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domingo, 24 de janeiro de 2010

Morning Raga (2004)

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Morning Raga é o típico filme cheio de clichês e coisas mais do que óbvias, mas que é bem gostosinho de se ver e não cansa. Foi escrito e dirigido por Mahesh Dattani, que tem em sua bagagem muito mais experiência com peças de teatro do que com o cinema.

Realizado de forma independente, fora dos estúdios de qualquer indústria indiana, o filme estrela Shabana Azmi, Prakash Rao, Lillete Dubey e Perizaad Zorabian. E acho que é necessário que se diga que outro grande personagem do filme é a paisagem rural do Andhra Pradesh, onde se passa quase todo o filme. A região é realmente bonita. E passando-se por lá, era de se esperar que o filme fosse falado em telugu, mas o fato é que ele é quase inteirinho com diálogos em inglês e pouquíssimas frases em telugu propriamente.


Shabana Azmi é Swarnalatha, uma tradicional camponesa do sul da Índia, cantora e apaixonada pela música clássica carnática (oriunda da região). No entanto, ela nunca havia cantado profissionalmente. Um dia, finalmente, ela recebe um convite para ir a Hyderabad (capital do estado) e cantar num show. Um tanto receosa em sair da vila, ela topa e vai com seu filho e sua melhor amiga. Na saída da vila em que moram, porém, quando cruzavam uma longa ponte, o ônibus em que estavam bate de frente com um carro desgovernado e despenca no rio. Swarnalatha sobrevive, mas seu filho e sua melhor amiga não resistem.

Ela sente-se eternamente culpada pela morte de seu filho e de sua amiga, já que ambos estavam no ônibus por sua causa. Pra piorar, sua amiga tinha um filho, Abhinay (Prakash Rao), que era pequeno na época e por sorte não estava indo com elas. E assim ela decide que nunca mais na vida cruzaria aquela ponte de novo. Pois então, vinte anos passados, Abhinay regressa de Hyderabad à vila apenas para anunciar ao pai que recusava tomar seu lugar como camponês - e ser dono de uma bela parcela de terra -, para consolidar-se como músico. O pai não aceita o destino do filho e não dá a bênção a ele quando ele parte.


Nesse meio tempo, Abhinay vê Swarnalatha cantando num templo e encanta-se com sua voz. Ela, no entanto, ainda muito envergonhada e sentindo-se culpada, foge de Abhinay. Nisso, quando ela tentava despistá-lo, um carro quase o atropela justamente no pé da fatídica ponte. Swarnalatha tem uma crise de pânico e quase entra em estado de choque.

Quem estava no carro era Priyanka (Pinkie, para os íntimos, interpretada por Perizaad Zorabian), uma patricinha de Hyderabad que passava por lá. Abhinay acaba convidando-a para ficar em sua casa já que o carro dela ficaria para o conserto. E é assim que Abhinay descobre que Pinkie gosta de cantar e, no mesmo instante, ela já é escalada para ser vocalista de sua banda.


Eles vão à capital e fazem a seleção de músícos para tocarem com eles, até que escolhem dois rapazes - um baterista com cara de porra-loca e um guitarrista com cara de nerd. Abhinay, no entanto, não fica satisfeito com sua banda-mais-do-mesmo. Para ele, Swarnalatha tinha de ser sua vocalista.

Ele então retorna à vila e consegue, a muito custo, convencê-la, mas com uma condição: que ela fosse à cidade. Ela sofre com a proposta, mas acaba aceitando. Já com show marcado e tudo, na hora que ela vai deixar a vila no dia da apresentação, o carro de seu marido quebra e ela se vê obrigada a entrar num ônibus. No meio da ponte, no entanto, ela acaba não aguentando e tem uma crise de pânico muito intensa e sai correndo de dentro do ônibus.

Ela então desiste de fazer parte da banda, incapaz de atravessar uma simples ponte. Todos ficam desolados, sobretudo Abhinay, que via nela a chance de fazer uma música de fusão, integrando o moderno e o arcaico harmonicamente e, assim, criar algo novo. Dessa maneira, ela propõe ensinar a música carnática a Pinkie, que aceita na hora. Pinkie vai então passar uma temporada na vila, o que era inimaginável para uma garota que nem sequer tinha vestido um sari na vida.


