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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Love, Sex aur Dhokha (2010)

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Daí o filme termina e você tá de boca aberta, emocionado, impressionado. Na verdade você já tinha ficado assim muito antes do filme acabar, mas aquele pianinho maldito teima em aparecer nos momentos chave e você teima em ficar emocionado. Que filme é esse, meu Deus?

Eu lembro que, pouco antes de Love, Sex aur Dhokha (Amor, Sexo e Traição) entrar em cartaz, em março de 2010, polêmicas rondaram o mundo do cinema indiano. A censura da democracia indiana baixou sobre Dibakar Banerjee, obrigando que ele cortasse ou mudasse cenas de sua obra, uma das mais revolucionárias da história da Índia. E cortasse o que? Cena de sexo, questões de castas entre personagens e letra de música. Coisas que a Índia ainda não sabe lidar, coisas comuns, coisas que fazem parte de um cotidiano quase desvelado, quase banal, quase aceito. 

E no fim, a censura (sob a égide do Central Board of Film Certification), deu uma classificação A pro filme, que restringe a obra somente para adultos, ou seja, acima de 18 anos. E para aqui minha compreensão ocidental a respeito disso; se o que vi em LSD foi muito menos explícito que em milhares de filmes do nosso lado do mundo, realmente não entendo o que pode um adulto indiano ver, de acordo com esse famigerado órgão podador do cinema indiano.

Mas polêmicas a parte, LSD é um filme mesmo bastante impressionante. Ele poderia bastar pelo conteúdo - que vamos tratar adiante - mas a forma por si só também impressiona. Dibakar Banerjee começou a revolução ao fazer deste filme o primeiro do cinema indiano a ser integralmente produzido digitalmente. É um pouco estranho pensar que isso só foi acontecer na Índia em 2010, mas no país das tradições, romper com o cinema da película pra passar pro mundo digital é efetivamente um passo imenso. Mas não era dessa forma que eu me referia no começo do parágrafo.

O filme é composto por três partes, cada parte conta uma história diferente e todas as três se entrelaçam. Até aí nada de tão especial. O que Dibakar optou por fazer foi abdicar da câmera do diretor, dos planos e contraplanos, das câmeras subjetivas e objetivas, pra assim compor cada história a partir de uma câmera que faça parte do nosso cotidiano, em maior ou menos grau.

É assim que na primeira história acompanhamos as dificuldades de um estudante de cinema que, para se formar, tem que apresentar um pequeno filme. E, dessa forma, vemos essa primeira parte a partir da câmera de Rahul, o estudante. Sabiamente, Dibakar escolheu essa história pra ser a primeira do filme, porque ela será a mais impactante de todas, a mais perversa e, todas as vezes que ela se cruzar com as duas outras histórias seguintes, qualquer clima que houver vai, inevitavelmente, virar emoção.

A segunda história se passa em uma espécie de loja de conveniência, ou mini mercado. Dessa vez vemos o filme a partir das câmeras de segurança dessa loja. A história de desenrola a partir da ideia brilhante (not really) de um dos funcionários de transar na loja com outra funcionária e, assim, gravar a cena com uma das câmeras da própria loja.

Finalmente, a terceira história é gravada com câmeras escondidas de um repórter frustrado. Na desilusão, ele se depara com uma dançarina talvez mais frustrada e desiludida que ele, mas que será seu trunfo jornalístico.

O filme é genial do começo ao fim. Voltando à primeira história, há toda uma sátira ao jeito indiano de ser com o cinema, que é impossível não rir, não achar bizarro, principalmente pelo fato de serem indianos (leia-se Dibakar Banerjee e sua equipe) zoando eles próprios. E como praticamente só indianos sabem fazer, é nesse jogo de sátira e realidade nua - eu disse nua - que está a grande sacada.

