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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

No Smoking (2007)

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É, eu tava com saudades das minhas postagens de filmes. Aliás, saudades daqui! Vida corrida, mas vamos que vamos. E vamos com mais um Anurag Kashyap, porque quero que todos o conheçam, porque ele merece que todos o conheçam, porque o cinema indiano o merece.

No Smoking (Não Fume, ou Proibido Fumar, ou como queira) é o segundo filme de Anurag Kashyap lançado nos cinemas, entrando nas salas da Índia em 2007. E já digo já: quem vê John Abraham (o próprio) no elenco logo pensa que ele está ali pra dar audiência pro filme. Ledo engano. Anurag afirma e repete que John está ali primeiro porque é um dos poucos atores realistas do cinema indiano, segundo por ser seu amigo, e terceiro por ele ser exatamente como Anurag imaginava o personagem. E não, Johnny boy não garantiu audiência pro filme, que foi mal na bilheteria e já explico o porquê.

Antes de falar sobre o filme em si, vamos falar um pouco sobre Anurag antes de No Smoking. Ele havia feito até então dois filmes: Paanch (2003) e Black Friday (2004). O primeiro, por falar resumidamente de sexo, drogas e rock'n roll, foi obviamente censurado integralmente e não foi liberado pros cinemas. O segundo, apesar de ter sido amplamente aceito em festivais ao redor do mundo, dentro da Índia o CBFC (departamente de certificação dos filmes na Índia, ou vulgarmente - e merecidamente - apelidado de central de censura) não entendeu que o filme pudesse ser uma ficção e, por parecer documentário (não parece, em definitivo) não liberaram pra passar nos cinemas (que país de 20 mil salas de cinema é esse que não exibe documentários?). Enfim, o resumo é esse, mas Black Friday acabou estreando em grande estilo na Índia, três anos depois, após alguma alma santa e instruída do governo indiano - ou algo assim - ter visto o filme, gostado, e limpado o caminho pra que o filme chegasse às salas.

Mas o que fez Anurag nesses anos de repressão e censura? Bebeu e fumou, e muito. Entre corromper-se à mercantilização da arte e manter-se na arte, ele escolheu a segunda opção e pagou mais caro por ela. E foi nessas trevas que nasceu No Smoking, um dos mais ousados filmes de Anurag até agora, feito com a subliminar intenção de elaborar seu próprio processo. Apesar de feito três anos depois de Black Friday, ambos estrearam juntos em 2007, com poucos meses de diferença.

Baseado no conto "Ex-Fumantes Ltda", do livro Sombras da Noite, de Stephen King, e um tanto inspirado nos Davids Lynch e Cronenberg, No Smoking é basicamente uma viagem onírica pesadelítica (com a licença autoconcedida de criar palavras, obrigado). John é K, um homem lindo, gostoso e vaidoso. E um fumante inveterado. O vício é tanto que seu casamento com Anjali (Ayesha Takia) fica seriamente abalado. Um dia, ao encontrar Abbas Tyrewala (Ranvir Shorey), um antigo amigo, recebe a recomendação para tratar o vício com um certo guru fofamente chamado Shri Shri Prakash Guru Ghantal Baba Bengali Sealdahwale (ou apenas Baba Bengali), no não menos fofo Prayogshaala, escondido embaixo de uma loja de tapetes.

Acontece que uma vez que se está em frente ao Baba Bengali, o tratamento é sem volta. Ou, na verdade, encerra-se a realidade e tem-se início um bizarro labirinto de desafios e voltas que não sabemos se irá se fechar.