O tempo passa, Pinkie aprende a cantar a música carnática e finalmente um grande concerto é marcado. Um dia, Pinkie está dando carona em seu carro a Swarnalatha e a Abhinay, quando Swarnalatha revela aos dois que ela se sentia culpada pela morte da mãe de Abhinay. Nesse instante, Pinkie acelera o carro com tudo e cruza a ponte, num dos momentos mais dramáticos do filme. Swarnalatha desespera-se, mas Pinkie muda totalmente o jogo, dizendo que ela jamais poderia sentir-se culpada pois quem estava no carro que bateu de frente com o ônibus no dia do acidente era seu pai, que estava bêbado. E Pinkie fecha a cena mostrando que eles tinham cruzado a ponte e nada tinha ocorrido com o Swarnalatha.

Daí o final da história é óbvio e tal. Mas mesmo assim, por mais óbvias e batidas que muitas coisas possam ser, é um filme que, de certa maneira, cativa. Talvez pela curiosidade de ver como seria a música do final, talvez por esperar pra ver como seria o momento que ela cruzaria a ponte, talvez para ver as lindas paisagens do Andhra Pradesh... a crítica até que deu bons retornos ao filme que, logicamente, foi feito com uma intenção óbvia de atingir o mercado externo. E também - e isso a Índia adora -, o grande tema central do filme é a fusão entre culturas dentro do próprio país, gerando uma cultura própria e autêntica - daí também todo o simbolismo da ponte, que une os dois lados, o campo e a cidade, o tradicional e o moderno, e a dificuldade de atravessá-la sem perder as raízes.

As músicas foram compostas por Mani Sharma, que tem fortíssima presença nos filmes das indústrias telugu e tamil, no sul da Índia. Como eu só encontrei um trailer do filme e não achei ele bom, vou colocar aqui pra vocês uma das músicas que aparecem. Apreciem:





sábado, 4 de outubro de 2008

O Cinema Proibido


Então quer dizer que você pensa que os indianos são santinhos e puros? Que são recatados e bem comportados? Pois fique sabendo que, embora neguem até não poderem mais, a Índia é também uma prolífica indústria de cinema pornográfico. São os "XXX-Rated movies"... e, lógico, eu não poderia deixar de falar também sobre eles.

É óbvio que não colocarei aqui nenhum trailer de filme pornô indiano, mas apenas essa foto aí acima. Também não considero correto de minha parte colocar aqui links para que vocês chequem por vocês mesmos a existência de tal indústria. Acho que, aos realmente interessados, não há nada que um Google não possa resolver de maneira bem precisa.

No entanto, para tais interessados, é necessário que eu diga algumas coisas, evitando, assim, sustos desnecessários. No padrão indiano de ser (salvo mudanças muito recentes conduzidas por Bollywood) não há exatamente aquela preocupação com a beleza física que o ocidente está acostumado. Quero dizer que você poderá facilmente encontrar excesso de peso, de pelo... enfim, são apenas questões culturais.

Provavelmente também por questões culturais que eu não tenho domínio para explorar, a maior parte da produção pornográfica da Índia está concentrada nos estados do sul, como Kerala, Tamil Nadu e Andhra Pradesh. Um fato é que os povos deste estados são mesmo mais alegres e um pouco mais tolerantes - ainda que este "tolerantes" seja bem relativo. Outro fato é que o sul é mais quente, mas também não necessariamente um "quente" levaria a outro tipo de calor...

Enfim, a informação já está dada. Divirtam-se aos que acharem tais informações úteis para tais fins. Para os outros, nunca esqueçam que mais sábios são aqueles que reconhecem a diversidade humana, sem porém julgá-la!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Cinema Telugu - తెలుగు సినిమా

A indústria de cinema telugu é aquela instalada no estado de Andhra Pradesh, cuja capital é a próspera cidade de Hyderabad. Este estado é mais um dos quatro no sul da Índia. Até agora já falamos sobre as indústrias regionais kannada, de Karnataka, e malayalam, do Kerala e, para completar a série das indústrias regionais do sul da Índia, ainda estará faltando falar sobre o cinema tamil, do estado de Tamil Nadu, cuja capital é Chennai, antiga Madras.


Com origem incerta, o nome da indústria de cinema telugu – Tollywood – provavelmente deriva de Hollywood, como sempre, unido com o nome da língua daquele estado, “telugu”. O fato é que, embora em segundo plano, Tollywood compete com Bollywood em número de filmes produzidos por ano e deve ter a segunda maior audiência do país. Tanto isso é um fato concreto, que o cinema de Andhra Pradesh não conta com patrocínios somente das indústrias de seu estado, mas também dos estados vizinhos, como o Karnataka. Não só bastasse isso, no estado sulino do Kerala, abordado em nossa última postagem, a maior parte do público de cinema está indo atrás das produções telugu, em detrimento dos filmes malayalam do próprio estado, indício claro da decadência citada na indústria de cinema malayalam.


