Caríssimos, no próximo dia 5 de agosto começa na Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro, a mostra Anos 2000 - A Década que Mudou a Cara do Cinema Indiano. Com uma seleção de dez filmes de Bollywood, essa mostra percorre os principais caminhos por onde andou o cinema indiano, mudando de uma vez por todas os rumos da maior indústria cinematográfica do mundo.
Por mais que a Índia sempre tenha feito filmes de qualidade excepcional ao longo do século XX, tais produções nunca eram feitas pra agradar o grande público, que em grande parte das vezes nem sequer sabiam que estes filmes eram lançados. Nos anos 2000, no entanto, foi do coração das indústrias de cinema indianas que as mudanças começaram a acontecer.
O primeiro e incontestável marco desta mudança é o filmeLagaan - O Imposto(Lagaan, 2001), dirigido por Ashutosh Gowariker e produzido pela então estreante Aamir Khan Productions. Ao longo de quase quatro horas de filme (um dos mais longos de toda a história do cinema indiano), Lagaan revolucionou Bollywood e todas as outras indústrias de cinema da Índia ao investir em um cidade cenográfica e em centenas de figurantes pra contar uma história que não era de amor. A aposta de Aamir Khan, até então “somente” uma das grandes estrelas do cinema indiano, deu tão certo que o filme foi o segundo da história do cinema indiano a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. E a Aamir Khan Productions nasceu revolucionando, indicando o que viria nos anos seguintes.
Mas, na verdade, foi em 2006 em que as mudanças ganharam ainda mais força. E não foi somente um filme que indicou esse caminho. Somente em Bollywood, ao menos quatro diferentes filmes surgiram nesse mesmo ano e, cada qual com sua forma, influenciou produções seguintes, guinando de uma vez por todas o caminho trilhado pelo cinema indiano ao longo das últimas décadas do século XX.
O primeiro a aparecer naquele ano foiOmkara(Omkara, 2006), de Vishal Bhardwaj, que já tinha mostrado ao que viria com um outro filme seu, de 2002, chamado Maqbool. Se este do começo dos anos 2000 era uma releitura de Macbeth, de Shakespeare, o segundo foi uma releitura de Othello, do mesmo legendario escritor britânico. E foi que Omkara consagrou de uma vez por todas a capacidade de Vishal Bhardwaj de construir releituras com um roteiro extremamente complexo e com uma direção impecável, coisa que, definitivamente, a audiência indiana não conhecia.
Mas foram outros dois filmes do mesmo ano de 2006 que fizeram história na Índia. O primeiro, A Cor do Sacrifício(Rang De Basanti, 2006), dirigido por Rakeysh Omprakash Mehra, trouxe Aamir Khan interpretando um estudante universitário, ao lado de seus colegas. Por incrível que pareça, esse filme foi o primeiro a trazer como personagens centrais jovens universitários. De novo, a história central não era de amor e o roteiro não girava em torno do mundo dos adultos. Isso, de imediato, conquistou a imensidão de estudantes universitários Índia adentro, que naquele momento já era grande parte do público dos cinemas indianos. Um novo nicho havia sido descoberto.
Acontece que não foi somente esse fator que colocou A Cor do Sacrifício na história do país. Ele levou os personagens de seu filme a lutarem por direitos, numa escalada dramática tão impressionante e inesperada que acabou por instar os jovens indianos a fazerem o mesmo, coisa que eles não tinham nunca aprendido a fazer. Na época, a série de protestos de jovens pedindo por inúmeros direitos foi chamado pela mídia indiana de “efeito RDB”, em alusão à sigla do filme, no nome original.
