sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Firaaq (2008) - फ़िराक़ - فراق

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Esta quinta-feira guardou para mim o sexto e último filme indiano que restava eu ver na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Este ficou por último simplesmente porque eu não tinha como vê-lo em nenhum dos outros dias que esteve em exibição, mas por Vishnu e Alá, ele tinha mesmo que ficar por último! Para mim, Firaaq fechou a Mostra com a mais dourada das chaves de ouro.

O filme é indiano, mas não pertence a nenhuma indústria. Firaaq vem do seio do cinema paralelo da Índia, que produz - desde há muito tempo - obras mais do que fabulosas, com autores e atores dos melhores. E esta obra havia sido já citada na postagem Muslim Socials.

E este filme não é de qualquer um. É a estreia na direção da até então atriz Nandita Das, que ganhou a mais do que merecida projeção após interpretar o polêmico papel de uma lésbica, ao lado de Shabana Azmi, no filme Fire (1996), de Deepa Mehta. Depois ela foi também protagonista do filme Earth (1998), da mesma diretora.

Firaaq é um filme e tanto, mas não é nada fácil de ser digerido. Ele se passa no mês imediatamente subsequente aos gravíssimos atentados que aconteceram no Gujarat, em 2002. Um aviso nos diz que o filme é ficção, mas que o roteiro foi baseado em mil histórias reais. Assim que começa, vemos dois muçulmanos enterrando dezenas de corpos em uma vala comum. Eles estão visivelmente abalados emocionalmente, até que chega um caminhão e despeja mais uma dezena de corpos. Nesse amontoado de novos corpos, há provavelmente por engano o corpo de uma hindu, que por princípios religiosos não pode ser enterrada. Um dos homens que ali estava, ao ver a mulher hindu morta, pega a pá que tinha em mãos e, num ataque de fúria viceral descontrolada, vai pra cima dela querendo matá-la. O outro o segura, acalmando-o e dizendo que não adianta nada querer matar um morto. A cena é demasiadamente densa e assim já somos introduzidos ao que iremos ver e sentir nas quase duas horas seguintes.

Aos poucos, vamos sendo apresentados às personagens que irão revelar para nós as mais variadas faces do ser humano traumatizado. Logo conhecemos a jovem Muneera, muçulmana, que chega à sua casa com seu marido e seu pequeníssimo bebê, encontrando-a toda queimada. No desespero, ela pergunta ao marido quem fez aquilo, ao que ele responde, mais desesperado ainda, para ela perguntar a sua melhor amiga, que é hindu.

Khan Sahab (Naseeruddin Shah) é um velho cantor clássico muçulmano, alienado a tudo que acontece, acostumado a cantar a hindus e muçulmanos em sua casa, e não compreende porque sua casa há tempos não recebe mais ninguém. Seu empregado/acompanhante esconde a verdade, preocupado com a saúde do velho.

Aarti é uma hindu dona de casa, que está à beira da loucura por ter negado abrir a porta de sua casa a um casal muçulmano que estava sendo perseguido por hindus durante os atentados. A imagem da mulher queimada batendo na porta ou na janela da sala não sai da sua cabeça e a atormenta. Uma de suas estratégias para tirar esses sons e imagens de sua mente é pingando óleo fervente em seu braço. Ao mesmo tempo, seu marido é o mais perfeito dos estúpidos. Manda em Aarti como se ela fosse sua escrava. Descobrimos, depois, que ele e um amigo participaram dos ataques contra muçulmanos.

Depois de um tempo, Aarti encontra um pequeno garoto muçulmano perdido, Mohsin, que ela leva à sua casa para cuidar dele, meio que num ato desesperado de curar seu carma. Ele diz a ela que presenciou toda sua família sendo estrangulada, violentada e assassinada e que ele apenas se safou por ter se escondido numa lata de lixo. No entanto, Mohsin presencia Aarti levando uma forte bofetada de seu marido, e ele então foge de volta para a rua, à procura do pai que ele ainda não sabe que está morto.

Conhecemos também o casal Sameer e Anu. O primeiro é muçulmano, a segunda, hindu. São ricos e vivem harmoniosamente, mas devido ao medo irão mudar-se para Delhi. A loja que Ameer possuía em sociedade com o irmão de Anu havia sido saqueada durante os conflitos.