Não se trata ao certo de um filme de suspense; ele é muito mais uma comédia que qualquer outra coisa, mas extremamente bem elaborada. E é esse "extremamente bem elaborada" que fez com que o filme não fizesse sucesso nos cinemas da Índia, pelo simples fato de exigir que a audiência pensasse ao assistir. Nem uma aparição da Bipasha Basu, nem a produção bancada por Vishal Bhardwaj, nem John Abraham semi nu várias vezes, nada disso salvou. Mas diz o próprio Anurag, pouco tempo depois e No Smoking já havia ganhado o status de filme cult indiano, sendo o DVD comprado aos montes pela classe média que queria pensar um pouquinho mais. Mesmo a crítica logo definiu o filme como um dos mais abstratos já feitos na Índia, dando margens a muitas interpretações - o que, já sabemos, não é mesmo comum por ali.

O filme tem passagens bastante interessantes, começando com uma sequência bem engraçada na Sibéria (sim), absolutamente ilógica e definitivamente crucial pra segurar o filme. Talvez ainda não seja um filme perfeito por certos padrões do cinema indiano, sobretudo de interpretação de uns e de outros, mas que se salvam pelo filme ter elementos que caem, mesmo, no caricato. Mas é de menos; No Smoking já dizia pra que viria Anurag Kashyap, que não deixou de surpreender em nenhum de seus filmes seguintes.

Como eu dizia desde que esta página foi criada, e ressaltado por Anurag, o cinema indiano apenas iniciou suas mudanças. O caminho é longo, as barreiras são muitas, e não devemos nunca esquecer de ver os filmes com isso em mente - ou eles perdem muito do valor, ainda que apenas histórico, em alguns casos. E então, por favor, assistam No Smoking. E assistam por uma segunda vez, ao menos, como todo bom filme merece.

Aqui o trailer:

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Black Friday (2004)

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Black Friday, ou Sexta-Feira Negra, é oficialmente o filme de estreia de Anurag Kashyap. No entanto, a verdade é que Anurag já vinha se construindo um certo tempo antes. E essa construção significou não somente a direção de um curta metragem e a produção de vários roteiros, mas também a realização de um longa anterior a Black Friday, chamado Paanch, mas que por imposição do previsível destino, foi integralmente censurado. E por quê? Segundo ele próprio, porque falava de sexo, drogas e rock-n'-roll - e não da maneira romanceada de Bollywood, mas da maneira, digamos, mais real, conforme nós aqui já estamos acostumados.

Então ele resolveu que queria fazer um filme pra ser visto, e não censurado, mas que não saísse de sua própria proposta autoral e não mercadológica. Baseado num livro de Hussain Zaidi, fez Black Friday. Recriou a história que levou aos atentatos terroristas em Mumbai em 1993, até hoje os piores da história da Índia, dissecando personalidades, reconstruindo medos e objetivos e escancarando verdades.

E o filme entrou em cartaz em 2004? Não. Anurag ficou feliz por isso? Não. O governo da maior democracia do mundo não entendeu que Black Friday fosse uma obra de ficção e, pior, considerou que permitir que o filme entrasse em cartaz pudesse induzir os julgamentos dos acusados - que ainda esperavam por isso, onze anos depois. Anurag contestou, disse que era ficção, já que a imensa parte do filme é construída com diálogos inventados e são atores interpretando. "Mas os nomes são reais!", contestaram as espertas mentes reguladoras do cinema indiano.

Mas Anurag teve um trunfo: sua obra foi indicada ao prêmio de melhor filme no Festival de Locarno, e levou o prêmio no 3º Festival do Cinema Indiano em Los Angeles, ambos em 2004. O resultado é que o filme ganhou projeção internacional e, em dois tempos, já havia na Índia cópias piratas. Não levou muito tempo pra que alguém do governo indiano assiste ao filme e se surpreendesse com o fato de que Black Friday não havia entrado em cartaz no país. E foi quando a reviravolta ocorreu; em 2007, Anurag teria seu primeiro filme estreando na Índia, um ano após o julgamento dos acusados do atentado de 1993.

E a crítica indiana amou o filme, com uma média de quatro estrelas, ou mesmo a rara cinco estrelas dada pelo The Times of India. Na bilheteria, obviamente, não foi grande coisa, mas Anurag lançava-se como um grande e persistente cineasta indiano e o reconhecimento era unânime.