E então um outro filme veio para coroar todo esse movimento do ano de 2006.Siga em Frente, Munnabhai(Lage Raho Munnabhai, 2006), de Rajkumar Hirani, tinha tudo pra ser uma comédia normal, talvez com um pouco mais de qualidade em relação ao “normal” das comédias indianas - e ainda por cima tendo como eixo um amor aparentemente impossível. No entanto, ao inserir de maneira genial o Mahatma Gandhi e seus ideais na história, o inesperado aconteceu de novo. A juventude indiana, que acabara de descobrir o poder do protesto, entrou em contato com os mais importantes princípios de Gandhi, que já estavam totalmente esquecidos pela imensa maioria dos jovens. E não tardou pra que eles levassem esses princípios aos protestos desencadeados pelo “efeito RDB”, agora somado com o “efeito Munnabhai”. E mais uma vez, mais um filme veio aos cinemas da Índia pra mostrar que roteiros pensados e com conteúdo poderiam, sim, ter efeitos muito maiores do que pensavam.
Em 2007, Aamir Khan voltou não só com sua produtora e sua atuação, mas resolveu também arriscar-se na direção. O resultado dessa soma foiComo Estrelas na Terra(Taare Zameen Par, 2007), um absoluto sucesso não só na Índia, como também no mundo. O que Aamir fez, dessa vez, foi construir uma história que questionasse o modelo educacional da Índia, mas de forma tão eficaz que a mensagem pudesse ser pro mundo. Com um apelo emocional muito forte, Como Estrelas na Terra não parou até hoje de mandar sua mensagem.
No ano seguinte, Ashutosh Gowariker voltou com outra obra mais do que grandiosa.Jodhaa Akbar(Jodhaa Akbar, 2008) trouxe de volta ao cinema indiano não só a potência dos épicos, como também resgatou as lendárias histórias vividas no país durante o domínio do império Mogol. Também com incríveis 3 horas e meia de duração,Jodhaa Akbar foi uma superprodução histórica como não se via há tempos.
E então 2009 trouxe a obra seguinte, e bombástica, de Rajkumar Hirani, desta vez com a atuação e já indiscutível capacidade de influência - e manipulação, diríamos? - de Aamir Khan. 3 Idiotas(3 Idiots, 2009) bateu todos os recordes de bilheteria da história do cinema indiano, trazendo de volta jovens universitários como personagens centrais, mas desta vez questionando o próprio modelo de ensino superior do país. Mas a história do filme talvez não levasse a obra ao recorde, não fosse a inusitada estratégia de marketing imposta por Aamir Khan nos meses antecedentes ao lançamento de 3 Idiotas. Na autointitulada “maior caça humana” da história da Índia, Aamir Khan desapareceu dos olhos do público e da mídia, reaparecendo disfarçado nos mais inesperados lugares do país.
No mesmo ano, Anurag Kashyap apresentou uma obra difícil de ser aceita pela maior parte do público indiano, mas que mostrou ser capaz de fazer escola e consolidar um caminho sem volta no seio de Bollywood. Ao fazerDev.D(Dev.D, 2009), Anurag realizou a décima primeira versão cinematográfica indiana do romance bengalês “Devdas”, de Sharat Chandra Chattopadhyay. No entanto, ao contrário das dez versões anteriores, Dev.D foi, na verdade, uma releitura contemporânea da obra, inovando em vários aspectos na direção, no roteiro e nas atuações.
Em 2010, finalmente, dois foram os filmes que também chegaram ampliando os rumos do cinema indiano e fechando a década das mudanças. O primeiro, Amor, Sexo e Traição (Love, Sex aur Dhokha, 2010), de Dibakar Banerjee, inovou impressionantemente na linguagem e na condução do roteiro. A partir do descontrole que temos hoje das câmeras que estão por todos os lados, LSD, como é chamado, explora essa questão pra contar três diferentes histórias reveladas por esses “olhos”.
O último filme desta seleção éPeepli ao Vivo(Peepli Live, 2010), da Aamir Khan Productions. Desta vez, a inovação não está mais nem na qualidade do roteiro, nem da direção, nem da produção, que são todos ótimos e seguem a escola construída. O que se inova, desta vez, é em quem dirige e em quem atua. Anusha Rizvi, a diretora, era uma completa desconhecida até cair nas graças de Aamir Khan, que topou investir suas fichas nelas, ao contrário do que fazem as outras produtoras. E os atores, seguindo o mesmo rumo, são também completos desconhecidos, alguns deles com carreira somente no teatro, até então. Peeli ao Vivo, desta forma, apresenta um cinema com tanta qualidade de conteúdo e forma, que simplesmente não depende de nomes pra fazer sua fama. E isso o cinema indiano também não conhecia.