Tollywood não apenas produz muitos filmes, mas também consegue atingir um certo grau de qualidade nas suas películas. Prova disso é também o fato de que muito de suas produções são posteriormente refilmadas em Bollywood ou em Kollywood, no estado vizinho de Tamil Nadu, outra grande indústria regional.


Mas o cinema de Andhra Pradesh ainda não se contenta só com isso e resolveu quebrar alguns recordes – não só indianos, mas também mundiais. Existem ali mais salas de cinemas que qualquer outro estado indiano, somando cerca de 2700 salas, sendo ao menos 150 na capital, Hyderabad. E Andhra Pradesh não é o maior estado do país, ficando ainda atrás do Maharashtra, Madhya Pradesh e Rajastão; é ainda o quinto em população e o terceiro mais rico da Índia. No Guinnes Book, o cinema telugu pontua recordes como tendo o diretor e a diretora que mais fizeram filmes no mundo, o maior número de filmes produzidos por só uma pessoa, o maior número de atuações em filmes para um ator e, ainda, um dos mais importantes, Tollywood sedia o maior estúdio de cinema do mundo – a Ramoji Film City, criado em 1996, numa área de quase 8Km². A foto acima é a entrada dos estúdios.


Bom, mas vamos à história. O cinema telugu começou cedo, em 1921, com o filme mudo Bhisma Pratighna, dirigido pela dupla de pai e filho Raghupati Venkaiah e R.S. Prakash. Ambos ainda produziram mais vários filmes mudos nessa década, focando sobretudo temas religiosos e morais. Com a chegada do cinema falado na Índia, Andhra Pradesh lançou seu Bhakta Prahlad em 1931, mas foi Lavakusa, em 1934, o primeiro grande sucesso. Dirigido por C. Pullaiah, este filme trouxe o público jovem para as salas de cinema telugu, mostrando na película um dos temas de maior sucesso até hoje na Índia: o Ramayana.


Em 1936, finalmente, o filme Prema Vijayam, de Krithiventi Nageswara Rao, inaugurou em Andhra Pradesh o que hoje é o tema de maior sucesso nos cinemas de qualquer região da Índia: dois jovens que se apaixonam e querem se casar, em detrimento do que as famílias desejam numa sociedade de casamentos arranjados. O rompimento dos temas mitológicos fez surgir nos anos subsequentes uma série de sucessos que tratavam não só de temas puramente amorosos, mas também de temas sociais Vandemataram e Malli Pelli, ambos de 1939, tocavam nas questões dos intocáveis e do dote que deve ser pago pela família da noive, até hoje não rompidas na Índia.


Na década seguinte, porém, a produção telugu caiu drasticamente, provavelmente por causa da Segunda Guerra Mundial, que acabou contando com a participação da Índia, ainda colônia britânica. Após a independência do país e reestruturação econômica, Andhra Pradesh, vagarosamente, voltou a produzir filmes.


Nos anos recentes, o cinema telugu desenvolveu-se de maneira acelerada no sentido de produzir mais e melhores filmes, somando cada vez mais prêmiações, não só dentro da Índia, mas também em festivais fora do país. Em 1979, Sankarabharanam, de K. Vishwanath, foi o primeiro filme telugu a ganhar o prêmio de melhor filme no National Film Awards. No ano seguinte, o filme Saptapadhi, de novo de K. Vishwanath, também ganhou o prêmio de melhor filme, no National Film Awards, tratando de temas sociais complexos. Em seguida veio Rudraveena, de K. Balachander, que ganhou o prêmio de melhor filme no National Film Awards, como também o de melhor direção de música e melhor playback para o ator Balasubramanyam. Em 2006 foi a vez de Hope, de Satish Saketty.


Mas não é só de Tollywood que vive o cinema telugu. Existem alguns consideráveis diretores independentes, produzindo desde filmes de temas sociais – que na verdade já vinham sendo tratados desde o princípio das produções regionais de Andhra Pradesh -, como também temas simples, como a luta de uma menina para aprender a dançar, em Vanaja (2006). Destacam-se B. Narsing Rao (Rangula Kala e Daasi) e Singitham Sreenivasa Rao (Samskara, Taram Marindi, Mayuri e Pushpak Vimanam).