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sábado, 19 de junho de 2010

Entrevista com Giselli Monteiro

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Caros, hoje tenho a honra de compartilhar com vocês uma entrevista que fiz com Giselli Monteiro, a nossa já conhecida modelo e atriz brasileira que vem balançando Bollywood. Ela conta um pouco como foi que chegou à maior indústria de cinema da Índia, revela um pouco dos bastidores da gravação de Love Aaj Kal e adianta pequenos detalhes sobre seu próximo filme, já gravado. Mostra ser uma garota corajosa e realmente disposta a aprender cada vez mais. Confiram:

Cinema Indiano: Giselli, em primeiro lugar, muito obrigado pela oportunidade da entrevista. Conte um pouco pra nós como foi seu caminho até ser escalada pro filme Love Aaj Kal.
Giselli Monteiro: Na minha primeira viagem à Índia, vim com a intenção de trabalhar como modelo. Nos meus primeiros 20 dias na Índia conheci Imtiaz Ali, o diretor do meu primeiro filme (Love Aaj Kal), que após o meu teste de vídeo ria da tamanha ironia pois, segundo ele eu me encaixava no papel da típica indiana dos anos 60, pela qual ele já havia procurado por toda Índia.

CI: Eu li em uma entrevista que você tinha esse sonho de ir pra Mumbai, já que tantos achavam que você era indiana. Mas você já sonhava com essa possibilidade de fazer parte de Bollywood?
GM: Não, na verdade caí aqui de paraquedas, quando me dei por conta já estava gravando.

CI: Você conhecia Bollywood antes de ir pra Índia? Já tinha visto filmes indianos?
GM: Pra ser sincera a minha imagem sobre Bollywood antes de morar aqui era restrita, não tinha muito conhecimento sobre a cultura da Índia. Já tinha visto poucos filmes de Bollywood antes de vir pra cá porque morei em Singapura, lugar onde há muitos indianos.

CI: Quando você recebeu a proposta de ter um papel no filme, você teve medo de não dar conta, tendo em vista que não falava a língua e nem tinha prática com dança?
GM: Não me lembro de nenhum momento de medo. Embora o desafio ainda ser grande, as pessoas com quem trabalhei até então, os atores e diretores foram sempre compreensivos, o que tornou tudo mais fácil.

CI: Conte-nos como foi o processo de filmagem para Love Aaj Kal, ao lado de celebridades do nível de Saif Ali Khan e Deepika Padukone. Eles te ajudaram?
GM: Não tive oportunidade de gravar com a Deepika Padukone, mas o Saif foi muito querido durante toda a gravação. Sempre me ajudava com as falas da próxima cena e vivia me dando conselhos de atuação.

CI: E como foi a recepção do público indiano ao saberem que você é brasileira e não punjabi, como pensavam? Acha que eles estão preparados para uma atriz estrangeira efetivamente engrenar em Bollywood?
GM: Após o lançamento do filme as pessoas ficaram muito curiosas pra saber quem era aquela Punjab Kudi (menina do Punjabi). E muitos ao descobrirem que sou brasileira ficaram chocados, outros preferiram não acreditar, queriam manter a minha identidade como a indiana da vila. Existem atrizes estrangeiras que fazem muito sucesso por aqui.

CI: Fiquei sabendo que você está estudando hindi. Isso é verdade? E quanto à dança? Começou ou vai fazer aulas? 
GM: Sim é verdade, como retornei de férias agora, estou recomeçando as aulas de Hindi. Até então as aulas de dança foram voltadas para os filmes.

CI: Em seu novo filme, Always Kabhi Kabhi, você também terá papel de destaque? E teremos atores famosos ao seu lado, de novo?
GM: O filme conta a história de quatro amigos que estão terminando o colegial, duas meninas e dois meninos, sou uma dessas meninas e os outros atores são estreantes no cinema. O filme tem como produtor Shah Rukh Khan.

CI: Já há propostas para novos filmes?
GM: Há propostas mas nada confirmado.

CI: Você está gostando de morar em Mumbai? O que mais te atrai aí?
GM: Gosto muito de morar aqui. Acho que o que mais me atrai aqui é o fato de eu ter sempre que aprender tudo todos os dias. Me desafio sempre que tenho um script novo.

CI: E, por fim, uma pergunta que nós sempre gostamos de saber. Há algum filme indiano que seja seu favorito?
GM: My Name is Khan, me fez chorar quando assisti em hindi e sem legendas.
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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Entrevista com Atul Kumar

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Conforme havia sido anunciado na postagem sobre o espetáculo The Blue Mug, que ocorreu aqui em São Paulo há duas semanas, hoje trago a entrevista concedida a nós pelo diretor da peça, Atul Kumar. 

Numa conversa super descontraída, Atul contou-me como é viver do teatro na Índia e como foi a preparação do espetáculo The Blue Mug, antes e depois dos atores serem famosos, dentre outras coisas. A entrevista foi originalmente feita em inglês, e ao vivo. Isso significa que esta versão aqui presente está transcrita, ligeiramente editada e traduzida. Confiram!

Cinema Indiano: Atul, muito obrigado por essa oportunidade. Por favor, faça um pequeno resumo de como você chegou ao mundo do teatro.

Atul: Isso começou na escola, quando costumávamos fazer algumas peças. Nós fazíamos outras coisas, como esportes e outras atividades, mas isso realmente tomou minha atenção. E então... eu cresci em Delhi, eu nasci lá. Um dia eu estava vendo uma peça de teatro, numa noite e o Rajat Kapoor estava na plateia também. Ele me viu, chegou até mim, viu esse rapaz novo assistindo o espetáculo, perguntou se eu estava interessado em teatro e eu disse "sim!". Rajat fazia parte de um grupo maior e perguntou-me se eu não queria juntar-se a eles. No dia seguinte eu já estava lá. E então 15 anos se passaram e nós fizemos várias peças juntos e pra mim isso ficou sem volta. Foi assim que tudo começou, em 1984.

