quarta-feira, 4 de março de 2009

Quem Quer Ser um Milionário?

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E finalmente fui assistir ao filme Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008), em pré-estreia, pois não aguentei esperar que ele estreasse oficialmente aqui em São Paulo (o que ocorrerá na sexta-feira próxima). Conforme prometido, farei aqui a minha crítica a esse filme, ganhador de 8 Oscars.

Bom, antes repetirei algumas informações já ditas. O filme é dirigido por Danny Boyle, um diretor britânico, com codireção do indiano Loveleen Tandan. É baseado no livro Q&A (2005), do indiano Vikas Swarup. No elenco do filme, temos o famoso Anil Kapoor como apresentador do Show do Milhão indiano (que embora não tenha feito nada de muito sucesso em Bollywood, atua desde 1979 e já recebeu alguns prêmios na Índia) e o outro também famoso Irrfan Khan, como o delegado. Eu também não posso deixar de lembrar que o ator que faz Jamal Malik (o protagonista) quando jovem, Tanay Hemant Chheda, é também quem faz Rajan Damodaran, o amigo de Ishaan Awasthi, em Taare Zameen Par.

Bom, e Quem Quer Ser um Milionário? acabou por ganhar 8 Oscars: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Canção Original e Melhor Mixagem de Som. Ambos os prêmios de trilha sonora e canção original foram entregues ao indiano A.R. Rahman de Chenai, Tamil Nadu, sucesso absoluto nas trilhas de Bollywood, virando orgulho nacional. Aliás, Rahman fez de fato um bom trabalho, em se considerando o que é o "normal" dele em Bollywood. As músicas desse filme, embora não se destaquem tanto, são bem sensíveis e bem construídas. "Jai Ho", a música que ganhou o Oscar de Melhor Canção, é até cativante, mas na minha opinião o próprio Rahman já fez coisa muito mais bonita e empolgante em Bollywood. Mas em se considerando o que se costuma premiar em Hollywood (músicas a la "My Heart Will Go On"), "Jai Ho" é divertidíssima e merecia o prêmio. No final dessa postagem vai o clipe dela.

E falando em orgulho nacional, devo dizer que os indianos tiveram uma reação muito estranha com esse filme. Por um lado, a primeira reação foi de ódio e raiva pela obra de Danny Boyle. Ódio por não verem o que há de bonito na Índia ali na telona, segundo eles mesmos. Ódio por mostrar uma Índia muito feia; feia no sentido material, suja, bagunçada, fedida... mas mais feia ainda no sentido espiritual, rompendo com uma imagem por muitos ainda solidificada, e revelando uma estrutura social e espiritual pra lá de corrompida, mais suja e fedida que a própria realidade material. E os indianos não gostam de saber que eles são assim, não gostam mesmo. Indiano só gosta do que há de progresso na Índia, da Índia que constroi o futuro, e também da Índia que já foi, a que inventou a matemática, a medicina, a astrologia e astronomia, a navegação, a universidade, a música e muito mais. Mas a realidade presente, feita por eles neste momento, isso eles não querem saber. E nem sabem que são responsáveis também.

Eu falo isso, mas sei também do que temos por aqui. Digo isso antes que receba críticas por falar dos outros. Eu reconheço, por exemplo, o que aparece nos filmes nossos que tanto sucesso fizeram, como Central do Brasil e Cidade de Deus, de Walter Salles e Fernando Meirelles, respectivamente. Ambos vão pra estética da pobreza, é verdade, mas mostram a realidade e reconhecemos isso, não temos ódio. E o filme de Meirelles, tanto dito ter inspirado Danny Boyle, eu discordo. São formas diferentes de direção e edição. Pode ter havido alguma coisa inspirada, mas só alguma coisa.

E finalmente, minha opinião é que o filme é bom e somente bom. Eu não daria um Oscar de Melhor Filme a ele. Fiquei com a profunda sensação que a Academia quer agora tirar o foco mundial da China e tranferir para a Índia. Me pareceu demais uma grande jogada política-econômica, isso sim. O roteiro não é assim tão complexo, muito pelo contrário. A direção não achei tão original, muito pelo contrário. A trilha sonora é mesmo boa, mas nada excepcional (ou será que esse ano não havia nada melhor mesmo?). E a fotografia, daí sim, essa merecia.