Black Friday é evidentemente um filme forte, mas que agrada muito quando o que se considera é a inovação cinematográfica, não necessariamente indiana. Existe uma série de experimentações, desde o uso de imagens monocromáticas, em azul ou em vermelho, em momentos que o espectador logo reconhece e assimila a intensidade e propósito da cena, até a intercalação com imagens reais documentadas por canais de televisão à época dos atentados.

Também agrada bastante o realismo das interpretacões, centrada sobretudo em Kay Kay Menon e Pavan Malhotra, ainda que em outros casos haja um exagero evidente, provavelmente pelo que o próprio Anurag afirmou em relação ao cinema indiano: há falta de atores realistas na Índia.

Black Friday começa com um suspeito sendo tortura...-interrogado- e dizendo que Mumbai será alvo de uma série de ataques terroristas. Cita os locais exatos, inclusive. A polícia ri da cara dele, considera impossível o que ele estava relatando, em desespero, mas três dias depois acontecem os atentados, matando mais de 250 pessoas e ferindo outras mil e muitas.

E a partir de então o filme percorre um tenso movimento da polícia contra os suspeitos, e vice-versa, construindo diálogos, torturas e revelações, relembrando momentos anteriores aos ataques - não em flashbacks, mas em sequências completas de reconstituição -, relatados pelos próprios suspeitos. A história termina com o começo, e não há problema em dizer isso aqui; o ciclo se fecha para a própria polícia, ainda que na vida real o desfecho com os acusados tenha se encerrado somente em 2006.

E mais uma trívia do filme: Danny Boyle afirmou que o filme é uma de suas inspirações para Quem Quer ser um Milionário?, sobretudo a cena de perseguição na favela - que, aliás, é um dos poucos momentos engraçados do filme.

Black Friday é recomendadíssimo. Anurag Kashyap lançou seus pilares definitivos sobre a Índia a partir de então e um séquito já percorre seus passos. Não encontrei um trailer do filme, mas passo aqui pra vocês uma das cenas que mais me surpreenderam em termos de atuação e diálogo. Não tem legendas aqui, mas vale assistir.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Debate com Anurag Kashyap + Retrospectiva de seus filmes no SESC Pinheiros

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E como eu havia adiantado, paralelamente à V Mostra de Bollywood e Cinema Indiano, que já está acontecendo na Cinemateca Brasileira, vamos realizar a Retrospectiva do Anurag Kashyap no SESC Pinheiros e ele mesmo estará presente na abertura do evento pra um bate-papo com o público.

Já estamos em cima da hora aqui, mas o evento já vinha sendo anunciado no facebook e outros meios por aí. A abertura será no dia 4 de outubro, terça-feira, às 19h. Exibiremos o filme Dev.D e em seguida o Anurag Kashyap irá conversar com o público, mediado por mim, Ibirá Machado, e pela cineasta Beatriz Seigner, diretora do filme Bollywood Dream.

O debate não será somente pra falar sobre Dev.D, mas principalmente sobre o novíssimo cinema indiano que está nascendo com extrema força, energia e vontade, movimento este que tem em Anurag Kashyap uma das principais lideranças.

Durante todas as terças-feiras de outubro serão exibidos os sete filmes de Anurag (dirigidos ou produzidos por ele). A oportunidade não só é absolutamente única, como também estamos trazendo um filme que ainda está em cartaz na Índia, A Garota dos Sapatos Amarelos (That Girl in Yellow Boots), que é provavelmente o mais ousado e mais refinado de Anurag Kashyap. Segue a programação:

Retrospectiva Anurag Kashyap
SESC Pinheiros
Rua Paes Leme, 195
Metrô Faria Lima

Entrada Franca - Retirar ingressos com uma hora de antecedência

04/10
19h - Dev.D (2009), dir. Anurag Kashyap
+após a exibição do filme será realizado um debate com a presença do diretor

