terça-feira, 26 de outubro de 2010

Peepli [Live] (2010) - पीप्ली लाइव

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Peepli Live (Peepli Ao Vivo) é uma sutil e sarcástica crônica da mais dura realidade indiana. Ao mesmo tempo, no entanto, é uma obra que consegue universalizar uma cruel ferida que, em verdade, é muito mais humana do que pensamos. O filme está na 34a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

É necessário que se diga, também, que Peepli Live é o quarto filme produzido pela Aamir Khan Productions. Isso significa algo muito especial dentro de Bollywood. O primeiro filme deles, Lagaan (2001), concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; não ganhou, mas a indicação pela Academia foi um verdadeiro reconhecimento nas mudanças que o cinema indiano iniciava naquele momento. O segundo, Taare Zameen Par (2007), foi indicado pelo governo indiano pra concorrer ao Oscar, mas não foi selecionado. Ainda assim, embora não tenha sido selecionado pela Academia, muitos de nós já conhecemos os rumos que esse filme tomou no mundo; no Brasil, por exemplo, este já é o filme indiano mais visto de todos os tempos, somente no boca-a-boca. O terceiro, Jaane Tu... Ya Jaane Na (2008) foi somente uma incursão pelo entretenimento jovem, nada de especial. Até chegar agora Peepli Live e ser, novamente, a indicação do governo indiano para o Oscar.

O filme é a estreia na direção da até então jornalista Anusha Rizvi, que também escreveu o roteiro. Ela apresentou o projeto pela primeira vez a Aamir Khan em 2004, que recusou produzir já que ele estava muito mais preocupado com suas gravações em Mangal Pandey. Mas ela foi persistente, ficou no pé, explicou os detalhes e ele topou. O resultado eu aconselho que todos vejam, que vale a pena.

Peepli Live conta a história do camponês Natha (Omkar Das Manikpuri) e sua família, afundada em dívidas completamente impagáveis. A velha dificuldade do camponês em uma sociedade urbana, ainda que a população rural indiana seja algo em torno de 70%. Eles moram na fictícia vila de Peepli, no fictício estado de Mukhya Pradesh (que em hindi significa, literalmente, "Principal Estado").

Natha e seu irmão, Budhia (Raghuvir Yadav), voltam desolados pra casa com a notícia de que perderão tudo por causa de dívidas, depois de uma visita ao banco. A esposa de Natha, Dhaniya (Shalini Vatsa), e a mãe dos irmãos, Amma (Farookh Zafar), protagonizam momentos dos mais hilários - e angustiantes - do filme. Ilustram a mais indesejada relação de nora e sogra que se pode ter, numa casa de um cômodo, e a sogra, ainda por cima, nunca - eu disse nunca - saindo da cama. E no meio disso mais três crianças.

E é então que, pensando que o líder político local pudesse ajudá-los, Natha e Budhia acabam, isso sim, por receber um conselho nada encorajador: suicidar-se, pois assim a família receberia uma indenização decente. Discutindo sobre isso enquanto tomavam chá num local público, ambos são observados por um jornalista local, Rakesh Kapoor (Nawazuddin Siddiqui), que acaba por levar a notícia adiante.

Acontece que a coisa se espalha de maneira descontrolada e, em menos de dois dias, toda a mídia indiana monta barraca em frente à casa de Natha, à espera de um suicídio ao vivo. Mas o sensacionalismo descarado não se forma somente pela exploração de um coitado; a situação acaba por explicitar um debate político que, inevitavelmente, é nacional. É então que o filme toma seus rumos e Natha torna-se, sem querer e sem controle de nada, catalizador de um triste espetáculo que só uma sociedade dos princípios do século XXI poderia mesmo viver.

Consta que o próprio Aamir Khan faria o papel de Natha, mas sou obrigado a dizer que fico imensamente feliz de o desconhecido ator de teatro Omkar Das Manikpuri ter sido selecionado. A expressão de Natha é impagável.

A vontade aqui era de escrever mais detalhes da história, até seu final. Mas exerço meu autocontrole e faço um apelo pra que, quem tiver vontade, veja o filme.

Peepli Live até que é baseado em fatos reais, mas isso, nesta obra, não é o mais importante. Assusta e angustia ver uma realidade do outro lado do mundo tão próxima de uma realidade que - guardadas todas as proporções - poderia ocorrer aqui. 

O debate político do filme se aproxima desmedidamente do que estamos agora vivendo aqui no Brasil. E ainda, pra quem conhece um pouco mais a fundo da história da Índia recente (últimos cento e poucos anos), é praticamente impossível não lembrar de Gandhi relembrando John Ruskin e Tolstoi e o debate sobre a profunda importância do camponês; ou, também, não lembrar do livro "A Cidade da Alegria", de Dominique Lapierre, depois transformado em filme, com Patrick Swayze. Num país com um bilhão de camponeses miseráveis e cidades famintas por gente, a história ainda vai se repetir por muito e muito tempo.