A crítica indiana recebeu o filme da melhor forma possível, sobretudo pelas atuações - impecáveis - de atores desconhecidos e pela excelente edição, além, é claro, pela originalidade da forma e do conteúdo. Mas, como não é surpresa, LSD não fez uma bilheteria boa. Atores desconhecidos, tema complexo e classificação etária para maiores de 18 anos é a receita certa pra fazer de um filme indiano um fracasso de bilheteria. 

Mas Dibakar fincou mais fundo sua bandeira na intersecção do cinema independente indiano com Bollywood, neste caminho sem volta. No Filmfare Awards entregue em 2011, o filme levou o prêmio de melhor edição e melhor desenho de som.

É isso, algo a não se perder e Dibakar é alguém a não se perder de vista. Se dizem que pra se chamar de "obra" alguém tem que ter feito mais de dez filmes, Dibakar Banerjee está indo no caminho certo com seus outros dois filmes, Khosla Ka Ghosla e Oye Lucky! Lucky Oye!.

Aqui vai o trailer de LSD:

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segunda-feira, 29 de março de 2010

Dibakar Banerjee lança mais um filme para abalar as estruturas

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Depois de Oye Lucky! Lucky Oye! (2008), Dibakar Banerjee lança seu terceiro filme que já está provocando certos reboliços nas altas classes conservadoras indianas. Love Sex aur Dokha (Amor, Sexo e Traição), como o próprio nome já indica, traz consigo temas ainda não bem aceitos por fora das quatro paredes indianas. No entanto, talvez pelas inovações de filmagem (novas na Índia, que fique claro), o filme acabou passando pela censura, embora com consideráveis cortes e mudanças impostas, incluindo a letra de uma das músicas. Este filme também entra para a história de Bollywood como o primeiro longa inteiramente digital.

Ainda não vi, mas acredito que ele não supere em qualidade a obra anterior de Banerjee, ao menos pelo que mostra o trailer e as sinopses. Mas esse filme vem mais com a missão de engrossar o caldo das mudanças no cinema indiano ou, para sermos justos, para ampliar ainda mais as perspectivas cinematográficas da Índia.

A seguir, leiam a reportagem que saiu na Reuters e foi traduzida na globo.com:

Filme de Bollywood ultrapassa barreira do sexo na Índia
da Reuters, por Tony Tharakan, na globo.com, 25/03/10

MUMBAI - Um novo filme de Bollywood despertou a atenção aos costumes sexuais em processo de mudança na Índia, abalando o público conservador ao exibir filmagens com câmera escondida e pressionando os limites da censura no país.

Love Sex aur Dokha é o mais recente de uma série de lançamentos de vanguarda que desfaz décadas de inibição na indústria cinematográfica indiana e muda dramaticamente a fórmula tradicional de romances com cenas musicais e dança, e sagas violentas de vingança.

O filme, que estreou nos cinemas indianos na semana passada em classificação adulta, gerou controvérsias com as imagens embaçadas de uma mulher nua e sequências voyeuristas em seus trailers.

O direotr Dibakar Banerjee diz que "Love Sex aur Dokha" é mais sobre as mudanças de atitudes do que sobre sexo. Ele diz que o filme explora a falta de privacidade no mundo moderno - onde telefones celulares podem capturar, e divulgar, momentos íntimos.

"O que minha câmera está fazendo é registrar uma história que está mudando diantes da câmera", diz Banerjee, "Antes, sexo ficava entre quatro paredes mas agora isso está mudando". Uma década atrás, quando um casal tímido estava para se beijar em cena, a câmera deslizava para duas flores interagindo levemente ou pássaros se bicando. O público indiano simplesmente assumiam que o casal havia realizado o ato".

Nesse sentido, o filme de Banerjee, com diversos atores desconhecidos, abriu novos caminhos com uma cena extensa de sexo que não conseguiu escapar completamente da censura. Mas é o uso de câmeras não convencionais - câmeras escondidas, câmeras de mão, câmeras de segurança em supermercados e mesmo as subaquáticas - que parece ter conquistado os críticos e gerou comparações com os sucessos de Hollywood como "Atividade Paranormal" e "A Bruxa de Blair".

