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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Mostra de cinema indiano em Turim

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Há pouco mais de um mês, a cidade italiana de Florença presenteou seus habitantes com o festival River to River, de cinema indiano, dentro de um festival bem maior de cinema internacional. Dessa vez, o norte do país será mais uma vez agraciado com o festival Bollywood, Bollywood!, dessa vez no Museu d'Arte Orientale (MAO) de Turim, que irá deste dia 14 de janeiro ao dia 11 de fevereiro de 2010.

Embora a extensão seja grande, apenas quatro filmes serão exibidos e que considero particularmente bem escolhidos para representar a Bollywood contemporânea, como se propõe essa pequena mostra. No site do museu temos um texto um tanto chavão, mas que deve ser traduzido aqui:

"Ignorado por décadas no ocidente, se não em sua manifestação mais nobre e comprometida, o cinema indiano goza hoje de uma inesperada popularidade. Expressão de um país com muitas facetas, que representa com fidelidade absoluta a natureza policromática e contraditória, fugindo de qualquer classificação rígida: como a masala, é uma verdadeira mistura de especiarias em cuja mistura os sabores aparentemente incompatíveis se fundem num composto surpreendentemente saboroso. O objetivo deste encontro é aprofundar as raízes, explorando as múltiplas ramificações e encontrar um substrato comum, na tentativa de encontrar as razões do sucesso de um fenômeno tão falado e tão incompreendido".

Bom, na abertura da mostra haverá uma conferência com Aelfric Bianchi que falará sobre "Il Meraviglioso Mondo di Bollywood" (O Maravilhoso Mundo de Bollywood), às 21h do dia 14/01. E os filmes a serem exibidos serão:  Devdas (21/01, às 20h), Main Hoon Na (28/01, às 20h), Jodhaa Akbar (04/02, às 18h) e Black (11/02, às 20h).

Endereço do museu, telefone etc., clique aqui. Os ingressos são gratuitos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Os professores nos filmes de Bollywood

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Hoje, 15 de outubro, é Dia dos Professores aqui no Brasil. Muitas escolas fecharam hoje, em merecido respeito aos imprescindíveis mestres que nos ensinaram e ensinam sobre o mundo. Alguns conseguem ter a façanha de fazermos odiar certas disciplinas, ou certos assuntos, mas por vezes estes mesmos são responsáveis pela paixão de alguns outros por determinados temas. Nossas demandas e nossas resistências fazem com que nossos mestres sejam também esforçados aprendizes, com suas inerentes dificuldades e facilidades, num dos movimentos dialéticos mais lindos que podem existir em nossas vidas.

Estou escrevendo este texto um pouco tarde, pois certamente a maior parte de vocês já estará lendo isto quando o sol ilumina o dia seguinte , mas ainda assim deixo aqui o meu profundo respeito e admiração pelos professores - de todas as categorias -, em reconhecimento pelos seus esforços e pela missão que todos têm a cumprir. E das mais dignas, que bem se diga.

E sim, nosso blog é sobre cinema indiano. Pois bem. Na Índia, o dia dos professores é comemorado no dia 5 de setembro, ou seja, ficou 40 dias para trás. Naquela ocasião, foi publicado um texto na glamsham.com falando a respeito de alguns filmes de Bollywood que abordaram a temática dos professores ao longo da história. Como eu fui ter acesso a esse artigo há pouco tempo, achei por bem deixar para pulicá-lo hoje (ainda que nos últimos minutos do dia), em homenagem aos nossos professores.

Então aqui vai:

O Dia dos Professores e os professores nos filmes hindi
Enkayaar

Um dos fatos mais subestimados que existem é de que a indústria de filmes é uma indústria que inevitavelmente desenvolve-se a partir da relação entre mestre e discípulo. O mais sincero e direto reconhecimento dessa relação veio de Raj Kapoor, que disse que ele não estaria onde está, não fosse o efeito que teve nele a obra de Kidar Sharma. Da mesma maneira, para Rishi Kapoor, foi Raj Kapoor quem lhe ensinou as mais sutis possibilidades da arte de se fazer cinema, fazendo-o entender como caminhar no labirinto do mundo do cinema.