Anusha Rizvi merece todos os meus parabéns por sua estreia no cinema, muito sensível e muito complexa. A produção da Aamir Khan Productions se faz óbvia em vários aspectos, como muitos figurantes, atores desconhecidos - à exceção de Naseeruddin Shah, que faz o ministro da agricultura -, cidade cenográfica e coisas afins. Impecável. O filme tem algumas imagens que falam muito por si; eu diria que coisas geniais, aliás. E a trilha do filme foi também composta pelos inusitados Indian Ocean, uma banda indiana de indo-rock, fusion e jazz-folk - é mais ou menos assim que eles se definem, mesmo.

Peepli Live foi o primeiro filme indiano a participar da competição oficial do Festival de Sundance, nos EUA, ganhou exibição especial no Festival de Berlim, e levou o prêmio de Melhor Filme de Estreia no Festival de Durban, na África do Sul.

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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Filmes indianos na 34a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Queridos, na sexta-feira, dia 22 de outubro, tem início a 34a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, estendendo-se até o dia 4 de novembro. Durante essas duas semanas, como já vem sendo tradição, teremos alguns bons filmes indianos no repertório. E adianto, são imperdíveis.

Os filmes selecionados pra esse ano são: Peepli Ao Vivo (Peepli Live, 2010), Filmando Harishchandra (Harishchandrachi Factory, 2010), Udaan (Udaan, 2010) e Imagens em Processo (Chitra Sutram, 2010). Verei cada um e em seguida postarei meus comentários. Mas para já ir adiantando, gostaria de lembrar que Harishchandrachi Factory e  Peepli Live foram as indicações do governo indiano para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2009 e 2010, respectivamente, sendo o segundo a mais recente produção da Aamir Khan Productions. E Udaan representou o retorno de um filme indiano na seleção oficial de Cannes, após sete anos, agora em 2010.

Confira abaixo os horários e locais de cada filme. Para saber sobre mais detalhes, clique no nome de cada filme para acessar as respectivas páginas no site da mostra.

Peepli Ao Vivo (Peepli Live, 2010)
22/10 - 21h - Centro Cultural Banco do Brasil
23/10 - 14h - Cine Livraria Cultura 2
24/10 - 19h - Cine TAM, Sala 4
27/10 - 14h - Cine SABESP


Filmando Harishchandra (Harishchandrachi Factory, 2010)
22/10 - 14h - Cine SABESP
30/10 - 18h40 - Cinemateca, Sala PETROBRAS
2/11 - 18h30 - Matilha Cultural
3/11 - 17h10 - Unibanco Arteplex 3


Udaan (Udaan, 2010)
22/10 - 18h50 - Centro Cultural Banco do Brasil
30/10 - 14h - MIS (Museu da Imagem e do Som)
31/10 - 17h30 - Unibanco Arteplex 4
1/11 - 19h - Cinemateca, Sala PETROBRAS


Imagens em Processo (Chitra Sutram, 2010)
22/10 - 14h - Unibanco Arteplex 4
24/10 - 20h20 - Unibanco Arteplex 5
26/10 - 14h - MIS (Museu da Imagem e do Som)
4/11 - 17h20 - Reserva Cultural 1

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Lata Mangeshkar - लता मङ्गेशकर

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Talvez este site fosse mais simpático se ele tivesse sido iniciado, mais de dois anos atrás, com uma postagem sobre Lata Mangeshkar, provavelmente a mais importante personalidade da Índia ainda viva.

Num país em que o cinema rege a sociedade, num país em que a música rege o cinema, ser cantor de playback deste cinema é estar em um posto talvez mais sagrado do que os que estão os atores. Se os atores estão sujeitos às subjetividades e projeções de cada um, que os fazem ser amados ou odiados, os cantores costumam ser praticamente unanimidade entre o público, variando efetivamente muito pouco, mudando somente pelo gosto de tom de voz, harmonia etc.

Pois e ser cantor de playback do cinema indiano é saber que as músicas não são suas, ou, mesmo se forem compostas pelo próprio cantor (como são alguns dos casos das músicas de A.R. Rahman, ou mesmo do trio SEL), ainda assim as músicas são muito mais do filme e - ainda mais - serão dos atores e das respectivas cenas de dança em que estiverem inseridas, se estiverem.

E, pra começar, Lata (lê-se Latá) já tem sua importância por disputar com Asha Bhosle o recorde de maior número de gravações já feitas no mundo por um único cantor, segundo o Guinness. As coisas ficam ainda mais interessantes quando sabemos que Asha Bhosle é simplesmente irmã de Lata Mangeshkar, com apenas quatro anos de diferença entre elas. Mas Lata diferencia-se - daí sim - por ter criado todo um estilo de cantar posteriormente imitado e reproduzido nos últimos sessenta anos do cinema indiano, inclusive por Asha.

Bom, Lata nasceu no dia 28 de setembro de 1929 em Indore, no Madhya Pradesh, embora sua família seja originária do Maharashtra da região de Konkan, próximo a Goa (por isso o sobrenome terminado em "kar", comum nesta região do estado). Seu pai, Pandit Deenanath Mangeshkar, era já um ator de teatro e cantor clássico. Ao nascer, Lata foi batizada como Hridaya, mas seus pais mudaram seu nome após uma muito bem sucedida peça do pai, cuja personagem principal era Latika. Lata é a filha mais velha do casal e todos os outros, Asha, Hridayanath, Usha e Meena são também cantores e/ou compositores.