A história é contada do ponto de vista da câmera, fazendo dela quase um personagem no roteiro que intercala três histórias - um estudante que se apaixona com a atriz protagonista do filme, um lojista que pega um funcionário em um escândalo de SMS e uma operação para flagar um astro de rock.

"O filme efetivamente expõe a flacidez da barriga que aparece em meio a esse perturbador preconceito na Índia central", disse o crítico Mayank Shekhar no jornal Hindustan Times. Apesar de os críticos concordarem que "Love Sex aur Dokha" marca um grande salto na Índia conservadora, será necessário mais do que alguns filmes para mudar a mentalidade

Quando o diretor Banerjee falou com sua mãe sobre o projeto, ela não repetiu o nome do filme porque não queria usar a palavra "sexo".

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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

CBFC proíbe um filme Marathi

(http://www.screenindia.com/news/censor-board-denies-clearance-to-marathi-film/405411/)

Pela primeira vez na história do cinema marathi [do estado do Maharashtra], a Central Board of Film Certification (CBFC) proibiu um filme inteiro alegando que o tema não era apropriado para ser exibido. O filme Master Eke Master, estrelando o veterano Ashok Saraf e dirigido por Sanjay Surkar, é uma comédia que expõe falhas no sistema educacional indiano.

A CBFC comunicou aos produtores que o filme glorifica a corrupção e as mal práticas no sistema educaciocal. Os membros da comissão de censura que assistiram ao filme, incluindo o professor Nandini Sardesai, ressaltaram cenas em que aparece licor sendo servido em sala de aula e a degradação de uma mulher com um professor que consentem com a bigamia.

"O filme viola as pautas da Central Board. Mesmo fazendo cortes, o tema do filme não poderá ser mudado. Isso não é apropriado para ser visto por não-adultos e mesmo assim o filme teve o certificado unanimemente rejeitado pra todas as categorias", disse a CBFC.

Chocado com a decisão, Surkar disse que o filme é uma ficção e que isso é dito nos créditos. "Eu sou diretor há 15 anos e sei de minhas responsabilidades. Meus filmes são reconhecidos e premiados pelo governo do estado também", disse. "Master eke Master é uma comédia que expõe o confronto entre dois indivíduos distintos que fazem parte do sistema educacional. Na realidade, as pessoas veem muita corrupção no sistema educacional", esclarece Surkar. Ele ainda disse que fará uma petição após a revisão do comitê da CBFC e que está preparado pra entrar na justiça pra lutar pela exibição do filme.

Central Board of Film Certification - CBFC

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Quem já assistiu a um filme indiano deve se lembrar dessas etiquetas que aparecem logo antes de o filme começar. Se não se lembra, repare da próxima vez. Se o filme for realmente indiano, ou seja, for produzido e gravado na Índia, então essa imagem irá aparecer antes do filme começar. Isso se trata da certificação e classificação do filme, ou seja, é o documento que libera o filme, programa de TV ou propaganda, além de censurá-lo caso haja necessidade. E é neste último quesito - censura - que a incredible maior democracia do mundo por vezes nos surpreende. E essa classificação é feita, em toda Índia, pela Central Board of Film Certification - CBFC.

A Suprema Corte Indiana diz o seguinte: "A censura de filmes é necessária porque um filme motiva pensamentos e ações muito mais que um livro, por exemplo. A combinação de ação e voz, imagens e sons, no escuro do cinema, e sem nenhuma outra distração, tem um poderoso impacto na mente dos espectadores e pode afetar as emoções. Portanto, um filme tem um potencial negativo tanto quanto positivo, e tem um igual potencial de instar a violência ou bons comportamentos. Não dá pra comparar um filme com outros meios de comunicação. A censura prévia é, portanto, não só desejável como necessária."