O papel básico de um professor é o de ensinar, e a partir dessa perspectiva podemos encontrar uma série de fatos que comprovam que o cinema não está de fora dos exemplos dessa relação entre mestre e discípulo.

Quando o tema da relação entre professor e aluno aparece nas telas, o Big B é um dos que mais fizeram este tipo de papel no cinema. Ao fazer tais papéis, porém, ele deve dedicá-los a um ilustríssimo professor que ele teve ainda dentro de casa, certamente sua inspiração - Harivansh Rai Bachchan [seu pai]. O primeiro personagem como professor apareceu em Chupke Chupke (1975), no qual era um professor de inglês e que conquistou grande respeito. A mesma consideração repetiu-se em Kasme Vaade (1978), que embora ele tenha tipo uma pequena participação, sua atuação como professor foi feita com tanta dedicação que até hoje não foi superada totalmente. Na geração seguinte, quando vestiu de novo as roupas de professor em Mahabbatein (2000), ele mostrou como um professor transforma-se a partir das próprias experiências. Mohabbatein é sem dúvidas um tributo à profissão de ensinar e um exemplo de como duas gerações de professores - e suas respectivas visões de mundo - podem entrar em conflito; o professor mais novo é nada mais que Shahrukh Khan.

Outra característica do professor que tem sido experimentada com frequência nos filmes é a de preparar o aluno a enfrentar o mundo e lutar contra as injustiças. Essa questão foi também interpretada por Amitabh Bachchan algumas vezes, mas sua geração seguinte trouxe isso com mais força. Ajay Devgan, Sanjay Dutt e Salman Khan, além de Aamir Khan, seguiram com essa tradição.

Em relação ao papel de um professor na formação e crescimento de uma criança, nada bate os filmes Kitaab (1977), de Gulzar, e Taare Zameen Par (2007), de Aamir Khan. A diferença entre esses dois filmes está no fato de que em Kitaab a preocupação está em trazer a questão da importância da escola em si, e em Taare Zameen Par é escolhido um tema em específico para enfatizar essa questão.

Um fato bem irônico disso tudo é que embora o cinema hindi tenha justamente o hindi como sua língua, os professores de hindi são sempre os mais ridicularizados, filme após filme. Provavelmente isso deve-se ao fato de uma certa aversão que existe de se falar o hindi corretamente, e assim tal professor acaba sendo caricaturado. Asrani, Jagdeep etc., representaram esse tipo de professor.

O cinema hindi também não deu a importância devida às professoras. Quando apareciam, elas estavam mais ligadas à sexualidade do que ao papel de professora em si. Ela foi mais representada como um produto efetivamente do que em sua sensibilidade, e a última manifestação disso foi em Main Hoon Na (2004); no passado, foi em Mera Naam Joker (1970).

Independentemente do que virá, o que é certo é que o cinema hindi não sorevive sem os professores. E esse é um momento oportuno pra reolharmos de que maneira os professores vêm sendo representado ao longo dos tempos.

[adendo do Ibirá: embora eu tenha achado esse artigo interessante, senti falta de outros notórios professores do cinema indiano, como o professor Debraj Sahai, do lindo filme Black (2005), interpretado pelo próprio Amitabh Bachchan, ou do treinador de Chak De! India (2007), interpretado por Shahrukh Khan. Ambos os filmes são ótimos e foram muito premiados e, na minha opinião, deveriam ter sido mencionados. As duas primeiras fotos desta postagem, portanto, referem-se a eles.]

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Clipe com a música tema do filme Black

Esse clipe mostra a atuação de Ayesha Kapoor, no papel de Michelle McNally ainda criança, e de Rani Mukerji. Essa é a única música do filme, que se repete com algumas modificações ao longo das cenas.

Abra os olhos da alma


Os onze prêmios dados ao filme Black são muito mais que merecidos. É uma produção com qualidade insuperável e de uma simplicidade muito difícil de se fazer. Seria injustiça dizer que Bollywood não faz bons filmes, assim como não seria correto afirmar que um filme precisa ter cenas de música para conseguir ser produzido em Bollywood. Tudo depende da vontade conjunta do diretor, produtor e atores... talvez para Black ter saído tenha sido necessária a presença de Amitabh Bachchan, o Big B, no importante papel de Mr. Debraj Sahai. Big B é o ator cuja adoração na Índia, na verdade, ainda está por ser superada talvez por Shahrukh Khan. Na Índia, sendo as pessoas mais velhas muito respeitadas, e sendo atores de Bollywood tratados como deuses, ser então um velho ator renomado é quase o mesmo que ser o Deus Supremo. E Amitabh Bachchan fez o seu melhor neste filme.