A lenda diz que (pausa: entendemos já que Lata é uma lenda, viva que seja, quase um mito) Lata aprendeu a cantar tão cedo que, no primeiro dia de aula, tomou o lugar da professora e começou a ensinar seus amiguinhos a cantar. Ao ser reprimida pela professora, foi embora e não quis mais voltar pra escola. Mas como todo bom mito, há outra versão da história que diz que ela não quis mais ir à escola porque não deixaram que ela levasse consigo sua irmã Asha, que era mais nova e deveria ficar em outra turma.

E quando Lata tinha 13 anos, seu pai morreu e ela ficou sem seu mestre. Mas foi nesse momento que um grande amigo da família, Master Vinayak, aproximou Lata do cinema, já na década de 40. Foi assim que, em 1942, ela gravou a música "Naachu Yaa Gade, Khelu Saari Mani Haus Bhaari", pra um filme em língua marathi chamado Kiti Hasaal, mas que no final das contas foi eliminado da edição final. Mas ainda no mesmo ano ela gravou outra música, "Natali Chaittrachi Navalaai", do filme Pahili Mangala-gaur, também marathi. Em 1945 Lata mudou-se pra Mumbai, justamente quando a produtora de Master Vinayak foi também para lá e passar a trabalhar efetivamente em Bollywood, com filmes em hindi.

Lá, Lata passou a ter aulas de canto indiano clássico com Ustad Amanat Ali Khan Bhendibazaarwale. No entanto, com a independência da Índia e consequente partição do país com o Paquistão, ele teve de se mudar para o recém-criado país muçulmano. Foi então que ela passou a ser treinada por Amanat Khan Devaswale que, embora também muçulmano, não mudou-se ao Paquistão.

Com a morte de Master Vinayak, em 1948, Lata passou a ser promovida por Ghulam Haider, que acreditava com todas as suas forças que ela se tornaria uma referência, embora houvesse muita resistência por sua voz tão fininha. Mas a resistência muito logo caiu por terra. Já nos anos 50, a voz de Lata aparecia nas músicas de imensos sucessos não só de Bollywood, mas como também em filmes das outras grandes indústrias de cinema indiano. E todas as outras cantoras que surgiam naquele momento, ou que vieram depois, assumidamente adotaram o estilo de Lata, fazendo de seu estilo, voz e harmonia, a verdadeira voz da música indiana.

Hoje, não existem dados muito precisos do número de gravações que Lata já fez, mas consta que, no mínimo, passam de 40 mil as músicas já por ela cantadas, em pelo menos 20 das tantas línguas que existem na Índia.

Recentemente, Lata praticamente não grava mais músicas para os filmes indianos, dando espaço às novas-já-consolidadas vozes. Em 2004, ela ganhou uma relativa projeção internacional por ter uma música gravada por ela, "Wada Na Tod", fazendo parte da trilha do filme estadunidense Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças ("Eternal Sunshine of the Spotless Mind"), originalmente gravada pro filme Dil Tujh Ko Diya, de 1987. Coloco abaixo essa música, com a cena do filme original.

E o trabalho de Lata foi reconhecido, no mínimo, por todas as condecorações que o governo indiano tem a oferecer. Foi o Padma Bhushan, em 1969, o Dada Saheb Phalke, em 1989 (este dado às grandes contribuições ao cinema indiano), o Padma Vibhushan, em 1999, e o Bharat Ratna, em 2001. Além destes de extrema importância, Lata recebeu outras dezenas de prêmios e reconhecimentos por seu trabalho.

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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dunno Y, o beijo gay e a censura

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Já não é de hoje que essa polêmica existe e que falamos dela por aqui. Para um país que descriminalizou a relação homossexual há pouco mais de um ano, não é difícil imaginar como essa questão é um tabu desmedido na Índia.

Bom, e faz um tempo havíamos falado do filme chamado I Am, composto por curtas que, dentre os quais, um abordaria um casal gay e teria cena de beijo, inclusive, com nada mais que Rahul Bose no papel principal. Dessa vez, porém, a polêmica é maior porque Dunno Y... Na Jaane Kyon (Não Sei Porque) é um filme inteiro sobre essa temática, abordando em alguns momentos cenas de muita intimidade entre dois homens - um casal homossexual.

Embora já pronto, já exibido em um festival na própria Índia (o Mumbai International Queer Film Festival) e também já inscrito em outros festivais pelo mundo, a censura do governo indiano está pedindo que tais cenas de muita intimidade sejam cortadas ou refeitas para que Dunno Y possa então entrar em cartaz no país. 

Isso não necessariamente estragaria o filme, se tivermos como base a sensibilidade que tem, por exemplo, My Brother... Nikhil (2005), cujo personagem principal, Nikhil, é gay e contrai o vírus HIV. Ao contrário de casos anteriores, Nikhil e seu parceiro, Nigel, não são estereotipados, mas também não há cena alguma de beijo ou outro tipo de intimidade maior. 