11/10 
17h - Não Fume (No Smoking, 2007), dir. Anurag Kashyap
19h30 - Sexta-Feira Negra (Black Friday, 2004), dir. Anurag Kashyap

18/10
17h - Gulaal (2009), dir. Anurag Kashyap
19h30 - A Garota dos Sapatos Amarelos (That Girl in Yellow Boots, 2011), dir. Anurag Kashyap

25/10
17h - Diabo (Shaitan, 2010), dir. Bejoy Nambiar
19h30 - Vôo (Udaan, 2010), dir. Vikramaditya Motwane
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segunda-feira, 7 de março de 2011

Udaan (2010) na quarta edição do CINEÍNDIA

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Amigos, a quarta edicão do CINEÍNDIA já se aproxima e, desta vez, vamos trazer o lindíssimo Udaan (2010), o primeiro filme de Vikramaditya Motwane.

Esta edição, excepcionalmente, será uma sessão casada do CINEÍNDIA com o CineFusão, outro cineclube bastante ativo no espaço do Centro Cineclubista de São Paulo - CECISP, e que coordenará um debate após a exibição.

E então relembrando, em 2011, estamos com uma nova proposta: abriremos um ciclo de discussão neste primeiro semestre com seis filmes que tocam em questões essenciais à sociedade indiana. E que nem por isso se restringem à Índia, mas que falam do ser humano no geral. Em qualquer lugar, época, etnia e língua.

Neste segunda sessão, o filme escolhido é Udaan. Eleito o melhor filme indiano de 2010, Udaan é uma história densa sobre superação e persistência na busca pelos sonhos. É a primeira obra do diretor Vikramaditya Motwane. Certamente um filme imperdível e que vai tocar os frequentadores do próximo CINEÍNDIA.

Cineclube CINEÍNDIA 
13 de Março de 2011, às 18h00.
Local: CECISP – Centro Cineclubista de São Paulo
Rua Augusta, 1239, sala 13
Próximo ao Metrô Consolação

*Grátis*

Para mais informações: 11-9804-4835 (Ibirá) ou 11-9562-5273 (Heber)

Mais sobre o filme:

Rohan é um garoto de 17 anos órfão de mãe que estuda num reputado colégio interno do interior da Índia. Rebelde, ele seus três amigos fogem das aulas para ir ao cinema. Mas dão de cara com o inspetor da escola e acabam sendo expulsos.

Ao voltar pra casa, Rohan reencontra a opressão e a tristeza de seu lar: um pai severo e violento, um irmão mais novo que ele não sabia que existia e a obrigação de seguir carreira como engenheiro. Rohan tem de tomar a dianteira de sua vida para escapar do futuro indesejável e realizar seu maior sonho: ser um escritor famoso.

Este é mais um filme que toca numa ferida profunda da sociedade indiana: a “fábrica de cérebros”, ou seja, a obrigação que muitos jovens têm de seguir carreira como engenheiros para atender a demanda por especialistas na área. Na maioria dos casos, é a única chance de jovens pobres reverterem a situação de suas famílias. 

O tema já havia sido abordado em outras obras, mas é Udaan que lança a incômoda hipótese de que a produção em massa de cérebros nasce na estrutura mais básica da sociedade: a família.

A estética do filme é contemporânea e abre mão das famosas cenas de song-and-dance, típicas de Bollywood, e dos personagens caricatos inspirados pela mitologia hindu. Todos esses elementos fazem de Udaan uma obra-prima que consegue captar as nuances de uma questão social complicada e, ao mesmo tempo, personificar a crueldade que pode atingir o ser humano.

Agora em 2011, Udaan foi agraciado com o prêmio de Melhor Filme no Filmfare Awards, o Oscar Indiano.
 
Sobre o diretor:

Vikramaditya Motwane tem 34 anos. Foi por muito tempo assistente de direção de Sanjay Leela Bhansali, um famoso diretor bollywoodiano, roteirizou dois longas  ao lado de Anurag Kashyap e já foi coreógrafo de cenas de song-and-dance. Em 2010 estreia no cargo de direção com o filme Udaan, atingindo sucesso de crítica e arrebatando muitos prêmios pelo mundo. 
 