Até aí está relativamente bem, já que, como sabemos, todos os países tem um órgão de classificação indicativa de filmes. Isso não significa, porém, que um filme feito aqui no Brasil, por exemplo, deva cortar cenas ou até mesmo ser proibido de ser exibido caso contenha cenas e/ou temas que não estejam de acordo com, digamos, a ordem pública. Já na Índia (a maior democracia do mundo, não se esqueçam), as coisas são um tanto diferentes. Eles não só classificam filmes em termos de faixa etária recomendável, como também proíbem certos filmes com temas para eles polêmicos.

A classificação é dada da seguinte forma: U (conteúdo universal, liberado para todas as idades); U/A (conteúdo liberado para crianças na presença dos pais); A (conteúdo adulto, com cenas de violência, sensualidade e linguajar vulgar); e S (classificação rara, apenas uma classe específica pode ter acesso).

Mas não pense você que dentro da Índia isso é normal. Lá o debate é também grande, sobretudo dos que fazem os filmes. Muitos diretores estão ficando revoltados porque a CBFC impõe censuras para trechos dos filmes, que, se cortados, estragarão a sequência. Em alguns casos, até, a Suprema Corte interveio a favor dos diretores, cancelando a censura. Mas a polêmica ainda é grande e deve se prolongar por ainda décadas.

Filmes como o Gulab Aina, já falado neste blog, foi produzido mas proibido na Índia. Ele trata sobre transexuais indianos e a CBFC o considerou o tema ofensivo e vulgar. Mesmo assim o filme foi lançado em outros países e ganhou vários prêmios, sendo considerado um dos filmes mais sensíveis sobre uma classe marginalizada. Outro documentário feito sobre um polêmico conflito entre muçulmanos e hindus no estado do Gujarat, em 2002, também foi proibido com a alegação de que ele poderia incitar mais conflitos. Mas após uma série de protestos, a proibição foi derrubada e o documentário pode ser exibido.

E a censura vale pros filmes estrangeiros exibidos na Índia. A grande maioria dos filmes de Hollywood não passam na Índia e praticamente nenhum filme europeu vai pra lá. O motivo não é só uma falta de interesse dos indianos pelos filmes parados e sem dança do ocidente, mas principalmente porque grande parte das produções ocidentais contêm cenas que, para a CBFC, são vulgares, ofensivas e incitam a mal costumes. Mas por vezes cada estado pode também censurar filmes de acordo com seus critérios. O filme "O Código Da Vinci", por exemplo, foi proibido em sete estados, bem como a publicação do livro. O por quê não me perguntem.

O filme de Bollywood Jodhaa Akbar, lançado em 2008, foi banido nos estado de Uttar Pradesh, Rajastão, Haryana e Uttarakhand. O motivo alegado é a falta de fidelidade aos fatos históricos da história real do rei Akbar. Mas a polêmica é maior e a Suprema Corte indiana recorreu dizendo que esses banimentos também tratavam-se de manipulações dos fatos históricos, já que também não se podia afirmar que o rei Akbar, muçulmano, não tinha se apaixonado por uma mulher hindu, Jodhaa. Mas a proibição caiu apenas em Uttar Pradesh.

Enfim, não vou me alongar muito aqui. O fato é que este tema é longo e muito polêmico. É apenas mais um dos tantos fatos que mostram a confusão social, cultural e política que existe na Índia, por vezes desafiando os princípios constitucionais no país. E de fato, o YahooGroups, por exemplo, chegou a ser inteiramente cancelado na Índia após denúncias de grupos separatistas utilizarem esta ferramenta. Mas como a internet é muito prolixa e a Índia, em princípio, não é uma ditadura (e sim a maior democracia do mundo), também perceberam que a censura não podia ser, assim, tão generalizada. E é assim que muitos indianos, não podendo ter um acesso permitido a materiais pornográficos (que são totalmente proibidos na Índia), usam e abusam do que a internet oferece, e que não é pouco!
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