Mas o que Dunno Y revela, assim como outros casos recentes do cinema indiano, como LSD (2009), é que ainda há um caminho muito longo pra ser percorrido até que um cineasta indiano consiga a liberdade plena de realizar sua arte à vontade, sem interferências, dentro do próprio país.

De qualquer forma, é importante que fique claro que o órgão de certificação do cinema indiano (leia-se de censura), controlado pelo governo, não impõe suas ordens do nada e por manipulação de cima pra baixo. Isso é um reflexo puro da própria sociedade do país.

O maior exemplo que se pode observar, neste caso em específico, diz respeito ao próprio ator que fez um dos personagens do casal gay de Dunno Y. Yuvraj Parasher foi simplesmente deserdado da família, literalmente expulso do núcleo familiar, assim que maiores polêmicas surgiram pelo país inteiro ao ser anunciado o filme.

O outro ator, Kapil Sharma, não sofreu efeitos desse tipo porque, afinal, ele é também o autor do roteiro original, além de ser irmão do diretor, Sanjay Sharma. Yuvraj não teve a mesma sorte familiar, ainda que, ao que indiquem as coisas, ele seja hétero. Cinema, na Índia, pode ser coisa mais séria do que a gente pensa.

Mas as repercussões com esse filme não se resumem somente ao fato de ter um casal gay como personagens principais - e que ainda se beijam -, mas também por ter contado com uma estratégia quase imbatível de convencimento: o elenco do filme, com exceção dos próprios protagonistas, é composto por estrelas das mais brilhantes que o cinema indiano já teve em sua história. Atrizes como Zeenat Aman e Helen, por exemplo, que são unanimidade dentre os indianos por seus trabalhos no cinema em décadas passadas, estão presentes. O ator Kabir Bedi, também unânime, faz parte do elenco. Ou mesmo do presente, como Rituparna Sengupta, que é a mais famosa atriz bengalesa do momento, também aparece no filme. 

Enfim, mas ainda assim, a polêmica existe e é grande. Não sei por quê, I really dunno y.
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domingo, 26 de setembro de 2010

Mostra Cinema Indiano Contemporâneo em Brasília

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Brasilienses, agora é a vez da capital do país receber a Mostra Cinema Indiano Contemporâneo na Caixa Cultural, de 25 a 30 de setembro, com sessões gratuitas. Oportunidade que não deve ser desperdiçada!

A edição da mostra em Brasília ocorre no Teatro da CAIXA Cultural Brasília – SBS Quadra 4, lote 3/4, anexo do edifício Matriz da CAIXA.

Confiram a programação:

Sábado – 25.09
14h - Três idiotas, de Rajkumar Hirani (03 Idiots, Índia, 2009, 164 min, livre)*
17h - Lagaan - a coragem de um povo, de Ashutosh Gowariker (Lagaan - Once Upon a Time in India, Índia, 2001, 224 min, livre)*
21h - Laços, de Nagesh Kukunoor (Dor, Índia, 2006, 145 min, livre)

Domingo- 26.09
14h – Iqbal, de Nagesh Kukunoor (Iqbal, Índia, 2005, 127 min, livre)*
17h - Um beijo na bochecha, de Mani Ratnam (Kannathi Muthamuttal, Índia, 2002, 130 min, livre)*
19h30 - Como estrelas na Terra, de Aamir Khan (Taare Zameen Par, Índia, 2007, 165 min)

Segunda- 27.09
14h - Maqbool, de Vishal Bhardwaj (Maqbool, Índia, 2003, 132 min, 12 anos)
17h - Siga em frente Munna Bhai, de Rajkumar Hirani (Lage Raho Munna Bhai, Índia, 2006, 144 min, livre)
20h - Devdas, de Sanjay Leela Bhansali (Devdas, Índia, 2002, 180 min, 12 anos)


Terça-feira - 28.09
10h - Sessão especial infanto-juvenil para escolas: Como estrelas na Terra, de Aamir Khan (Taare Zameen Par, Índia, 2007, 165 min)
14h - Confinados, de Mrinal Sen (Antareen, Índia, 1994, 90 min, livre).
16h - Dança das sombras, de Adoor Gopalakrishnan (Nizhalkkuthu, Índia, 2002, 90 min, livre)
18h - Três idiotas, de Rajkumar Hirani (03 Idiots, Índia, 2009, 164 min, livre)
21h - Sr. e sra. Iyer, de Aparna Sen (Mr. & Mrs. Iyer, Índia, 2002, 120 min, 12 anos)

Quarta- 29.09
10h - Sessão para escolas- infanto juvenil: Como estrelas na Terra, de Aamir Khan (Taare Zameen Par, Índia, 2007, 165 min)
14h- Lagaan a coragem de um povo, de Ashutosh Gowariker (Lagaan - Once Upon a Time in India, Índia, 2001, 224 min, livre)*
18h - Laços, de Nagesh Kukunoor (Dor, Índia, 2006, 145 min, livre)*
20h30 - Como estrelas na Terra, de Aamir Khan (Tare Zameen Par, Índia, 2007, 165 min)

Quinta - 30.09
14h - Um beijo na bochecha, de Mani Ratnam (Kannathi Muthamuttal, Índia, 2002, 130 min, livre)

Obs. Todas as sessões com * contarão com bate papo com a curadora da mostra.