Mas Rani Mukerji também merece todas as condecorações que sua atuação pode receber. No papel de Michelle McNally (que seria então a Helen Keller neste filme), Rani consegue brilhantemente enganar a todos e faz-nos pensar que é realmente cega e surda. Sua angústia e vontade de viver atravessam a tela e atingem em cheio nossa arrogância. E ainda surpreendente, Michelle criança é interpretada pela atriz-mirim Ayesha Kapoor, afligindo-nos com seu comportamento animalesco com que Mr. Sahai se deparou ao vê-la pela primeira vez. O prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante só não teve o Coadjuvante retirado porque Rani Mukerji merecia mesmo o principal.

O filme se passa na então capital de verão britânica, Shimla. A família McNally, anglo-indiana, é cristã e muito rica. Quando Mr. Sahai é contratado para tentar educar a pequena Michelle, de imediato o pai entra em desacordo com a maneira bruta com que o tal professor trata a criança. Mas ou Michelle aprenderia com tratamento de choque, ou a família McNally seria geradora de um bizarro ser humano-animal incontrolável. Mr. Sahai é mandado embora, mas por um golpe de sorte, no mesmo dia o pai de Michelle vai viajar por 20 dias e o professor fica na casa com "consentimento" da mãe. Em 20 dias de luta, Mr. Sahai quase nada consegue fazer e sofre nocautes atrás de nocautes da menina-animal. Mas no vigésimo dia, numa sequência de cenas angustiantes, o milagre acontece e Michelle identifica a água e fala por sinais. É o início de um longo ciclo que a levará à universidade, dezoito anos depois.

Na entrevista de admissão na universidade, os professores fazem algumas perguntas a Michelle, para testar sua inteligência. A entrevista termina com a pergunta "O que é conhecimento para você?". E Michelle responde: "Conhecimento é tudo. Conhecimento é espírito, sabedoria, coragem, luz, som. Conhecimento é a Bília, Deus. Conhecimento é meu professor". Neste instante, Michelle declara publicamente seu amor por Mr. Sahai, uma relação difícil de se estabelecer. Afinal, Mr. Debraj Sahai desisitiu de sua própria vida para doá-la a Michelle. Talvez aí esteja um dos pontos importantes que fez o diretor Sanjay Leela Bhansali mudar a história real e trocar a professora por um professor, criando uma dificílima relação edipiana entre pessoas de sexos opostos. E a sensibilidade da direção reina nesse contexto, não pecando em exageros que deturpariam a profundidade da existência de Michelle.

Em outras alterações da vida real, no filme Black Michelle possui uma irmã mais nova, que tem ciúmes por nada girar em torno de si. Mas Michelle não sabe o que é ego, não sabe o que é apego; para ela, a existência de sua irmã representa um anjo em sua vida - nada mais do que isso. O cenário escolhido, a cidade de Shimla, cria um clima um tanto quanto introspectivo, tentando nos levar para dentro dos olhos que não vêem de Michelle. Shimla, no início dos Himalaias, é pequena e agradável, além de trazer consigo a neve das montanhas. Em uma cena clássica, Michelle sente a neve chegar antes mesmo de ser ela visível aos olhos de quem vê.

E mais no final da história (e é na verdade o que se mostra no começo do filme), Mr. Sahai sofre de Alzheimer e já não se lembra de mais nada. Não pode ver Michelle graduando-se e nem compartilhar com ela a felicidade de tal feito; mas ela sabe que nada no mundo é impossível. Como ela mesma diz, a única palavra que o professor não ensinou a ela foi "impossível". E eu poderia ainda acrescentar uma coisa que um amigo indiano me ensinou: em inglês, a palavra impossível (impossible), poderia ser traduzida por "I m possible", ou, eu sou possível. Black leva isso ao extremo. Em alguns momentos, é possível estabelecer uma relação entre Black e o filme alemão O Enigma de Kaspar Hauser, que conta a história real do homem que cresceu dentro de uma cela, no escuro, sem aprender a comunicar-se ou qualquer outro tipo de relação social. Ao ser liberto, Kaspar passa por um longo processo de aprendizado e desconstrução de seu também mundo quase animalesco.
Mas de novo, a ficção imita a vida real. E se a história é (quase) real, então nada nesse mundo é impossível. Se desconhecemos a dimensão do mundo porque vemos e ouvimos, então abra os olhos da alma e enxergue o universo. Black é imperdível.