CI: E então você começou atuando?

A: Sim, e eu ainda atuo. Eu sou principalmente ator, mas amo dirigir, faço as duas coisas.

CI: Desde 1984 você só faz teatro?

A: Apenas teatro, não fiz nada mais.

CI: Você gostaria de ir pro cinema?

A: Não, não... eu amo assistir filmes, mas eu ficaria muito cansado com cinema. Na verdade eu fiz um filme ou outro, mas não gostei. Eu achava muito chato. Amo assistir, mas o processo de fazer cinema não me atrai em nada.

CI: Mesmo se for pra dirigir?

A: É muito técnico, tem muita espera... no teatro eu tenho a reação imediata da plateia, entende? É vivo, são meus atores pessoalmente, é emocional, é menos técnico... eu prefiro isso. Eu vejo beleza nisso, na coisa do momento, gosto disso.

Mas amo bom cinema. É lindo assistir e reassistir os filmes, comprar DVDs, ou se há um festival de cinema eu posso ir e assistir. Ver Chaplin de novo, Casablanca de novo, o que seja, entende? É bonito ver e rever eles. Mas... são coisas diferentes, na verdade. O público é completamente diferente. O teatro é vivo e essa é a beleza. Se você comete um erro, será um erro. E ele fica pra sempre. É um bonito momento que vem e passa.

CI: Então vamos falar do Blue Mug. Vocês começaram em 2002, certo? Quem teve essa ideia?

A: Eu li o livro "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu" [The Man Who Mistook His Wife For a Hat], de Oliver Sacks, que é um neurologista do Reino Unido. O livro tem um monte de ensaios, que são histórias de seus próprios pacientes, e a maioria fala sobre anormalidades do cérebro. Algumas sobre perdas de memória, outras sobre perda de movimentos do corpo. Daí a parte da perda de memória realmente me atraiu e eu fiz todos lerem essa história. Eu ficava me questionando sobre o que fazer com essa história. Então percebi que não seria legal atuarmos a história, mas sim basearmos-nos nela e explorarmos nossas próprias memórias, nossas próprias perdas de memória. E daí foi assim que o processo começou.

CI: Quem escreveu a peça?

A: Nós não escrevemos. A peça é improvisada. Os atores vão ao palco e começam a narrar suas próprias memórias. Então ontem à noite [no espetáculo em São Paulo], por exemplo, houve muitas coisas que eles disseram que eles nunca tinham dito antes. E de novo na próxima apresentação, em Chicago, haverá novas coisas. Apenas as memórias que eles contam são fixas, mas o jeito que eles contam elas sempre muda. Não há roteiro escrito.

CI: Na apresentação de São Paulo não tivemos Konkona Sen Sharma. Como vocês se viraram?

A: Na verdade a Konkona já não estava nas últimas três apresentações. Ela ficou doente na apresentação de Nova Iorque. Ela foi operada e teve de ficar de cama. Talvez a tenhamos no próxima apresentação, mas não temos certeza. Bom, no começo eu estava em pânico, mas logo tive a ideia de me colocar no lugar de Konkona e eu fiz o médico no microfone. E é esse o papel dela no espetáculo, ela vai no palco e faz o médico, ao lado do Ranvir. Então conseguimos nos virar. Mas ela faz muita falta, a peça toda sofre porque ela não está, claro. Ela é uma ótima atriz.

CI: Considerando que em São Paulo a comunidade indiana é muito menor se comparado às cidades dos Estados Unidos, e que aqui as pessoas não conhecem o cinema e atores indianos, posso imaginar que aqui vocês tiveram uma experiência muito diferente. Fale um pouco sobre isso.

A: Eu vou dizer sobre meu ponto de vista, com sinceridade. Quando fizemos esse espetáculo em 2002, esses atores eram rostos desconhecidos e as pessoas vinham ver o espetáculo pelo espetáculo. Quando retornamos nos anos recentes, primeiro na Índia, depois no Oriente Médio e agora nos Estados Unidos, posso dizer que algo em torno de 75% a 80% do público vem principalmente pra ver seus atores favoritos no palco. Mas isso é bom, ou seja, se eles são famosos, são rostos conhecidos e trazem audiência, por que não?

Mas sempre há um pequeno grupo que vem apenas pra ver o espetáculo, pra apreciar a peça. Então fica um pouco difícil de saber no meio da plateia quem está se conectando a que, se a pessoa realmente se conectou à essência do espetáculo ou se houve apenas uma ligação superficial com seus astros do cinema. Então, de certa maneira, pra mim, ontem [na apresentação em São Paulo] foi fabuloso. Pra mim foi muito bom. Ninguém conhecia direito os atores, eles eram apenas atores, o público não sabia muito que eles eram estrelas de cinema. Então nesse sentido achei muito bom.

Mas isso também é um desafio pra gente. Eu geralmente faço peças que são muito mais físicas, visuais, e então se o espetáculo é em alguma língua específica não tem problema, já que pela linguagem corporal nós podemos nos comunicar com diferentes públicos. No entanto, essa peça é extremamente verbal, e é extremamente voltada ao público indiano, às suas memórias passadas. Então ela funciona muito bem na Índia, porque eles podem facilmente se comunicar a essas memórias, assim como nos locais fora da Índia onde haja a diáspora indiana.