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domingo, 19 de setembro de 2010

Zubeidaa (2001) - ज़ुबैदा

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Zubeidaa é definitivamente um filme muito curioso. Eu tenho um pouco de dificuldade de dizer que o filme é realmente bom, mas de alguma maneira ele me cativou e certamente está na lista dos que gostaria que todos assistissem se querem mesmo entender mais do cinema indiano.

A verdade é que cada vez que vejo um filme indiano que fala sobre o próprio cinema indiano me dá uma sensação de que o que nós sabemos dessa indústria absurdamente grande e tão antiga é mesmo um nada. Daí isso colocado nas mãos de um Shyam Benegal, que sabe fazer as coisas com uma certa inegável maestria, e com trilha composta por A.R. Rahman, cujo efeito-emoção de suas músicas não se questiona, temos então uma obra verdadeiramente cativante. Sem contar algumas músicas cantadas por Lata Mangeshkar, que trazem uma estranha nostalgia desconhecida bem no meio da espinha.

Bom, e pra ajudar tudo, embora ficção, Zubeidaa é inspirado em fatos reais, o que torna a história um pouco mais interessante. O filme é escrito por Khalid Muhammed, filho de Zubeida Begum, uma mal-sucedida atriz e desastrada mulher que acabou por se casar com o Marajá de Jodhpur na metade do século XX.

Logo no começo do filme conhecemos Riyaz (Rajit Kapoor), filho de Zubeidaa, hoje jornalista e muito interessado em descobrir a verdadeira história de sua mãe. Aos poucos ele vai coletando informações, confrontando dados estranhos e imprecisos, de fontes já quase apagadas. Conforme ele vai juntando a história, descobrimos que Zubeidaa (Karisma Kapoor) era filha única de Suleman Seth (Amrish Puri), um famoso cineasta de Bollywood. Seu sonho era ser uma grande atriz e, escondida de seu pai, começa a atuar. Quando ele descobre, porém, a proíbe integralmente de entrar num estúdio e acaba por casá-la com um rapaz, contra todas as suas vontades.

Ela engravida de seu marido, mas, no dia em que ela dá a luz a Riyaz, problemas de família forçam seu marido a se divorciar dela. É então que Rose (Lillete Dubey), uma espécie de amante semi-oficial do pai de Zubeidaa, faz-se mais presente do que já era e introduz Zubeidaa a Vijayendra Singh (Manoj Bajpai), Marajá de Fatehpur, com quem mais tarde acaba se casando.

Acontece que o Marajá já era casado com Mandira Devi (Rekha), a rainha oficial, embora ele demonstrasse um significativo afeto por Zubeidaa. Mas o espírito livre - leia-se rebelde - de Zubeidaa logo mostra-se incompatível com toda a nova realidade que ela estava vivendo - ou talvez com toda realidade que ela fosse viver em qualquer que fossem as circunstâncias.

E o ideal é que eu pare a história por aqui. Riyaz vai aprofundando sua pesquisa até desvendar os últimos segredos, e é nessa procura que ficamos presos, sobretudo pela busca de um objeto em especial e absolutamente único - o único rolo de filme em que Zubeidaa havia gravado a única cena de dança, entregue em alegria e realização, e que estava desaparecido.

A maestria de Shyam Benegal foi reconhecida com o prêmio de melhor filme em hindi dado pelo National Film Awards, em 2001. E a brilhante atuação de Karisma Kapoor também não ficou de fora; ela levou o prêmio de melhor atriz pela crítica no Filmfare Awards, mais do que merecidamente. E, por fim, Zubeidaa faz parte de uma trilogia+1 de Shyam Benegal, sobre filmes que tocam em questões islâmicas. O primeiro foi Mammo (1994), o segundo foi Sardari Begum (1996) e o terceiro foi Zubeidaa. O +1 apareceu agora em 2010, com o filme Well Done Abba.
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Repescagem da Mostra Cinema Indiano Contemporâneo no MAM do Rio

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Amigos, pra deleite dos fãs de cinema indiano do Rio de Janeiro - e ainda pra alegria dos que perderam a mostra de agosto - o MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio irá receber uma repescagem com alguns dos filmes que estiveram na mostra mês passado, na Caixa Cultural.

E a repescagem já começa nessa quinta feira, dia 16 de setembro, às 18h30, com Dil Chahta Hai, e termina no dia 26, com a exibição de Koi... Mil Gaya. Serão oito filmes reexibidos agora no MAM, mas que não irão ter mais de uma sessão cada. Portanto, programem-se e bora pro Aterro do Flamengo ter mais um respiro de cinema indiano em terras cariocas.

quinta 16, 18h30

Faça o que o seu coração mandar (Dil Chahta Hai), de Farhan Akhtar. 

Índia, 2001, 183 minutos. Classificação livre. Legendas em espanhol.