Link pro wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Black_(film)

terça-feira, 17 de junho de 2008

Black - ब्लैक



Vamos imaginar uma coisa: você é cego, mas pelo menos pode ouvir e falar. Agora imagine que você é surdo, mas pode ver e se comunicar com a linguagem de sinais. Mas agora se imagine cego e surdo. Você não vê e não ouve. Seu mundo não tem luz nem sons; somente o tato é sua ponte entre o mundo externo e você. E a comunicação torna-se o maior de todos os desafios. Mas sonhe que um dia, nessas condições, você terá um diploma universitário e virará escritor.

Em 1880 nascia Helen Keller, no estado de Alabama, Estados Unidos. Ainda com poucos meses de idade, em conseqüência de alguma doença não muito bem esclarecida, a pequena criança fica completamente cega e surda e seus pais simplesmente não sabem como lidar com isso, menos ainda como educá-la. Aos oito anos de idade, Helen comporta-se como um animal, agindo sob instintos, absolutamente alijada de qualquer meio de comunicação com seu mundo exterior. No entanto, eis que aparece Anne Sullivan, uma ex-cega, que aceita a impossível tarefa de ensinar Helen a comunicar-se. Mrs. Sullivan não só consegue educar Helen, como, após longo tempo, consegue sua admissão em uma faculdade de filosofia. Mrs. Sullivan a acompanha em todas as aulas, fazendo para Helen os sinais daquilo que estava sendo dito pelos professores. Helen consegue graduar-se e acaba tornando-se uma notável escritora, além de ativista pelos direitos humanos – era uma socialista declarada.

A história que contei não é do filme Black, que ainda irei falar. Expus aqui a história real de Helen Keller, cuja inacreditável vida serviu de inspiração direta para este maravilhoso filme de Bollywood. Em 1962, Hollywood produziu um filme, chamado The Miracle Worker (O Milagre de Anne Sullivan, no Brasil, e O Milagre de Helen Keller, em Portugal), contando a história de Helen Keller somente até o momento em que ela consegue identificar a primeira palavra. Black faz muitas coisas semelhantes, inclusive de interpretação, relacionadas ao The Miracle Worker, mas vai além e tenta prosseguir na história, dessa vez até a graduação da garota cega-surda.

No entanto, Sanjay Leela Bhansali, o diretor e escritor deste filme, por algum motivo, decide que seu filme não seria uma história real, mas apenas baseada em. Em Black, Helen Keller é Michelle McNally (Rani Mukerji) e Mrs. Anne Sullivan é Mr. Debraj Sahai (Amitabh Bachchan). Embora tudo no filme seja explicitamente a vida de Helen Keller, sua professora é um professor e o fim da história já não é a mesma coisa que aconteceu na vida real. Apesar disso, o filme é absolutamente maravilhoso.

Black é a produção com maior número de prêmios recebidos no Filmfare Awards de todos os tempos, com onze premiações. O recorde, batido em 2006, passou o sucesso absoluto na Índia, Dilwale Dulhania Le Jayenge – DDLJ (1995), e Devdas (2002), ambos com dez prêmios cada. Na premiação mais famosa da Índia, Black levou o troféu de Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz, Melhor Performance pela Crítica (pra Amitabh Bachchan e Rani Mukerji), Atriz Coadjuvante, Edição, Fotografia, Cenário e Melhor Filme pela Crítica.

A seguir veja o trailer e clique aqui para ler a segunda postagem sobre este filme, onde faço a minha crítica.



Black (2005)


Em breve falarei sobre este filme, que é fantástico. Venceu diversos prêmios no Filmfare Awards 2006, mas já está esquecido na Índia, por ser muito sério...