Eu recebi uma oferta pra ir pro Festival de Edimburgo com esse espetáculo e eu tive de recusar. A peça não funcionaria ali simplesmente por ser muito verbal e ali haveria um público internacional que não se conectaria a ela. Se eu fosse levar a peça ao Festival Edimburgo eu teria de refazê-la, fazê-la menos verbal e deixá-la mais visual. Mas eu não quis fazer isso. Então a peça funciona nos Estados Unidos, vai funcionar no Reino Unido, quando formos em outubro pra lá, porque lá há a diáspora e o público vai poder se conectar às memórias... na África do Sul igual... mas com as plateias que não são indianas eu acho um tanto difícil de se comunicar nesse caso. As memórias são universais, mas eu tenho que encontrar a linguagem de cada público, talvez mais corporal, talvez mais visual, o que eu sempre costumo fazer com meus espetáculos, mas não nesse caso.

De repente eu poderia mudar o Blue Mug e deixá-lo sem falas, apenas linguagem corporal, apenas movimentos, alguma coisa que fizesse a plateia entender sobre a perda de memória... [nessa hora o Atul fez uma mímica com o corpo e o rosto mostrando como isso pode ser feito sem fala] Isso é memória, isso é perda de memória, entende o que digo? Não preciso falar nada pra fazer você me entender, porque a ideia é se comunicar, se eu perder alguma coisa eu posso te mostrar isso usando outras linguagens. Há milhões de maneiras de se comunicar, eu não preciso usar a fala.

CI: Você trabalha somente com teatro. Como é isso na Índia? No país do cinema, como é o público para o teatro?

A: Há um imenso público pra teatro em toda a Índia. Teatro é muito popular por lá. E há muitos tipos de teatro, também. Há o teatro clássico, que é basicamente o teatro religioso e que há em cada vila, há o teatro folclórico e que está sempre presente em festivais em toda a Índia, mas não estamos falando nem de teatro clássico e nem do folclórico. Estamos falando do teatro moderno. O teatro moderno era muito popular em Delhi pós-Independência, em 1947. Depois mudou-se pra Calcutá e agora é muito popular em Mumbai e Bangalore. Hoje, essas duas cidades abrigam o maior número de companhias de teatro e de espetáculos. Mas ainda assim há muito acontecendo em Pune, Delhi, Chennai, Hyderabad, Calcutá e em cidades menores. Há milhares de grupos de teatro. 

Eu li no guia cultural de São Paulo que vocês tem entre 50 a 60 peças acontecendo todos os dias na cidade! Em Mumbai e Bangalore é mais ou menos assim, há muitos espetáculos acontecendo... e lá nós temos a tradição antiga do teatro, o que ajuda muito a garantir nossa audiência. Mas o teatro não é profissional, quer dizer, cerca de 90% das pessoas que fazem teatro pagam do próprio bolso e na verdade acabam tirando o sustento de outra coisa. Então isso não é profissional, não é uma indústria, como é Bollywood, e acaba sendo necessário muito esforço pra sustentar isso, e mesmo assim as pessoas continuam fazendo teatro, porque sempre há maneiras de fazer tudo acontecer.

CI: Você já tinha trabalhado com atores famosos como agora? Você sente diferenças na maneira de atuar deles em relação a atores "comuns"?

A: Nunca, eles são os mais famosos com que já trabalhei. E... nenhum desses atores são apenas atores de teatro... há uma imensa diferença entre pessoas que apenas fazem teatro e pessoas que fazem outras coisa E teatro, mesmo se for cinema, há uma imensa diferença. Eu irei te responder em partes. Em primeiro lugar, o meu maior problema com esses atores são as datas, porque se preciso fazer mais apresentações eu tenho que pedir para cada um deles por mais dias... em algum lugar algum deles está gravando, então isso é um grande problema.

Em segundo lugar, eles me dão data, mas há também os ensaios que são ultra importantes. Daí há mais dias necessários e de novo isso se torna um problema. De qualquer forma, tudo é questão de termos um calendário pra isso. Mas o maior dos problemas é: esses atores não são somente atores de teatro. Porque, normalmente, o que atores de teatro fazem é estarem constantemente treinando, ou ao menos atores sérios de teatro fazem isso. Eles estão sempre treinando, praticando, nunca param, nem quando se consolidam como atores reconhecidos. Significa que por toda a vida eles treinam a voz, o corpo, todas as suas capacidades, porque eles têm que estar constantemente vivos, constantemente mudando com o tempo. Eles são rascunhos, rascunhos de atores, mudando com o tempo.

E sobre os atores do Blue Mug, eles são bons, mas para por aí, eles não mudam. Eles são o que eram em 2002, são exatamente os mesmos. Não há treinamento, não há prática, não há workshops, não há estudos... apenas aprendem com a experiência, apenas isso. Então, nesse sentido, nas minhas outras peças, eu trabalho só com atores de teatro, não com eles, porque é muito diferente, é uma experiência diferente.

CI: E agora falando da apresentação em São Paulo, como foi que isso aconteceu no meio de uma turnê pelos Estados Unidos?

A: Quando começamos a planejar a turnê pelos EUA, nossa agente lá falou da possibilidade de virmos também ao Brasil, já que ela tinha contato com o cônsul de São Paulo. E isso foi muito inesperado pra nós. E todos nós tínhamos uma vontade imensa de visitar o Brasil, então dissemos "sim! Por que não??".

CI: Vocês chegaram aqui há apenas dois dias e já irão hoje à noite. Nem tiveram tempo de andar pela cidade direito. Mas mesmo assim, o que você pode dizer sobre o que viu e o que sente daqui?

A: Eu estou amando o Brasil. Estou amando estar aqui esses dias, amando essa sensação de estar no Brasil, muito mais do que é sentir estar na Europa, por exemplo. Não consigo explicar direito essa sensação, mas é muito boa, é como se eu me sentisse em casa. Quero muito voltar, seja com algum espetáculo de novo, seja apenas para visitar, mesmo.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Cinema Indiano" no "My Asian Movies!"