É assim que, quando se olha para os últimos dez anos do cinema indiano, o que se vê foram mudanças intensas que deram início a um novo patamar de se fazer filmes na Índia. Vários nomes podem ser citados, mas a liderança de Aamir Khan, hoje o mais bem pago astro do cinema indiano, é unânime. Afrouxando a camada grossa que sempre separou o cinema industrial do chamado “cinema paralelo”, ou de arte, indiano, Aamir apresentou ao público comum novas possibilidades de se contar histórias na tela grande.
E o êxito desta mudança está sendo agora apresentado com uma retrospectiva de cinco dos mais proeminentes filmes em que Aamir Khan participou, seja como ator, seja como produtor, seja como diretor, ou tudo isso junto, ao longo desta última década.
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Hoje, 2 de outubro de 2009, Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma, faria seus 140 anos. Há apenas três feriados nacionais fixos na Índia, e hoje, não por menos, é um deles - o Gandhi Jayanti.
Poucos podem dizer sobre a real importância de Mahatma Gandhi na constituição da atual Índia, mas o que realmente importa para hoje é que Gandhi é amado por metade da Índia - a outra metade, porém, o odeia. Mesmo dentre os que o amam, no entanto, a ignorância em relação ao o que ele foi e representou é grande.
E eis que no ano de 2006, a continuação do filme Munna Bhai M.B.B.S (2003) resolveu trazer Gandhi ao tema central de seu roteiro, causando uma pequena revolução silenciosa na juventude indiana. Lage Raho Munna Bhai é uma típica comédia bollywoodiana, mas conseguiu tocar fundo nos indianos, de maneira talvez inesperada. E desde que fundei esse blog prometo falar desse filme e finalmente estou cumprindo!
O filme conta mais uma história do bizarro Murli Prasad Sharma, o Munna Bhai, interpretado por nada mais que Sanjay Dutt, que desta vez apaixona-se por Jhanvi (Vidya Balan), uma locutora de rádio de Mumbai. Todos os dias de manhã, era religioso para Munna Bhai escutar o "Gooooood mooooooorniiiiiiing, Mumbaaaiii" de Jhanvi; ele se derretia.
E então, na oportunidade do Gandhi Jayanti, ela lança um concurso de perguntas sobre o Mahatma e quem acertasse teria a oportunidade de conhecê-la. É a chance de ouro para Munna Bhai, mas... "... quem é Gandhi? Aquele cara que está em todas as notas de rúpia? Ah, ok." Essa observação feita é tipissíssima dentre os jovens indianos, que veem Gandhi em suas rúpias todos os dias, que todos os anos ficam felizes por mais um feriado nacional, mas nada sabem sobre aquele que outrora uniu o país e cuspiu fora os britânicos de lá.
Mas daí Munna Bhai e sua gangue (sim, porque como tanto gosta Bollywood, Munna Bhai pertence ao submundo de Mumbai) raptam alguns professores universitários para que eles ajudassem a responder às perguntas sobre Gandhi. O resultado é que Munna Bhai "acerta" todas as perguntas e então Jhanvi o convida para dar uma espécie de palestra sobre Gandhi a um grupo de idosos.
Munna Bhai se vê numa enrascada e percebe que a única solução será estudar profundamente sobre Gandhi - até porque ele não queria de modo algum desapontar sua amada! Ele então entra numa biblioteca especializada em Gandhi (abandonada às traças) e lá fica por três dias e três noites, sem comer e nem dormir. Num dado momento, eis que o espírito de Gandhi aparece para Munna Bhai, tentando convencê-lo de que o melhor seria contar a verdade a Jhanvi. Diz ainda que, quando necessário, bastaria cantar o Raghupati Raghava Raja Ram para chamá-lo (essa música ficou famosa nos tempos de Gandhi, pois era um dos seus hinos devocionais preferidos).