A
história de três amigos de faculdade e a transição para a vida adulta. Cada um deles tem uma perspectiva totalmente diferente da vida e do amor. Protagonizado pelo admirável Aamir Khan. O filme se destaca pela linguagem bem contemporânea nos números musicais, que incorpora a cultura dos jovens da classe média metropolitana que freqüenta discotecas. Premiado como Melhor Longa-Metragem no National Film Award de 2002. Baseado em anotações do diretor e roteirista Farhan Akhtar sobre suas viagens à Goa e sobre o mês que ele passou em Nova York em 1996. Com Aamir Khan, Saif Ali Khan, Akshaye Khanna, Preity Zinta, Dimple Kapadia.


Sexta 17, 18h30

Zubeidaa (Zubeidaa), de Shyam Benegal. 

Índia, 2001, 150 minutos. Classificação livre.  Legendas em português.

Riyaz Masud é um jornalista que quer conhecer melhor a história da mãe, de quem não se recorda bem, e que faleceu misteriosamente. Através de depoimentos das pessoas que a conheceram e dos pertences que ela deixou para trás, o filme narra a descoberta da história de Zubeidaa, única filha de um cineasta muçulmano, que atuava em filmes secretamente. Capítulo final da trilogia biográfica feita por Benegal, que começou com Mammo (1994) e continuou com Sardari Begum (1996), baseada em histórias reais de mulheres indianas contadas por Khalid Mohammed, crítico de cinema que virou cineasta. O filme obteve o prêmio nacional de Melhor Filme de Longa-Metragem em hindi e prêmio da crítica de Melhor Atriz para Karisma Kapoor no National Film Awards. Com Karisma Kapoor, Rekha, Manoj Bajpai, Rajit Kapoor, Amrish Puri, Farida Jalal, Lillete Dubey e Shakti Kapoor.

 

sábado 18, 18h
Um beijo na bochecha (Kannathil Muthamuttal), de Mani Ratnam. 

Índia, 2002, 130 minutos. Classificação livre.  Legendas em espanhol.

O filme narra a história da pequena Amudha, uma menina adotada pelo casal Thiru e Indira, e criada com dois irmãos pequenos. Ela é uma criança feliz e não sabe a verdade sobre sua origem, até que o casal decide contar sobre a sua adoção no dia de seu aniversário de nove anos. Através do olhar de Amudha, Mani Ratnam apresenta um impactante e sensível retrato da ilha de Sri Lanka na época da Guerra Civil. Premiado no Festival de Toronto em 2002 e selecionado para representar a Índia no Festival de Cannes em 2004. Com R. Madhavan, Simran Bagga, J.D. Chakravarthy, Nandita Das, P. S. Keerthana e Prakash Raj.

domingo 19, 16h

Bombaim (Mumbai), de Mani Ratnam. 

Índia, 1995, 140 minutos. Classificação 12 anos.  Legendas em inglês.  

Shekhar é um homem de uma tradicional família hindu que, ao voltar de férias para a pequena aldeia em Tamil Nadu para visitar seus pais, apaixona-se por Shaila Bano, uma mulher muçulmana da região. Os dois casam-se contra a vontade das duas famílias, e se mudam para Bombaim, onde ele passa a trabalhar como repórter de um grande jornal diário. Pouco tempo depois o casal tem filhos gêmeos e a família começa a viver bem a sua nova vida. No entanto, as crescentes tensões religiosas trazem mudanças e ameaçam abalar e desagregar a família. O filme é baseado em acontecimentos reais ocorridos no sul da Índia durante o violento período de conflitos religiosos que ocorreu entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993 e causou grande controvérsia na pós-libertada Índia por representar conflitos inter-religiosos, tendo sua exibição banida em Cingapura e na Malásia. Foi uma das maiores bilheterias da indústria cinematográfica Chennai, tendo sido muito bem recebido pelo público e pela crítica. Com Arvind Swamy, Manisha Koirala, Tinnu Anand, Nasser, Sonali Bendre, Prakash Raj.

quinta 23, 18h30

Do coração (Dil Se…), de Mani Ratnam. 

Índia, 1998, 140 minutos. Classificação 12 anos.  Legendas em português.

Segundo a literatura árabe antiga, o amor é classificado em sete diferentes tonalidades: atração, paixão, amor, reverência, adoração, obsessão e morte. Essa é uma viagem através destas sete cores, num belo percurso estético e político através da história de Amarkant Varma, um homem que viaja pela Índia a serviço de uma rádio de alcance nacional, na tentativa de fazer entrevistas sobre o 50º aniversário da independência indiana. Numa de suas jornadas, apaixona-se por Meghna, uma misteriosa mulher que revelará-se envolvida em atentados terroristas. Premiado com uma menção especial no Festival de Berlim, é a última parte da trilogia que o diretor Mani Ratnam dedicou ao terrorismo. Foi o primeiro filme indiano a entrar no Top 10 das bilheterias na Inglaterra. Com Shahrukh Khan, Manisha Koirala e Preity Zinta.

Sexta 24, 18h30

Devdas (Devdas), de Sanjay Leela Bhansali. 

Índia, 2002, 185 minutos. Classificação 12 anos.  Legendas em espanhol.