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Atenção, atenção! Acaba de sair do forno a primeira entrevista conferida por mim mesmo, Ibirá Machado, na função de dono deste blog que vos apresenta! E a entrevista não saiu em qualquer lugar, mas sim no excelente blog My Asian Movies, do madeirense Jorge Soares.

A entrevista não é longa e nem eu me alonguei nas respostas. Ou seja, não há motivos para não darem um pulinho ali e conferirem o que foi que eu disse. Aceito humildemente críticas, sejam lá ou sejam cá. Vale sempre lembrar que uma entrevista é um momento de nossa vida representado em forma de perguntas e respostas, expressando opiniões do momento - ou não -, e que naturalmente podem modificar-se no decorrer do tempo.

Ainda assim, adoro entrevistas! E achei a ideia do Jorge de publicar testemunhos de irmãos blogueiros, com alguma afinidade com seu tema - o cinema da Ásia -, muito boa! E não sei porque, mas acho que o fato de o Jorge viver na Madeira, no meio do Atlântico, dá um sabor todo especial ao seu blog.

Não deixem de conferir!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Entrevista com Beatriz Seigner, diretora de Bollywood Dream

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Conforme prometido na postagem sobre o filme Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano, aqui vai a exclusiva entrevista com a diretora dessa excelente obra, Beatriz Seigner. O filme teve excelente recepção na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e esteve entre os finalistas para o maior prêmio da Mostra.

Ela gentilmente topou responder a algumas perguntas que fiz, e o resultado vocês podem conferir aqui. Ela conta como foi o processo de elaboração do roteiro, como o apoio com a equipe indiana foi fundamental - sobretudo com a mão de Santosh Sivan - e declara gostar de Taare Zameen Par, dentre outros filmes.

E preciso dizer, mesmo sem ter pedido permissão, mas Beatriz tem apenas 25 anos de idade. Digo principalmente como incentivo a todos, e uso o "apenas" como prova de que com determinação somos capazes de realizar aquilo que queremos, sabendo onde meter a cara, ou tirar o corpo no momento correto. Com poesia e filosofia, essa entrevista com Beatriz Seigner fala muito mais do que as poucas perguntas que fiz.


Cinema Indiano: Fiquei sabendo que a ideia de fazer um filme na Índia surgiu mais ou menos por acaso, durante um almoço, quando você contou sobre sua viagem para esse país. Mas como foi que o roteiro em si configurou-se? Como surgiu a ideia de Bollywood?

Beatriz Seigner: Então, eu já havia morado na Índia em 2003 já com a ideia de fazer um filme que unisse Brasil e Índia, e estava fazendo um documentário sobre os valores e tradições que estão desaparecendo com o rápido processo de Ocidentalização da Índia, e vários atores, amigos meus, vinham me perguntar como poderiam ir para Bollywood participar de algum filme. Até que uma hora deu o click, e eu falei com a Lorena, na fila de uma peça, sobre fazer um filme chamado Bollywood Dream ( o nome veio junto com o click - nome em inglês pois era um sonho estrangeiro), sobre três atrizes que queriam ir para a Índia para tentar a sorte na indústria cinematográfica de lá e experimentariam os contrastes destas mudanças com as quais eu estava tentando lidar. E a Lorena na hora disse que havia outra amiga dela, a Paula Braun, com quem havia feito O Cheiro do Ralo, e que toparia uma aventura destas.

Acho que naquela mesma semana nos sentamos para almoçar e então perguntei o que cada uma estava com vontade de viver, quais perguntas queriam trazer para os personagens/roteiro. A terceira personagem seria eu mesma aos 18 anos quando fui para lá pela primeira vez. E depois passei esta personagem para a Nataly, pedindo para que ela a tornasse sua com seus próprios questionamentos. E assim começou o processo de desenvolvimento deste roteiro tal como ficou no filme. Isso foi no final de 2006. Encontramos o Ram Devineni, em março de 2007 na Cinemateca Brasileira, que se tornou nosso produtor, e desenvolvi então este roteiro, colocando estas personagens nas situações que eu achava pertinentes para expressar as contradições que passamos neste momento de globalização e hegemonia cultural - por exmeplo o questionamento entre eterno e efêmero no festival do Ganesha, o contraste entre a dança clássica indiana, cheia de significados por trás de cada gesto, e a dança bollywoodiana, o encontro entre culturas no albergue/jazz piano bar onde convivem instrumentos/músicas ancestrais com ritmos e misturas contemporâneas, os pequenos ritos que estão desaparecendo - por exemplo os mandalas "kolans" que são feitos na frente das casas com pó branco para "organizar o universo" - coisa que cada vez fica mais raro nas grandes metrópoles pela falta de tempo em que vivem seus habitantes - e por aí vai.

Foram quatro anos de pesquisa prévia, depois dois anos desenvolvendo este roteiro, e no começo de 2008, fui para lá para ver os estúdios da família do Ram, e as mudanças que tinham acontecido na Índia em 5 anos, e o roteiro ganhou outro salto qualitativo. No final de agosto de 2008 fui para lá fazer a preprodução, e as meninas chegaram no começo de setembro para filmarmos.

CI: Houve alguma mudança no roteiro depois que as dificuldades reais foram enfrentadas?