Munna Bhai não consegue contar a verdade, mas mesmo assim Gandhi vai ajudando-lhe a dizer sobre ele próprio, o que acaba por conquistar o coração de Jhanvi, que acredita que Munna Bhai é realmente um profundo conhecedor do Mahatma. Assim, ela o convida para participar com ela de um novo programa na rádio, que seria ajudar as pessoas a sair de seus problemas a partir do pensamento gandhiano. Essa parte é o coração do filme. Tão logo ambos iniciam o programa e Mumbai inteira para todos os dias para escutá-los, ansiosos para ver e emocionarem-se com cada caso solucionado (e Gandhi dizendo tudo o que fazer por trás dos ombros de Munna Bhai).
Mas nem tudo são flores. Enquanto tudo isso acontece, porém, Lucky Singh (Boman Irani), um inescrupuloso empresário, quer casar sua filha com o filho (Abhishek Bachchan, totalmente secundário, ou melhor, terciário, no filme) de outro empresário, Kkhurana. O astrólogo de Kkhurana diz que seria muito auspicioso se a casa em que eles morassem fosse a Second Innings House. Acontece que tal casa é justamente onde mora Jhanvi. Para despistar Jhanvi e Munna Bhai, Lucky manda ambos para Goa, junto dos velhinhos, enquanto a própria gangue de Munna Bhai esvazia a casa de Jhanvi.
A partir daí a história entra pra parte mais crítica e também mais emocionante. E não vou contar!
O filme foi um super sucesso em 2006, ficando apenas atrás de Dhoom 2 em arrecadação no ano. Na lista dos fillmes que mais arrecadaram na história de Bollywood, Lage Raho Munna Bhai está em sexto lugar.
Como eu disse no início, esse filme é um dos poucos que mudam o rumo social da Índia. Curiosamente, no mesmo ano estava no cinema o filme Rang De Basanti, que também teve um impacto social profundo no país. Os dois, juntos, levantaram a juventude indiana e fizeram-na acordar para as injustiças e para as possibilidades de transformações socioeconômicas e políticas. Rang De Basanti teve o impacto de trazer os jovens para o centro da "revolução", enquanto que Lage Raho Munna Bhai trouxe a eles os valores gandhianos da não-violência e da desobediência civil. Os anos se passaram e muito já ficou pra trás, mas ainda hoje existem manifestações organizadas pela juventude indiana, fruto do que provocou ambos os filmes na alma deles.
Vale muito a pena assistir. A despeito dos comportamentos escusos de Sanjay Dutt, sua atuação nesse filme é indubitavelmente ótima e convincente. Não dá pra negar o valor que seu papel teve para a Índia - e isso devemos venerar. E também a atuação de Arshad Warsi, como Circuit, o fiel escudeiro de Munna Bhai, é imprescindível, tendo ele levado o prêmio de melhor ator coadjuvante num papel cômico, pelo Filmfare Awards. Além deste prêmio, o Lage Raho Munna Bhai levou o prêmio de melhor filme pela crítica e de melhor roteiro. No National Film Awards, levou o estranho Best Popular Film Providing Wholesome Entertainment, além dos prêmios de melhores letras de música, melhor roteiro e melhor ator coadjuvante para Dilip Prabhavalkar, que fez o Gandhi no filme.
Ah sim, e a trilha sonora do filme (a cargo de Shantanu Moitra) é bem divertidinha, com alguns song-and-dances também divertidos. A direção dessa obra é de Rajkumar Hirani, com produção de Vidhu Vinod Chopra.
Não achei nenhum trailer decente do filme, mas decidi colocar o clipe da música-título, que embora não seja um resumo do filme, é bem engraçadinha. E não deixem de ver!
Conforme o combinado, aqui vai a segunda parte da postagem sobre Bollywood!
