passou na região de Hyderabad, no estado de Andhra Pradesh, por volta dos anos 50. Várias atrizes foram sondadas para fazerem o papel principal de Lakshmi, mas assumir uma personagem polêmica, e ainda real, centro de questões sociais que remontam à raiz da cultura indiana, não seria fácil. Foi quando Shyam Benegal encontrou Shabana, nos seus 20 e pouquinhos anos, cheia de coragem, disposta a enfrentar Lakshmi.

O filme conta a história de Surya (Anant Nag), um jovem recém formado na universidade, que é basicamente obrigado pelo pai - uma espécie de latifundiário local - a morar e cuidar do pedaço de terra que o pertence. Surya havia se casado com Saru (Priya Tendulkar) quando jovens (casamento arranjado infantil, prática ainda comum em muitas regiões da Índia), e em poucos meses Saru estaria na idade adequada para ir morar com seu marido. Enquanto isso, porém, Surya teria de morar sozinho na casa da fazenda.

Ao chegar na fazenda, Surya conhece os caseiros do local, o casal de dalits Lakshmi (Shabana Azmi) e Kishtayya (Sadhu Meher), que moravam num pequeno casebre de palha nos fundos da propriedade. Kishtayya era surdo e mudo, além de alcoólatra. Na prática, era Lakshmi quem os sustentava, fazendo a limpeza da casa dos patrões.

Mas assim que chega, Surya toma atitudes recorrentemente impensáveis. Pra começar, pede que Lakshmi faça a comida pra ele, além de servir o chá, de manhã. Em princípio, a ordem social indiana impede que dalits (intocáveis) façam comida para qualquer pessoa de casta, quanto menos para patrões. Em seguida, decide empregar também Kishtayya, pedindo que ele vá à casa de seu pai buscar fertilizantes, utilizando o carro de boi da fazenda.

E então, com a ausência de Kishtayya, Surya deixa muito claro a Lakshmi que estava encantado por ela, mas ela não cede. No entanto, pelo próprio fato de Lakshmi estar cozinhando pra Surya - pra desgosto do sacerdote local, que era quem antes levava a comida -, tão logo começam as fofocas no vilarejo, dizendo que ambos já tinham dormido juntos.

Um dia, Kishtayya é pego roubando cocos e é humilhado em público. Aliado à sua frequente bebedeira e à também constante reclamação de Lakshmi de que ela não engravidava - seu maior desejo -, Kishtayya, então, um dia desaparece.

É assim que, com a carência de Surya e a descrença completa de Lakshmi em seu casamento, ambos acabam mesmo se envolvendo emocionalmente. Mas não demora muito para que Saru chegue, finalmente, à casa. E ela já chega impondo novas condições, começando por proibir que Lakshmi cozinhe, por exemplo.

E agora prefiro não seguir com a história, que ainda guarda intensas emoções pela frente. 

Eu diria que Ankur é um filme imperdível do cinema indiano. No entanto, faço algumas ressalvinhas básicas. Ao contrário de Satyajit Ray, que fez sua obra-prima na sua estreia no cinema, com Pather Panchali, eu não colocaria Ankur como a obra prima de Shyam Benegal. Seus filmes seguintes, inclusive até os tempos atuais, conquistaram alguns novos patamares de qualidade, na minha opinião, em vários aspectos. Além disso, também não considero essa a melhor atuação de Shabana, embora ela seja sempre excelente. Aliás, de forma geral, achei as atuações um bom tanto forçadas, com pouca naturalidade, com exceção do surdo mudo de Sadhu Meher.

Mas à parte disso, Ankur é um filme que cutuca muitas questões importantes para a sociedade indiana, ainda não superadas - se é que devem ser superadas. E são também questões humanas como um todo. Há ali o alcoolismo, há a relação rígida de uma sociedade de castas, a relação entre ricos e pobres, a questão da liberdade sexual, das questões religiosas... e tudo isso centrado no ponto de como os seres humanos, individualmente, agem pra cada uma dessas questões.

Por fim, Ankur significa "muda" (de planta). Ao longo de todo o filme a "muda" aparece de maneira explícita ou metafórica, mas acredito que a maior metáfora que este título traz diz respeito à constante tentativa de germinação do novo, num substrato já tão ocupado.