BS: Muitas. E isso é uma delícia. O roteiro é bom para que se haja um condensamento daquilo que se quer falar/experimentar, uma costura, que as coisas não se percam, pois na hora da ação são muitas forças puxando para direções distintas e é muito fácil perder a coerência de tudo. Eu não queria que o filme fosse um relato de viagem de pessoas vislumbradas consigo próprias, nem uma conversa de bar que não chega a lugar nenhum. Queria propor mudanças e colocar em cheque certos valores modernos. Queria dividir perguntas, principalmente aquela que tanto nos fazem na Índia: "Ao que você pertence, irmão?", pois sinto que cada vez menos pertencemos a alguma coisa neste mundo líquido moderno, inclusive nem a nós mesmos, uma vez que ser íntegro, só fazer aquilo que se acredita ético - no sentido Espinozano do termo, ações que nos trazem felicidade eternas e não efêmeras -, parece ser ingênuo nos dias de hoje.

Quis olhar para o passado, numa sociedade onde ainda se encontra estes valores sendo discutidos nas ruas, para questionar de alguma maneira os caminhos que estamos escolhendo para nosso futuro em termos de humanidade. Mergulhadas nos personagens destas três atrizes, que também estão em buscas - errantes, confusas. Com a palavra pertencer surge o questionamento de identidade, de pertencimento coletivo, das várias camadas de condicionamentos sociais, culturais, familiares, geográficos e temporais a que estamos submetidos. Surge nossa identidade em construção como brasileiros no espelho de outra cultura estrangeira. E este vira o centro do furacão/jornada destes personagens.

Muitas coisas foram se transformando durante as filmagens, principalmente no modo como filmamos, interagindo com as pessoas realmente nas ruas, porque queríamos que tudo parecesse ocorrido ao acaso, "por coincidência" e sorte, mas essa essência, este fio condutor, continuou o mesmo. E isso só foi possível porque tínhamos um roteiro e uma pesquisa elaborada por cerca de 7 anos, que nos deixou livres para improvisar nas situações que existem de verdade com segurança. Como jazz, busca-se o evento, o acontecimento apenas possível naquele momento com aquelas pessoas naquela situação, sobre uma chave já combinada de antemão com todos os músicos presentes. Daí, consegue-se dar alguns voos livres, entre os galhos de pousos nesta estrutura.

CI: Eu achei bem interessante a sutil presença de Bhavana Rhya, dando o tom do choque cultural vivido por cada uma. Como veio essa ideia?

BS: Ela é minha professora de Odissi desde 2002. Foi com ela que esta paixão pela Índia e sua cultura começou. Essa ideia do contraste entre aquilo que se dançava há milhares de anos, as histórias que se contava através da dança, os questionamentos a que se propunham com aqueles movimentos, "dançar para fazer os deuses dançarem e assim exercerem suas funções" e aquilo que se dança hoje, é de certa forma a raiz de todo o resto.

Quando as pessoas na Índia vêem aquela sequência nas cavernas imediatamente elas falam "ah, elas voltaram no tempo!".

CI
: Você já tinha visto algum filme indiano antes de fazerem O Sonho Bollywoodiano?

BS: Sim, muitos.

CI: Suponho que hoje já tenha visto alguns. Que reação teve com o primeiro que viu? Gostou de algum em particular?

BS: Achei muito engraçado. O primeiro que vi num cinema lá era uma versão indiana daquele filme hollywoodiano A Rocha. O mais divertido era a reação das pessoas avisando o mocinho ou o vilão que a mocinha ainda estava viva, estava atrás deles e etc...

Gosto do Taare Zameen Par, que representa bem o momento de mudança que passa Bollywood atualmente, e de vários outros filmes indianos que não seguem a fórmula nem a estética Bollywoodiana, em particular gosto de mais dos filmes de Satyajit Ray e os do Santosh Sivan.

CI: De volta ao filme, quanto tempo vocês passaram na Índia? Fizeram algum preparo anterior à viagem ou foram para lá da mesma maneira que chegam as personagens?

BS: Eu fiquei lá por 12 semanas e as meninas por 8. Sim, muitos preparos da minha parte. Até agora para finalizar o filme já foram 4 viagens até lá.

CI
: O que mais a impressionou lá?

BS: Puts, tive que fazer um filme inteiro para conseguir expressar isso! :)

CI
: Para um ocidental, fazer um filme na Índia está longe de ser a coisa mais fácil do mundo. As coisas pioram por vocês todas serem mulheres. Quais foram as maiores dificuldades que vocês enfrentaram?

BS: Acho que para qualquer projeto cinematográfico que se queira fazer, a chave principal, e talvez o mais difícil e importante, seja encontrar os pares certos para se realizar aquilo que se quer. Pessoas que estejam afinadas estéticas e ideologicamentes. Quando encontramos a equipe que tinha os mesmos gostos, ousadias e princípios que a gente, tudo começou a se mover de maneira orgânica, e ficou mais fácil suportar o trabalho pesado e os percalços do caminho. Pois parece fácil, parece tudo coincidência, mas é tudo puro suor e trabalho meticuloso, repetitivo, artesanal, para que tudo pareça ao acaso como a vida. Passamos por muitas situações limites, de esgotamento físico e mental, e sem dúvida foi uma tarefa hercúlea para todos nós. 99% das probabilidades era que não fosse dar certo, que saíssemos de lá sem um filme. Nos agarramos naquele 1% que era nossa intuição que nos dizía que tínhamos um propósito no qual acreditávamos, e que custasse o que custasse, íamos com a experiência até o fim.

As dificuldades foram muitas, mas minha maior alegria agora, é quando ouço alguém que viu o filme dizer que dá vontade de pegar uma câmera e meter as caras para fazer algo que acredita também. Fui muito instigada nesta empreitada por aquele poema do Goethe que diz que "coragem contém genialidade, poder e magia em si" e que quando a pessoa se compromete de verdade com algo, uma série de encontros que ninguém poderia prever acontecem, e cada encontro traz consigo uma mão daqui, outra dali, e quando você percebe a coisa está se realizando em frente aos seus olhos.