Bom, já dissemos, mas vamos ressaltar que a grande fórmula de sucesso de Bollywood são as famosas cenas de song-and-dance (música e dança). O fato é que, embora muitos filmes já estejam deixando de fazê-las – ou ao menos deixando de fazer a parte dance e deixando apenas o song – a maioria dos grandes sucessos recentes valeram-se disso. Quanto melhores as coreografias, quanto melhores as músicas e quanto mais famosos os atores, maior será o sucesso. Também já disse na postagem sobre Taare Zameen Par que as músicas dos filmes, geralmente, são lançadas nas rádios antes mesmo do lançamento dos filmes nos cinemas, de tão importantes que são.
E talvez muitos não saibam, mas as músicas dos filmes não são cantadas pelos atores, mas por cantores profissionais. Os atores apenas fazem o playback nas cenas de song-and-dance, como se eles mesmos cantassem. E muitos desses cantores profissionais acabam também ficando famosos, lançando, por vezes, seus discos independentes (o que não é assim tão comum de ocorrer, na verdade, já que indianos só escutam as músicas dos filmes). A cantora que ficou mais famosa, e ainda vive, é indiscutivelmente Lata Mangeshkar.
Outro fato é que a grande função de Bollywood é o entretenimento antes de tudo. Por isso mesmo, o público que paga quer mesmo é ser entretido. Indiano tem um pouco de preguiça de pensar, essa é a verdade, então os filmes não podem, assim, ser muito profundos e ter muita lógica, mas apenas entreter. Isso, por lá, é chamado de paisa vasool, ou seja, algo como fazer valer o dinheiro dispendido.
Mas, conforme já dito na primeira postagem sobre Bollywood, novos ventos sopram do oeste, e o modelo ocidental de cinema parece estar chegando para ficar, ou ao menos ganhar o seu terreno. Outro fato que consta nos registros é que, ao que parece, muitos dos primeiros filmes indianos, pré-independência, tinham cenas de beijo e até sexo, mas foi pós-independência, com um governo 100% indiano, que isso tudo foi censurado. Agora a sociedade pede por mudanças.
A falta de interesse que havia por real qualidade das produções também se manifestava na imagem e no som. A despeito da quantidade de dinheiro que circula por Bollywood, até hoje muitos filmes são gravados com câmeras obsoletas, que captam imagens de baixa qualidade. Além disso, por incrível que pareça, até o ano 2001, os sons dos filmes não eram captados na hora da gravação, mas inteiramente recriados em estúdio. Isso mudou somente com o filme Lagaan (2001), em que o ator Aamir Khan insistiu que a produção fosse filmada com captação de sons conjunta. Não é necessário nem dizer que isso passou a dar mais realismo às produções. Depois disso não só Bollywood, mas também outras indústrias passaram também a captar os sons na hora da filmagem.
Agora vamos falar sobre uma questão um tanto polêmica para Bollywood: seu financiamento. Todos sabemos que muito dinheiro rola nas produções do cinema hindi, mas o pior disso é que todo esse financiamento não é controlado por ninguém, principalmente por Bollywood não ter exatamente uma sede. Até pouco tempo, bancos e instituições financeiras não podiam investir em produções de cinema, o que ficava a cargo de pequenas e grandes produtoras de Mumbai. Mas embora hoje os bancos possam investir em Bollywood, más línguas afirmam que a principal fonte de dinheiro da maior indústria de cinema da Índia sai mesmo é da máfia.
O livro McMafia: A Journey Through the Global Criminal Underworld (ou, na edição brasileira, McMafia: Crime sem Fronteiras) cita Bollywood como um importante “nó” da máfia mundial. Não só produtoras, mas também diretores e atores estariam envolvidos com o crime e contrabando mundial, utilizando os filmes para lavar dinheiro. Mais ou menos como o jogo do bicho e o carnaval, aqui no Brasil, salvas as devidas proporções.
O caso mais emblemático – e complexo, eu diria – é do ator Sanjay Dutt. Um dos atores mais famosos de Bollywood até hoje, Dutt, filho de deputado, esteve declaradamente envolvido com ao menos um atentado a bomba que ocorreu em Mumbai, em 1993. Ele chegou a ser preso e ficar um ano e meio na prisão, quando acabou solto. O processo segue até hoje, porém, enquanto Dutt faz sua fama em Bollywood, que parece conspirar a seu favor. Nesse meio tempo, ganhou diversos prêmios, dentre eles dois de melhor ator pelo Filmfare Awards, a maior premiação de Bollywood. Um deles foi entregue em 1994, um ano após os atentados a bomba.