Um dos maiores clássicos do cinema indiano, baseado no famoso romance homônimo do escritor bengalês Sharat Chandra Chattopadhyay. O filme conta a história de Devdas, que depois de muito tempo ausente, retorna à Índia, após concluir seus estudos em direito na Inglaterra. Sua família é muito rica e vive em uma mansão numa vila em Bengali, que têm como vizinhos uma outra família cuja filha Paro cresceu com Devdas. Dessa amizade entre os dois, nasce uma relação de amor que até os tantos anos distantes não foi capaz de apagar. Após o retorno de Devdas tudo parece correr bem para que ambos fiquem juntos, mas a família dele impede que o casamento aconteça, o que o leva a sair de casa e a seguir sua vida com sofrimento. O filme é a terceira filmagem deste clássico da literatura indiana, sendo esta a primeira versão colorida. Foi a mais cara produção indiana até o seu lançamento, consumindo quase 20 milhões de reais. Exibido no Festival de Cannes de 2002 e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2003. Com Shahrukh Khan, Madhuri Dixit, Aishwarya Rai, Jackie Shroff e Kirron Kher.

sábado 25, 16h

Lagaan – a coragem de um povo (Lagaan: Once Upon a Time in India), de Ashutosh Gowariker. 

Índia, 2001, 224 minutos. Classificação livre.  Legendas em inglês. 

É 1893 na vila de Champaner, no estado do Gujarat, em uma Índia sob o domínio britânico. A seca está castigando os camponeses e o Rajá (príncipe hindu) encontra-se com o comandante inglês da região, o Capitão Russel, para pedir uma redução dos impostos sobre a terra, chamada Lagaan. Sem explicações, o Capitão decide aumentar ainda mais os impostos e os camponeses, desesperados, vão pedir ajuda ao Rajá. Chegando à propriedade do Raja, os camponeses presenciam que o Rajá está assistindo a uma partida de críquete com o Capitão britânico, e um dos camponeses, Bhuvan, diz que o jogo é imbecil. Depois do comentário de Bhuvan, o Capitão propõe um desafio: a suspensão de três anos de impostos caso os camponeses vençam os ingleses numa partida de críquete. Bhuvan aceita a aposta, para desespero dos demais camponeses, pois a perda do jogo implicará num novo aumento das taxas. O filme é praticamente todo feito em cenários externos, fora de estúdios. Somando os prêmios recebidos, Lagaan levou quase 50 premiações, incluindo oito no Filmfare Awards e sete no National Film Awards, alé da indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

domingo 26, 16h

Você não está sozinho (Koi… Mil Gaya), de Rakesh Roshan.

Índia, 2006, 176 minutos. Classificação livre.  Legendas em português.  

Uma ficção científica de Bollywood. O cientista Sanjay Mehra inventa um computador capaz de entrar em contato com alienígenas. Sua felicidade logo é interrompida quando os cientistas de um centro de pesquisa zombam dele e se recusam a acreditar em suas descobertas. Quando está voltando para casa, acompanhado de sua esposa grávida, eles veem uma espaçonave e, na confusão, perdem o controle do carro e sofrem um acidente. Apenas a mulher sobrevive, e o seu filho, Rohit nasce com danos cerebrais. Anos mais tarde, Rohit já é um homem, mas com uma mentalidade de criança. Ele faz amizade com a filha do prefeito da cidade, Nisha e estabelece uma relação afetuosa com ela. Um dia, Rohit e Nisha encontram o computador de Sanjay e seguem as instruções dadas pela máquina. Na mesma noite, sua cidade é visitada por uma espaçonave e um dos alienígenas é deixado para trás. Muitos consideram que o filme é uma adaptação do conto “The alien”, escrito Satyajit Ray, que a princípio também originou E.T. – o extraterrestre (1982), de Steven Spielberg. Foi um grande sucesso na Índia, exibido também no Festival de Cinema de Jerusalém e no Festival de Cinema da Dinamarca. Com  Rekha, Hrithik Roshan, Preity Zinta, Rakesh Roshan, Rajeev Verma, Prem Chopra.
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domingo, 29 de agosto de 2010

Raajneeti (2010) - राजनीति

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Na safra um tanto pobre de filmes em 2010, Raajneeti apareceu como um significativo respiro pra quem esperava por filmes que nos prendesse do começo ao fim. O ânimo que se esperava por Paathshala, ou com Kites, trazendo de volta Hrithik Roshan desde Jodhaa Akbar, acabou não se cumprindo. É possível que o esmagador sucesso de 3 Idiots, no finalzinho de 2009 e começo de 2010 tenha obscurecido todas as chances seguintes de sucesso.

Bom, e então, no dia 4 de junho, Raajneeti estreou nos cinemas indianos e se confirmou como o maior sucesso do ano até este momento. Ainda assim, eu já me adianto e digo desde já que, na minha opinião, esse filme ainda não chega perto de obras como Dev.D ou Kaminey, ambas lançadas em 2009, e nem prende tanto quanto prendeu 3 Idiots. Mas é digno de ser visto, sobretudo pela incrível capacidade de reinventar um épico tão milenar e familiar aos indianos, trazendo-o para a contemporaneidade por caminhos próprios e inesperados.