E assim temos todos os personagens que compõem esse mosaico entrelaçado e assim o filme é construído.

Nandita Das teve a extrema audácia de realizar uma obra tão linda, tão real, tão densa, tão triste. Sem abusos, sem recursos desnecessários, Firaaq escancara que hindus e muçulmanos podem ser os mais cruéis dos seres humanos, mas que, ao mesmo tempo, podem também ter os melhores corações. Nos mesmos pesos e mesmas medidas, pessoas de ambas religiões são expostas pelo lado da luz e da sombra, do medo e da coragem, da crueldade e da bondade.

E de maneira muito sutil, Nandita coloca Mohsin, o garoto órfão, como eixo do filme. E também foi impossível não ter feito comparações com Madholal Keep Walking. Se Madholal queria mostrar que o indiano é forte e não se curva aos atentados, o que Firaaq faz é mostrar a realidade inerente ao ser humano, que não muda nem pela raça, nem pelo credo, e menos ainda pelo gênero.

E finalizando, antes de deixar o trailer a vocês, a palavra "Firaaq" vem do urdu e significa ao mesmo tempo "separação" e "busca". Não é lindo?



11 comentários:

Monique Rosa, rosa rosa disse...

Assim...
haja visto que o meu computador está a três dias torrentando Jhoda Akbar, se eu fosse querer assistir todas as indicações desse blog, passaria a vida inteira apenas baixando filmes...
Então vou pôr esse e Bollywood Dream como prioridade.

Ibirá Machado disse...

Considerando os últimos filmes que falei, sim, esses dois devem ser prioridade ;)

barbie-o disse...

Também já está nas minhas prioridades. :)

Obrigada pela crítica.

Ibirá Machado disse...

Não há de quê! ;)

Kuka disse...

Mto obrigada Ibirá pelas dicas cinematográficas... De facto não sabia k a Nandita Das tb é realizadora, gosto imenso dela cm actriz, sobretudo nos filmes da Deepa Mehta. E neste filme, axo k teve mta coragem por focar um tema ainda "recente" na memória dos indianos, e sobretudo por ser uma mulher a falar deste tipo de assuntos. Corrige-me se estiver enganada, ms não creio k haja muitas mulheres realizadoras na Índia.
Irei, com toda a certeza, seguir as tuas sugestões.

Ibirá Machado disse...

É, Kuka, na Índia não há mulheres diretoras (realizadoras) que não sejam do cinema paralelo. E por incrível que pareça, hoje há três diretoras muitíssimo proeminentes e que estão à frente dessa vanguarda indiana, nomeadamente Deepa Mehta, Mira Nair e agora a Nandita Das :)

Carol disse...

Nas minhas prioridades [276522]

Chorei lendo a parte da Aarti.

Ibirá Machado disse...

O filme todo faz chorar...

Simone disse...

Li a postagem e... Wah! (rs) Bela postagem, que me deixou com uma vontade de assistir o filme! Pena que não deu pra ver na Mostra! :-(
Bom trabalho, Ibirá!
Por enquanto me contento com o trailer e, assim que der, baixo o filme!

Carol disse...

Firaaq me deixou tão alerta...não sei bem explicar como, mas até minha postura ao ver o filme era diferente. Eu estava séria, concentrada, pensativa. Isso, pensativa...minha cabeça dava nós de tanto pensar em pessoas, sentimentos, ações. Parecia que eu deveria mudar um pouco meu modo de ver o mundo ao analisar cada personagem, então eu mergulhava neles para não deixar que meus próprios ideais atrapalhassem tudo o que cada um deles tentava me passar(isso foi meio confuso). O trabalho mais pesado em relação a isso foi com aquele Sameer...aceitar, ou ao menos entender a fraqueza dele me deu algum trabalho. Forte era a esposa :)

Não derramei uma lágrima que fosse e não é um dos meus filmes favoritos, mas me fez bem.

Ibirá Machado disse...

Carol, talvez tenha mesmo sido essa a ideia da Nandita, tentar fazer com que entremos dentro de cada personagem, cada qual com suas fraquezas, e entender um conflito que é humano, antes de qualquer coisa. Obrigado pelo comentário!