O CinemaIndiano.com e o CINEÍNDIA são parceiros do CECISP e do Cinefusão. 
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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Udaan (2010) - उड़ान

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Quando eu soube que Udaan viria pra 34a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tudo o que pensei foi que muito dificilmente eu iria me decepcionar com esse filme. Eu havia lido muito pouco sobre e sabia somente que ele trazia em si praticamente a mesma equipe que havia feito Dev.D (2009) - e nada mais.

E então fui vê-lo no cinema e... mas que surpresa! De repente eu estava inesperadamente em frente de um dos mais sensíveis filmes indianos que já vi. Nos seus 30 e poucos anos, Vikramaditya Motwane fez uma incrível estreia na direção, após ter passado os últimos dez anos observando de perto o que ocorria de mais emblemático e determinante no cinema indiano.

Inicialmente, trabalhou como assistente de direção de, nada mais que, Sanjay Leela Bhansali em Hum Dil De Chuke Sanam (1999) e Devdas (2002). Em 2005, no entanto, acabou caindo no seio daquilo que aos poucos foi se configurando como o novo cinema indiano; ao lado de Anurag Kashyap, escreveu os roteiros dos filmes Dhan Dhana Dhan Goal (2007) e, posteriormente, de Dev.D (2009). Foi então que, com a bagagem nas costas, escreveu Udaan e assumiu a responsabilidade de também dirigi-lo, sozinho. E Anurag Kashyap também apostou suas fichas, fazendo de Udaan o primeiro filme produzido por sua recém-fundada produtora. O resultado deu - extremamente - certo.

O filme conta a história de Rohan (Rajat Barmecha), quando, nos seus 17 anos, é expulso do colégio interno com mais três amigos. De volta pra casa, em Jamshedpur, revê o pai (Ronit Roy) que não via nos oito anos em que esteve no internato, além de descobrir que teria que dividir quarto com Arjun (Aayan Boradia), um meio irmão, de sete anos, que não sabia existir. Mas muito pior seria descobrir as regras que o mais que intransigente pai impunha. O sonho de ser escritor não existia frente à imposta ordem de trabalhar na fábrica do pai pela manhã e estudar engenharia pela tarde.

E é nessa realidade que Rohan vai levar o filme pra gente, até o fim. Udaan, em hindi, significa "voar", e é nesse tentando voar com asas cortadas que somos entregues a uma angústia desesperadora e brilhante.

Desesperadora porque não encontramos esperança e a solução mais viável pode parecer ser a menos desejada a um ser humano. Porém brilhante, porque a fuga, o alento e o afeto podem surgir por caminhos inesperados. E é quando o voar acontece e Udaan se faz genial.

Fiquei impressionado com a atuação de todos no filme, mas especialmente de Rajat Barmecha, em absoluto, ou ele não seria jamais capaz de conduzir essa obra. O pequeno Aayan Boradia, também, é genial e imprescindível - ninguém deve perder a maestria e sutileza desse garoto. Aliás, são também imprescindíveis a excelente fotografia do filme e a perfeita trilha sonora, composta por Amit Trivedi e escrita por Amitabh Bhattacharya (com exceção da música "Motumaster", escrita por Anurag Kashyap).

Udaan foi muito bem recebido pela crítica indiana, com ótimos retornos até dos mais criteriosos. E após sete anos, este filme marcou o retorno de um filme indiano ao Festival de Cannes, tendo sido exibido em 2010 na categora "Um Certo Olhar", do Festival.

Não percam, e acho que não preciso dizer mais nada.