Muitas vezes quando eu apertava o botão "rec" da câmera me parecia que eu estava recordando uma cena que eu havia escrito mas que na verdade já estava acontecendo em algum lugar, e que eu tinha voltado para um momento no tempo antes da realização do roteiro e estava apertando ali, com as atrizes, o botão "recordar". E a Índia é o lugar ideal para que todos os seus conceitos de tempo, espaço, limite, inconsciente coletivo venham à tona e sejam questionados.

Dificuldades? Ah, tantas. Mas já nem me lembro direito delas. Pois nenhuma delas chegou de fato a nos imobilizar. Como dizia F. Pessoa: "Fazer das quedas passos de dança".

CI: Vocês fariam algum filme de Bollywood, mesmo se fosse apenas para aparecer em alguma cena de dança, como querem as personagens?

BS: Fizemos isso para conseguir filmar dentro de sets de filmagem de outros filmes de verdade. Mas com o puro propósito de realizar nosso filme.

CI: Para fazer esse filme vocês contracenaram com pessoas importantes no meio tamil, além de ter tido o apoio de Santosh Sivan, que tem forte projeção não só na indústria tamil, mas também em Bollywood. Vocês tinham consciência da importância deles? Como foi o trabalho com essa equipe indiana?

BS: Sim, Santosh virou nosso grande amigo e produtor executivo de nosso filme. A primeira equipe com que trabalhamos não deu nada certo, pois tínhamso estéticas diferentes, eles gostavam de glamour e eu acho humilhante qualquer pessoa que precisa de glamour para se olhar no espelho. Eles queriam heroínas e eu queria seres humanos. Eles queriam planos explícitos e eu queria filmar pelas sombras, entre cabides, deixar muita coisa fora de quadro, câmera na mão, iluminação natural, para que tudo parecesse captado ao acaso, quase como um documentário, ou reality show.

Queríamos andar na fronteira onde todos estes estilos borram uns aos outros, onde todas estas limitações tornam-se ilusórias. Queria improvisar e fazer planos sequências, e para eles isso era horroroso. Então depois do primeiro dia de filmagem desistimos de dar murro em ponta de faca e fomos atrás de pessoas com maior veia experimental e que pudessem nos ajudar a ir na direção que queríamos. Foi quando o Santosh entrou no nosso barco e nos mandou os assistentes dele para nos ajudar em definitivo. E os percalços daí em diante ficaram mais fáceis de serem transpostos, pois estávamos todos na mesma sintonia, indo na mesma direção.

CI: Eu comentei na minha crítica que algumas dificuldades vividas pelas personagens foram semelhantes ao que eu mesmo vivi lá (a reserva no hotel, o trem errado etc.). Houve alguma inspiração real para isso?

BS: Claro, sempre. A paixão pela realidade, e a transcendência dela através da subjetividade humana, é o que nos dá tesão nesta arte.

CI
: Por fim, o que vocês trazem hoje na bagagem depois dessa experiência?

BS: A própria experiência desta realização, e a delícia das amizades e encontros que este filme proporcionou.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Entrevista com Aamir Khan

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Não, não, não pensem que a entrevista foi feita por mim e que sou tão influente que logo farei um encontro com Aamir Khan, SRK e Aishwarya juntos, apenas para os fãs do Cinema Indiano. Oxalá um dia isso ocorra!! Mas enquanto isso não acontece, no entanto, contento-me em repartir com vocês coisas que saem na internet e que, por alguma obra do destino, chega às minhas mãos. Dessa vez a obra do destino veio via um leitor dedicado do Cinema Indiano, que encontrou essa entrevista no site da Bollywood.com. Eu achei a entrevista bem interessante e completa, mas sei que sou suspeito pra dizer isso. Embora Aamir diga que Amitabh Bachchan seja o cara pra ele, pra mim Aamir Khan é o cara! Então confiram a entrevista:

"Quem Quer Ser um Milionário? não me tocou" - Aamir Khan
por Bollywood Hungama News Network (tradução livre)

Ator top de Bollywood e condecorado pelo governo indiano com o prêmio Padmashree, Aamir Khan participou da edição especial do Talk Asia, da CNN, filmado em frente a uma plateia em Mumbai, onde compartilhou com Anjali Rao suas opiniões a respeito de Bollywood, os ataques de Mumbai e muito mais. A primeira exibição foi vista no dia 25 de março, às 18h, e haverá duas reexibições no dia 28 de março, às 10h e às 20h. O programa pode ser visto também em www.cnn.com/talkasia. Quem tiver acesso, não perca!

Confira agora os melhores trechos da entrevista:

É realmente um prazer tê-lo conosco hoje e muito obrigado por ter vindo. Seu filme mais recente, Ghajini, é agora o maior sucesso de Bollywood de todos os tempos. Você tinha ideia que isso poderia chegar a esse tamanho?
Você pode esperar por isso, você pode esperar por isso em todos os filmes que faz. Mas nunca podemos afirmar até que vejamos como a audiência reage a ele. Então acho que com Ghajini o que aconteceu foi que fizemos a coisa certa pra atingir esse objetivo. Percebi que não fazia um filme hardcore havia muito tempo, o que foi bom. Acho que to feliz com isso.