Em 1975, o filme levou o prêmio de segundo melhor filme do ano, pelo National Film Awards. Na mesma premiação, Sadhu Meher e Shabana Azmi levaram os prêmios de melhor ator e melhor atriz. Ele também foi indicado ao Urso de Ouro do Festival de Berlim em 1974.
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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Welcome to Sajjanpur (2008) - वेलकम टू सज्जनपुर

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Acabo de assistir ao filme Welcome to Sajjanpur (Bem-Vindo a Sajjanpur), uma comédia muito simples, mas muito divertida e bem contata, além de ser cheia de (in)diretas à sociedade indiana.

O filme é escrito e dirigido por Shyam Benegal, famoso no chamado cinema paralelo indiano, o cinema de arte. Dessa vez, embora ele já tenha experimentado Bollwyood outras vezes, ele agora resolveu aventurar-se em uma comédia bollywoodiana e eu diria que ele foi muito bem sucedido. Na índia, o filme estreou em setembro de 2008 e não fez muito sucesso.

Estrelando Shreyas Talpade e Amrita Rao, o filme conta a história de uma vila, Sajjanpur, onde Mahadev (Shreyas Talpade) trabalha escrevendo cartas para os analfabetos do local. Seu grande sonho é escrever romances. Um belo dia aparece Kamla (Amrita Rao), uma antiga amiga e paixão de infância de Mahadev, que está desesperada querendo escrever uma carta a seu marido, que está já há quatro anos em Mumbai. Enquanto ela dita, ele na verdade escreve o oposto ao que ela dizia, por ciúme. Ele segue fazendo isso com ela, a cada vez que ela recebia uma resposta de seu marido, que ele, por sua vez, mentia o que estava lendo para ela. Nesse meio tempo também aparece uma mãe chorona (cujas lágrimas não saem pelos olhos, mas pelo nariz, que ela enxuga com seu sári) que quer casar sua pentelha filha que é manglik (que tem azar no amor, e por isso teria que casar-se com um cachorro para desfazer o mau-agouro). Aparece Munnibai, um hijra (eunuco) que quer disputar as eleições e sente-se ameaçado pelo grupo corrupto da candidata favorita. Aparece um amigo que apaixona-se por uma jovem viúva filha de um antigo general do exército. Enfim, com a fama de ter mágica em suas palavras, Mahadev tem que lidar com todos os tipos de casos, correndo o risco sempre de ser o responsável pelas consequências do que escreve.

Conforme a história vai se desenrolando, várias coisas vão acontecendo e várias mensagens vão sendo transmitidas, enquanto Mahadev manipula as cartas de Kamla. Logo que Munnibai aparece defendendo sua candidatura, uma cena de música começa, na qual se defende os reais princípios da democracia, em dura mensagem a uma espécie de "coronelismo" que existe ainda com muita força na Índia, não só nas pequenas vilas. Em seguida, o próprio Munnibai, sentindo-se ameaçado, desabafa para Mahadev, dizendo que os eunucos são seres humanos e não monstros, que os homossexuais também têm direitos, também têm coração e sentimento, que Deus os criou como a todos os outros.

Em outro momento, os moradores da vila assistem a um teatro de rua, em que se ataca diretamente a crueldade do capitalismo que avança em zonas rurais, destruindo estruturas camponesas estabelecidas há séculos. Depois ficamos sabendo que a peça foi escrita pelo próprio Mahadev.

As antiquíssimas tradições hindus são também colocadas em questão em diversas oportunidades no filme, sobretudo em relação à moça manglik. Na verdade, o filme deixa claro que isso tudo não passa de superstição.

Eu gostei bastante do desfecho da história, que deixou tudo ainda mais interessante. Gostei também do cuidado impecável com o cenário. Toda a vila foi construída dentro da Ramoji Film City, em Andhra Pradesh, sede do Cinema Telugu, prova de que Bollywood e os cinemas regionais da Índia têm ativo diálogo entre si, inclusive na produção de seus filmes. E consta que, justamente por conta da perfeição da fictícia Sajjanpur, durante as filmagens os atores sempre brincavam uns com os outros e diziam "welcome to Sajjanpur" uns aos outros. Assim, o diretor convenceu-se de que este deveria ser o nome do filme, e não Mahadev Ka Sajjanpur (A Sajjanpur de Mahadev), como já estava definido.

Eu não achei um trailer propriamente do filme, mas encontrei um vídeo promocional bem divertido, com a música mais animada de Welcome to Sajjanpur, chamada "Sita Ram". Assistam abaixo, e se puderem, vejam o filme!