O maior golpe de Bollywood a favor dele, porém, foi o lançamento do filme Lage Raho Munnabhai, o segundo de uma série em que ele interpreta um integrante de uma gangue – curioso, não? Acontece que neste filme, Dutt, no papel de Munnabhai, acaba recebendo a visita do espírito de Mahatma Gandhi, que mais ou menos o converte para a não-violência e firmeza com a verdade (ahimsa e satyagraha). O filme acabou emocionando muita gente, mas o maior de seus efeitos foi fazer uma nova geração indiana aprender a gostar de Gandhi, após duas gerações que o odiavam. Assim, a máfia não só lava seu dinheiro com Bollywood, como também, de alguma maneira, lava a cara de seus membros, fazendo a cabeça do povo indiano.
Bom, e diferentemente das outras indústrias regionais de cinema da Índia, Bollywood consegue fazer bastante sucesso também no exterior. Os países vizinhos (Bangladesh, Nepal, Sri Lanka, Afeganistão e mesmo Paquistão) são os maiores mercados externos, mas há crescente interesse no oriente médio, Israel e Oceania. A antiga União Soviética era um grande mercado, hoje mais restrito à Rússia, que costuma dublar as produções. Nos anos mais recentes, com o crescimento das colônias indianas na América do Norte e na Europa, essas regiões também estão presenciando um crescimento das exibições de produções bollywoodianas por lá. Na América do Sul praticamente não há conhecimento sobre Bollywood, com exceção de Suriname e Guiana, que têm quase metade de suas populações descendentes de indianos; situação semelhante é observada na África, onde Bollywood é mais conhecida na África do Sul, onde há a maior colônia de indianos fora da Índia.
Na postagem sobre o cinema punjabi, a Sandra escreveu um comentário a respeito do filme Sing is Kinng, que acaba de ser lançado na Índia e já está causando bagunça. O filme não é de Punjwood, mas de Bollywood mesmo, que, vira e mexe, roda filmes com o tema dos sikhs, religião predominante no estado do Punjab.
A produção foi quase toda rodada na Austrália, embora tenha passagens em outros países, como Emirados Árabes e Egito, passagens típicas de Bollywood. A história conta o dilema de um sikh muito bem sucessido no cenário underground australiano, que descobre haver um outro sikh aparentemente mais bem sucedido que ele, o Happy Singh, que vive num pequeno povoado do Punjab. Desenrolando-se em torno da disputa entre os dois, Sing is Kinng (S.I.K, alusão à religião Sikh) não passa de mais um programa de entretenimento com uma mulher bonita (Katrina Kaif, bonita e famosa) e um ator famoso (Akshay Kumar, famoso e, segundo algumas, bonito também...) no meio. Boa parte da inspiração deste filme saiu do bem sucedido Lucky Singh de Lage RahoMunnabhai, que falaremos algum dia.
Sandra ainda chegou a mencionar o status de "macho" do homem sikh, o que não é mentira. Por força das condições geográficas e históricas da civilização indiana, a região do Punjab, como já foi dito, é uma das mais férteis daquele subcontinente e, consequentemente, acaba reunindo grandes fazendeiros e comerciantes. Por causa disso, mas também por outras questões culturais, os sikhs, embora percentualmente poucos no total da população indiana, são tradicionalmente donos de negócios e por vezes envolvidos em esquemas ilícitos (isso confesso pelo que aprendi no que mostram todos os filmes envolvendo esse povo). Não por menos, um sikh costuma ser referido por sardar, ou chefe/patrão, em hindi. Quem já teve a oportunidade de passar pelo Terminal 4 do aeroporto de Heathrow, em Londres, deve ter notado a quantidade de donos ou gerentes de lojas com turbantes; se passou por lá e não notou, não deixe de prestar atenção nos sardars. -
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