Depois desse filme ter feito esse sucesso, as pessoas estão dizendo que você é o verdadeiro "King Khan". E que você chutou Shahrukh pra fora porque ele tem o carisma dele mas você conseguiu fazer o que todos os atores sempre sonharam. Com Ghajini você teve excelente retorno não só financeiro, mas também de crítica. Como você fez isso? Como você deixou de fazer sempre o mesmo papel e chegar a isso?
Bom, você sabe que eu só faço papéis que acho legais e que eu goste de fazer. Eu apenas trabalho com o que me faz feliz. E eu realmente não tenho nenhuma intenção de chutar Shahrukh de seu pedestal. Mesmo assim eu nunca achei que ele estivesse num (audiência ri). Mas na minha opinião o único ator que eu realmente admiro é o Sr. Bachchan, Sr. Amitabh Bachchan. Ele é alguém cujo trabalho eu realmente gosto, ele é um fantástico ator e tem um estrelato que nenhum de nós nunca sonhou em ver. Então pra mim ele é o cara.

Uau, eu espero, pensando e olhando pra seu trabalho, que você não tenha muitas lembranças ruins... quer dizer, teve dias em que você pensou "ai meu Deus, nenhum filme faz sucesso??"
Foi cansativo, foi realmente cansativo, e na verdade tem uma brincadeira na minha família, que quando você quer Aamir pra fazer alguma coisa, faça um filme sobre essa coisa e ele então acabará fazendo isso. Então nunca pensei que eu tivesse que treinar, eu não costumo fazer isso, mas quando tenho que fazer um filme eu vou nisso e faço meu melhor. Mas foi sim doloroso e muito cansativo... quando olho como comecei, como eu era, eu não acredito, eu simplesmente não acredito. Mas hoje eu penso nisso e penso como se fosse um sonho distante. Eu nunca treinei, porque pro próximo filme que estou fazendo, meu diretor olhou pra mim, pro meu físico e disse pra eu perder tudo isso. Então eu tenho agora que perder tudo isso pro próximo filme que estou fazendo.

Aamir Khan, você não é apenas um grande ator, mas você também teve sua estreia como diretor em Taare Zameen Par. Como foi pra você estar do outro lado da câmera e, no mesmo momento, também atuando?
Foi cansativo, principalmente porque não era eu quem deveria dirigir o filme. Então de repente, em uma semana, eu estava lá. Eu dei minhas tripas por ele. Honestamente, eu nem tinha tempo pra pensar. E agora, quando olho pra trás, eu percebo que atingi um ponto em minha carreira em que eu queria dirigir um filme há muito tempo, e a pressão sempre afastou-me disso. O jeito com que tudo aconteceu não me deu tempo de pensar e decidir, sabe? Eu entrei nisso porque tinha que entrar, e acabei fazendo o filme com o melhor que eu tinha. Mas eu realmente não iria fazer isso, talvez se eu não tivesse feito TZP eu acabaria não dirigindo um filme pelos próximos 10 anos ou mais, sei lá. E então eu acho que to muito grato por isso ter acontecido, porque fiquei muito feliz com o que o filme se tornou e feliz com a maneira com que isso impactou as pessoas.

Lagaan foi indicado ao Oscar in 2001. Naquele momento, o filme ganhou muito crédito por ter colocado Bollywood no mapa. Quão importante você acha que para os filmes indianos serem reconhecidos pelo ocidente?
Lagaan foi feito para o público indiano. Ele acabou sendo apreciado por muitos e atravessou o planeta, e pessoas de diferentes lugares amaram o filme e nós ficamos realmente felizes com isso. Mas se isso não tivesse acontecido, esse filme não teria sido tão importante se consideássemos o que o público indiano achou dele. Então, até agora, nós estamos fazendo filmes para nossa própria audiência, que é grande e saudável. E nós realmente nunca nos preocupamos com o público internacional. Nós nunca nos preocupamos em entretê-los. E eu acho que o dia em que decidirmos fazer isso, então faremos direito.

Quem Quer Ser um Milionário? foi um grande marco, eu acho, mas você sabe que com todas as premiações ele acabou rodando o mundo, mas aqui na Índia muitos o odiaram. O que você pensa disso?
Ele não me tocou pessoalmente. Emocionalmente ele não fez nada em mim. E eu acho que isso é porque eu não estou acostumado a ver indianos falando inglês. Então, sabe, todas aquelas crianças faveladas falando inglês, e o policial... me pareceu muito estranho... não funcionou pra mim por causa disso.

Você foi bem enfático em seu blog quando houve os ataques em Mumbai. Apenas diga pra gente o que se passava em você quando os ataques ocorreram.
Bom, aquilo foi devastador. Quer dizer, foi como um pesadelo, eu não acreditava que aquilo estava acontecendo. Me chocava demais ver o jeito com que os ataques estavam sendo feitos. Todas aquelas vidas sendo levadas e muitos pensamentos estavam em minha cabeça. Foi muito triste aquilo... vivemos num mundo em que há pessoas, em todos os cantos do mundo, que pensam que é dessa maneira que eles serão escutados, matando inocentes. Isso não faz sentido pra mim, mas eu acho que é assim que o mundo é hoje.

Aamir Khan, certamente você estava falando para o governo, em seu blog, quando você disse para não negociarem com os terroristas. Mas você também pareceu um tanto crítico com a maneira com que as coisas estavam sendo lideradas. Explique melhor o que você pensava.
Não, eu não estava sendo crítico em relação ao que o governo estava fazendo. Porque eu acho que naquele momento eles estavam fazendo o melhor que podiam fazer. Mas eu sou crítico em relação ao número de líderes políticos que vêm usando religião e castas na política por décadas. E é apenas isso, você sabe, que polariza as pessoas. Isso espalha muito veneno e negatividade na sociedade.

A sua resposta aos ataques de Mumbai nos leva a lembrar o filme Rang de Basanti, de 2006, que fez uma grande parte da juventude indiana a se envolver com a política. É importante pra você também fazer filmes que não sejam apenas flores?
Sim, claro. Eu acho que pelo tipo de pessoa que sou, eu me atraio por certos tipos de casos. Então, um filme como Rang de Basanti vem a mim e isso me inspira. Eu penso 'uau, isso é algo que quero fazer parte'. Então as coisas primeiro me tocam.

Existe uma certa fórmula que funciona muito bem em Bollywood. Mas de volta a 2001, Lagaan foi completamente contra essa fórmula, você sabe. Era um filme que ninguém quis fazer, era um roteiro que quase morreu. Era mais de três horas e meia de filme, com um elenco praticamente desconhecido, comparados a você. Mas ainda assim o filme foi um super sucesso... você obviamente levou o projeto adiante pois acreditava nele. As outras pessoas pensavam que você estava louco?
Sim. Bom, eles pensavam isso todas as vezes. Cada vez que eu começava um filme eles diziam 'hmmm, dessa vez ele vai se dar mal'. Todo mundo que me conhecia dizia que eu estava louco, que eu me daria mal. E quando fiz Dil Chahta Hai, ou também Rang de Basanti ou mesmo Taare Zameen Par, eles diziam 'hmmm, crianças e educação, ok...'. Mas isso também é excitante, sabe, quando você pega coisas difíceis e inusuais e quebra as regras do cinema.

Ninguém poderia produzir Lagaan. Mas no final, após um bom convencimento, você teve que fazê-lo. Mas parece que havia mais dificuldades com ele. Quer dizer, teve uma cena em que você precisava de 10.000 camponeses de algum lugar e a vila nem estava construída ainda. Como um produtor, você certamente não teria levado isso adiante. Então me diga como você conseguiu vencer alguns desses obstáculos pra fazer esse filme.
Bom, Lagaan foi especialmente difícil de ser feito. Quer dizer, o tempo e a imensa quantidade de atores que tínhamos... e apenas ter que deixar todos prontos pra filmar às 8h, nós tínhamos que chegar às 4h e começar a nos preparar, era insano.

8h da manhã?
Da manhã, sim. E o críquete era muito cansativo. Porque a bola e o taco não fazem o que você quer que eles façam. E o dia dos 10.000 camponeses foi um grande dia, porque nós tivemos que mandar várias equipes pra várias vilas e dizer que estávamos fazendo um filme, mas a maior parte deles nem sequer havia visto um filme em suas vidas.

Depois do flime acabar, os atores de Bollywood se vão e Aamir deixa o privado em sua vida privada, mas isso não significa que ainda assim não deixaremos de fazer perguntas pessoais. A casa que vemos naquele vídeo, parece que você passou grande parte da sua infância ali.
Bom, não naquela casa propriamente, mas em Panchgali, naquelas montanhas.

Que tipo de infância você teve?
Bom, bem normal, na verdade. Nossos pais cuidaram bem de nós. Tivemos uma vida bem tranquila. Na verdade meus pais eram realmente contra minha ideia de fazer filmes. Eu venho de uma família de atores e cineastas. Tanto meu pai quanto meu tio eram cineastas. E eu vi em casa como isso era desgastante. Era como se não houvesse possibilidade pra mim de fazer filmes. Mas eu geralmente não escuto as pessoas. Eu apenas faço o que quero fazer. Mas quando eles se deram conta... na verdade era mais porque eles se preocupavam comigo. Todos os pais se preocupam com seus filhos. E seguir essa profissão é um tanto incerto. Então um dia você está nisso, noutro dia você é ninguém... é de fato uma profissão difícil.

Aamir Khan, quando você olha pra você no passado, pro que você fez nos anos 80 e 90, você tem orgulho de si mesmo ou pensa "ai meu Deus, quero morrer!"?
Eu tenho vergonha. Sabe, quando termino um filme em seis meses eu acho que ele não está bom. Foi nisso que erramos, não deveríamos ter feito isso, mas eu cresci muito como um ator e sei que posso fazer muito melhor agora. Eu não gosto do meu trabalho, na verdade.

Deve ser chato, porque você continua vendo eles?
Eu desde cedo não vejo meus trabalhos. Eu vejo muito eles quando eles estreiam, com o público. Isso eu sempre faço. Eu vejo meus filmes com a audiência, mas eles nunca sabem que estou no cinema com eles.

Como eles não sabem?
Eles não sabem porque entro depois deles no cinema. Então eu fico em pé no fundo, ou vou à sala de projeção, e de lá posso ver todos, posso escutá-los. Então vejos eles se mexendo na cadeira se não gostam do filme ou da cena. Dá pra perceber isso. Então se o filme não é legal, você de repente ouve um monte de barulho de cadeira, de pessoas tossindo, e então você sabe que perderá audiência.

Você foi na sala de projeções em filmes que não fizeram sucesso, como Mela e Mann?
Sim, fui... e é triste. É realmente triste. Mas é pra isso que faço meus filmes. Eu quero, eu faço os filmes pro público ver e eu quero estar lá pra ver eles gostarem. Mas se eles não gostam, também quero estar lá pra ver.

Se você tivesse que me dizer uma característica sua que faz você ser esse sucesso todo, que característica seria?
Eu acho que pra mim isso seria, eu sempre fiz o que me faz feliz. Eu percebi logo cedo em minha carreira que sempre que eu tomava uma decisão que eu pensava ser a decisão correta, então eu devesse fazer aquilo; mas eu sempre me ferrava. Sempre que eu pensava que seria esperto, acabava fazendo coisas horríveis. Mas sempre que fiz coisas que eu sentia que tinha que fazer, daí tudo funcionou. Não importa o quão ridículo poderia parecer pros outros, ou quão impraticável fosse... mas sempre que segui meu coração e fiz as coisas que me faziam feliz, então essas coisas deram certo.

Colaborou: Luiz Bagatin