Explico. Logo no começo somos apresentados em flashback a Bharti Rai (Nikhila Trikha) que, discordando dos ideais políticos do pai, governador do estado em que vivem, acaba se aproximando e se envolvendo com o líder político de esquerda, Bhaskar Sanyal (Naseeruddin Shah), que desaparece em seguida. No entanto, ele deixa Bharti grávida. Ao nascer o bebê, o irmão de Bharti, Brij Gopal (Nana Patekar), retira a criança sem Bharti nem sequer ter tempo de vê-la, e a coloca num cesto no rio. E é daí que somos jogados aos dias atuais e imediatamente introduzidos a Sooraj Kumar (Ajay Devgan), um destemido rapaz de 27 anos amado pelo povo por ser invencível numa espécie de luta marcial indiana, que me falha o nome agora. 

Quando isso ocorre, ainda no começo do filme, não tive como não fazer um paralelo com trechos do Mahabharata, o grande épico indiano, contado há milênios, mais precisamente com a história do nascimento de Krishna (e sim, e que pode também ser feito um paralelo muito semelhante com Moisés). E só depois fui descobrir que Prakash Jha, o escritor, produtor e diretor do filme, inspirou-se diretamente neste épico.

E então o filme prossegue. Bharti está hoje casada com Chandra Pratap (Chetan Pandit), irmão mais novo de Bhanu Pratap (Jahangir Khan). Bhanu, por sua vez, é líder do partido Rashtrawadi e acaba sofrendo um atentado. No hospital, ele passa a liderança a seu irmão, Chandra, e a seu sobrinho, filho de Chandra, Prithviraj Pratap (Arjun Rampal), pra desgosto profundo de seu próprio filho, Veerendra Pratap (Manoj Bajpai). Inconformado, Veerendra alia-se a Sooraj, vendo o apoio das massas que ele tem e o apelo que ele proporcionaria pra angariar votos. Acontece que Sooraj é filho do motorista da família Pratap, mas ninguém nessa altura sabia que ele mesmo era também da família Pratap, nem o próprio motorista, que havia pego ele na beira do rio.

Daí também conhecemos nesse rolo todo Samar Pratap (Ranbir Kapoor), irmão mais novo de Prithviraj, filho de Chandra. Samar tem uma namorada nos Estados Unidos, Sarah (Sarah Thompson), mas na Índia sua amiga de infância, Indu (Katrina Kaif), filha de um grande empresário, é apaixonada por ele e até mesmo a mãe de Samar desejaria vê-los casados um dia.

Bom, até essa parte o filme é razoavelmente confuso e temos que estar atentos às relações entre todos e ao que está se passando exatamente. As sequências são muito rápidas e é muito personagem pra gravarmos, cada qual com sua importância ímpar no filme.

Ímportância ímpar. É então após cerca de uma hora de filme que as coisas ficam verdadeiramente emocionantes. Aos poucos, sequências de assassinatos completamente inesperados começam a acontecer e o filme passa a ser um sobe e desce de personagens tomando a dianteira da história. Numa praticamente demoníaca corrida eleitoral pelo governo estadual, membros de uma mesma família não têm escrúpulos para defender o próprio ego, levando às últimas consequências a própria razão de estarem ali. E então o Mahabharata passa a fazer ainda mais sentido na história, embora sem manifestações divinas.

No fim das contas, fiquei extremamente surpreso com o filme. Prakash Jha, que tem em sua bagagem obras com enfoques sociopolíticos, fez seu primeiro grande hit de maneira primorosa. E também não critico a atuação de ninguém, ao contrário. Me surpreendi com Katrina Kaif, Ranbir Kapoor e com Arjun Rampal, este último ainda mais convincente. Aliás, e como o filme nos leva sempre a não esperar o que vem a seguir, há sempre na atuação de cada um um ar incógnito e dúbio que, méritos dados à direção de Prakash, esteve muito bem em Raajneeti.

Aliás, em muitos momentos fui obrigado a fazer um paralelo deste filme com outras duas obras indianas de Vishal Bhardwaj, Maqbool (2003) e Omkara (2006), que são filmes cheios de personagens, com muita violência e, principalmente, são releituras contemporâneas de histórias centenárias. E já que toco nessa questão, reafirmo minha predileção por Vishal em geral em relação a este filme de Prakash, tanto por estes dois filmes que citei agora quanto pelo também já citado Kaminey. Mas ainda assim Raajneeti é primoroso em construir o inesperado de maneira tão instigante.

E voltando a Raajneeti, é evidente que o filme não foi lançado sem ter sido alvo de controvérsias, a começar pela própria censura, que inicialmente barrou o filme. Prakash, então, tirou cenas com violência excessiva, cenas de sexo mais explícitas que o normal pro cinema indiano, além de trechos com ataques mais rudes à comunidade muçulmana. Ainda assim, Raajneeti segue com uma violência extrema e cenas razoavelmente íntimas, inclusive logo no começo.

O pior é saber que a Índia de fato tem históricos políticos muito semelhantes, de assassinatos dos mais terríveis pra derrubar quem quer que seja que possa estar próximo ao poder. Embora não fique explícito em nenhum momento, o filme se passa no estado de Madhya Pradesh, bem no centro do país. 

E em tempo, "raajneeti" significa nada mais que... "política". Bom, concluindo,  eu recomendo.

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