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sábado, 21 de novembro de 2009

Dev.D (2009) - देव-डी

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Vamos hoje falar de Dev.D, a décima versão cinematográfica já feita na Índia sobre o romance bengalês de Sarat Chandra Chattopadhyay, chamado "Devdas" (1917). Quem conhece o cinema indiano sabe bem que o filme bollywoodiano Devdas (2002), dirigido por Sanjay Leela Bhansali e estrelado por Shahrukh Khan, Aishwarya Rai e Madhuri Dixit, é um dos filmes mais emblemáticos da Índia dos últimos tempos, tendo sido, na época, a mais cara produção até então e a que mais arrecadou, sendo superada somente por Ghajini (2008).

Pois Dev.D não tenta superar o Devdas anterior. Escrito e dirigido por Anurag Kashyap, sua ideia era fazer uma releitura contemporânea da obra bengalesa do início do século XX. Dessa forma, o Devdas anterior, de Bhansali, aparece como homenageado declarado, em dois distintos momentos em que uma das personagens assiste à cena de Dola Re Dola na TV; nessas horas, Dev.D beira um meta-filme.

Pois bem, e então aqui Abhay Deol é Devendra Singh Dhillon, o Dev, filho de um rico empresário do Punjab. Mahi Gill é Paro. Ambos são amigos de infância e desde cedo gostaram muito um do outro. Acontece que Dev é um garoto dissimulado ao extremo, para desgosto do pai, que o envia a Londres para que ele fique lá por muitos e muitos anos, estudando.

No meio tempo ele segue se comunicando com Paro, pela internet e celular. Até que chega o momento de sua volta à Índia. Ambos se amam, mas é difícil consumar o que sentem por questões sociais que em princípio os impedem de ficarem juntos. Paro é então prometida por seu pai a outro rapaz. Nem Dev, em seu orgulho, e nem Paro, na sua fragilidade, conseguem reverter esse processo.

Dev vai então embora para, supostamente, sofrer menos. Mas ele jamais deixou de ser um ser dissimulado. Se afunda em drogas e bebidas e, nesse afundamento, vai parar em um prostíbulo de Delhi, onde acaba por conhecer Chanda. Pouco antes desse momento, somos apresentados a essa garota. Antes chamada Leni (Kalki Koechlin, nascida em Pondicherry, filha de pais hippies franceses que se mudaram pra lá), aos 17 anos envolveu-se desgraçadamente num escândalo, após um rapaz com quem teve relações sexuais filmar a cena e colocar na internet. Pelo que soube, essa parte do filme é baseada num caso real que ocorreu recentemente em Delhi. A história de Leni chega ao ápice quando seu pai comete suicídio por causa disso. O único caminho que ela encontra é aceitar um convite que fazem a ela, para trabalhar em um prostíbulo. Um dia, assistindo ao Dola Re Dola na TV, decide que seu nome artístico será Chandramukhi, mas vira então Chanda.

Chanda apaixona-se por Dev, que tem nela o seu refúgio, mas que ainda diz amar Paro. Paro, por sua vez, chega a demonstrar um certo carinho por Dev, mas visivelmente mostra-se feliz em seu casamento. Daí o final da história não vou dizer qual é, nem se é o mesmo do Devdas anterior, para quem conhece.

Eu gostei muito desse filme, foi uma bela surpresa. Todo o enredo é muito bem bolado, a direção é ótima, a atuação dos atores é excelente e as músicas são inusitadamente bem inseridas em todo o contexto e ritmo da história. Também achei bem divertida a presença um tanto onipresente do "The Twilight Players", um trio de dançarinos irreverentes e que fazem a vez do song-and-dance inexistente nesse filme.

Na Índia, Dev.D teve uma excelente recepção pelo público e a extensa trilha sonora (com 18 faixas e autoria de Amit Trivedi) fez bastante sucesso. Tendo estreado em fevereiro deste ano, eu posso dizer que essa obra vem numa linha muito semelhante à que veio Kaminey (2009), que estreou agora em agosto e que vem construindo novas facetas em Bollywood, sem, porém, querer substituir o que já existe e faz mais sucesso. É apenas um processo de grande enriquecimento que o cinema indiano vem vivendo.

E agora confiram o trailer de Dev.D: