terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Central Board of Film Certification - CBFC

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Quem já assistiu a um filme indiano deve se lembrar dessas etiquetas que aparecem logo antes de o filme começar. Se não se lembra, repare da próxima vez. Se o filme for realmente indiano, ou seja, for produzido e gravado na Índia, então essa imagem irá aparecer antes do filme começar. Isso se trata da certificação e classificação do filme, ou seja, é o documento que libera o filme, programa de TV ou propaganda, além de censurá-lo caso haja necessidade. E é neste último quesito - censura - que a incredible maior democracia do mundo por vezes nos surpreende. E essa classificação é feita, em toda Índia, pela Central Board of Film Certification - CBFC.

A Suprema Corte Indiana diz o seguinte: "A censura de filmes é necessária porque um filme motiva pensamentos e ações muito mais que um livro, por exemplo. A combinação de ação e voz, imagens e sons, no escuro do cinema, e sem nenhuma outra distração, tem um poderoso impacto na mente dos espectadores e pode afetar as emoções. Portanto, um filme tem um potencial negativo tanto quanto positivo, e tem um igual potencial de instar a violência ou bons comportamentos. Não dá pra comparar um filme com outros meios de comunicação. A censura prévia é, portanto, não só desejável como necessária."

Até aí está relativamente bem, já que, como sabemos, todos os países tem um órgão de classificação indicativa de filmes. Isso não significa, porém, que um filme feito aqui no Brasil, por exemplo, deva cortar cenas ou até mesmo ser proibido de ser exibido caso contenha cenas e/ou temas que não estejam de acordo com, digamos, a ordem pública. Já na Índia (a maior democracia do mundo, não se esqueçam), as coisas são um tanto diferentes. Eles não só classificam filmes em termos de faixa etária recomendável, como também proíbem certos filmes com temas para eles polêmicos.

A classificação é dada da seguinte forma: U (conteúdo universal, liberado para todas as idades); U/A (conteúdo liberado para crianças na presença dos pais); A (conteúdo adulto, com cenas de violência, sensualidade e linguajar vulgar); e S (classificação rara, apenas uma classe específica pode ter acesso).

Mas não pense você que dentro da Índia isso é normal. Lá o debate é também grande, sobretudo dos que fazem os filmes. Muitos diretores estão ficando revoltados porque a CBFC impõe censuras para trechos dos filmes, que, se cortados, estragarão a sequência. Em alguns casos, até, a Suprema Corte interveio a favor dos diretores, cancelando a censura. Mas a polêmica ainda é grande e deve se prolongar por ainda décadas.

Filmes como o Gulab Aina, já falado neste blog, foi produzido mas proibido na Índia. Ele trata sobre transexuais indianos e a CBFC o considerou o tema ofensivo e vulgar. Mesmo assim o filme foi lançado em outros países e ganhou vários prêmios, sendo considerado um dos filmes mais sensíveis sobre uma classe marginalizada. Outro documentário feito sobre um polêmico conflito entre muçulmanos e hindus no estado do Gujarat, em 2002, também foi proibido com a alegação de que ele poderia incitar mais conflitos. Mas após uma série de protestos, a proibição foi derrubada e o documentário pode ser exibido.

E a censura vale pros filmes estrangeiros exibidos na Índia. A grande maioria dos filmes de Hollywood não passam na Índia e praticamente nenhum filme europeu vai pra lá. O motivo não é só uma falta de interesse dos indianos pelos filmes parados e sem dança do ocidente, mas principalmente porque grande parte das produções ocidentais contêm cenas que, para a CBFC, são vulgares, ofensivas e incitam a mal costumes. Mas por vezes cada estado pode também censurar filmes de acordo com seus critérios. O filme "O Código Da Vinci", por exemplo, foi proibido em sete estados, bem como a publicação do livro. O por quê não me perguntem.

O filme de Bollywood Jodhaa Akbar, lançado em 2008, foi banido nos estado de Uttar Pradesh, Rajastão, Haryana e Uttarakhand. O motivo alegado é a falta de fidelidade aos fatos históricos da história real do rei Akbar. Mas a polêmica é maior e a Suprema Corte indiana recorreu dizendo que esses banimentos também tratavam-se de manipulações dos fatos históricos, já que também não se podia afirmar que o rei Akbar, muçulmano, não tinha se apaixonado por uma mulher hindu, Jodhaa. Mas a proibição caiu apenas em Uttar Pradesh.

Enfim, não vou me alongar muito aqui. O fato é que este tema é longo e muito polêmico. É apenas mais um dos tantos fatos que mostram a confusão social, cultural e política que existe na Índia, por vezes desafiando os princípios constitucionais no país. E de fato, o YahooGroups, por exemplo, chegou a ser inteiramente cancelado na Índia após denúncias de grupos separatistas utilizarem esta ferramenta. Mas como a internet é muito prolixa e a Índia, em princípio, não é uma ditadura (e sim a maior democracia do mundo), também perceberam que a censura não podia ser, assim, tão generalizada. E é assim que muitos indianos, não podendo ter um acesso permitido a materiais pornográficos (que são totalmente proibidos na Índia), usam e abusam do que a internet oferece, e que não é pouco!
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2 comentários:

Willian Róbert disse...

ja assisti à dois filmes indianos e percebi o Comprovante de Certificação no inicio do filme

Ibirá Machado disse...

Sim, o certificado SEMPRE aparece no início dos filmes, sem exceção :)