Eu acho que talvez Danny Boyle tenha um mérito que seja de fato uma tentativa de convergência entre as estéticas do cinema ocidental e de Bollywood. Muitas das técnicas de edição utilizadas nesse filme são mesmo de Bollywood. Algumas cenas com a câmera acelerada, de maneira um pouco tosca até, lembra muito o tosco que por vezes faz Bollywood em cenas de ação. A história, ou seja, o enredo, é muito simples, na verdade. O filme é muito simples, tentando ser bonito, até. Se por um lado os indianos odeiam a realidade mostrada no filme, eu diria que é muito mais interessante a realidade que mostra Quem Quer Ser um Milionário?. O filme inteiro se desenrola com o personagem principal, Jamal Malik (Dev Patel), provando que as duras circunstâncias de sua vida construíram a sua sabedoria. Pra mim essa é a grande beleza do filme, embora chegue a tender até pra um tanto brega. Mas isso é universal, e é também muito bonito vermos como o ser humano é de fato igual em qualquer lugar. Somos muito bonitos e muito horrosos em qualquer lugar do planeta. Em alguns locais temos algumas complexidades sociais a mais, e a Índia é um campo fértil pra complexidades.

E na questão da direção ter-se baseado em alguns fatores de Bollywood, eu diria até que há inspirações além. Num dado momento do filme, Jamal combina com sua amada que ele estará sempre na mesma estação de trem, no mesmo horário. E no mesmo momento que vi isso, imediatamente lembrei-me do filme alemão Sombras do Passado (Shadows of Time, 2004), também rodado na Índia, que tem como enredo os desencontros de um casal apaixonado, e que em um dado momento o garoto combina com a amada que estará todos os dias no mesmo local e no mesmo horário, até o dia que ela aparecer.

Mas fora tudo isso, o filme mostra uma realidade muito interessante - e muito real. Eu vi com meus próprios olhos a polícia corrupta da Índia, e mais de uma vez. Eu sofri as consequências diretas da malandragem indiana, friamente mostrada no filme, e me assustei com as favelas de Mumbai. Na vida real, o pai do pequeno Azharuddin Mohammed Ismail, que fez o pequeno Salim quando criança, surrou o coitado em pleno público (veja aqui). Na vida real, a mãe da pequena Rubina Ali, que fez Latika criança, reclamou que Danny Boyle poderia também dar uma casa a eles, não apenas o generoso salário, educação e saúde até que fiquem adultos (veja aqui). Parece-me que o diretor acatou a "sugestão".

O resumo é que o filme vale a pena ser visto. Se não há assim tanta coisa que o destaque efetivamente, vale muito pelo que ele vem representando nessa mobilização mundial que se criou. A reação é mesmo ambígua, mas as vezes a ambiguidade tras mais coisas a nós do que aquilo que identificamos mais facilmente.

Abaixo vão o trailer do filme e a música que ganhou o Oscar (com a letra, em hindi).





16 comentários:

Lica disse...

Olá Ibirá, tudo bem?
Bem me interessei por cinema indiano depois da explosao deste filme e achei teu Blog mega super bem feito pelo google quando procurei musicas doca minho das indias.
A Explosao da india na midia é um fato. Eu me encantei com o filme, mas entendo a sua decepção com apobreza, eu que nao entendo nada de cinema indiano, mas sei que é o mais forte do mundo, fiquei pasma com a pobreza, mas eu realmente amei o filme, o romance e as historias das 3 crianças e a mudia jai ho demais de fofa...rs mas preferi a do wall e... rs;
Pergunto a vc onde achoe stes filmes da india q vc cita para assitir, tem cinema indiano aqui em SP?
Alguma loja?
Bjokas
Lica
licacowgirl@gmail.com
me responda please

Ibirá Machado disse...

Olá Lica,

Bom, quase 100% dos filmes indianos que assisto eu baixo da internet, tanto pelo Emule quanto pelo uTorrent (pode ser outro de torrent!). Infelizmente aquio no Brasil não há distribuição de filmes indianos, com raríssimas exceções. Se você for de São Paulo, até dá pra encontrar uma coisa ou outra em algumas locadoras com acervo mais variado, como a 2001 ou a Century. Dá pra achar Ashoka, por exemplo, que é mesmo de Bollywood. Mas fora isso, também dá pra encontrar alguns filmes da Deepa Mehta, como "Água" (Water), "Fogo e Desejo" (Fire) e Earth:1947 (esse não sei o nome em português). Também tem os filmes da Mira Nair, como o "Um Casamento à Indiana" (Monsoon Wedding) e alguns outros. Mas essas duas, apesar de serem indianas, não moram na Índia e são diretoras independentes, ou seja, fazem filme ocidental com temática indiana, nada a ver com Bollywood ou outra indústria da Índia.

Ou seja, baixar na internet é realmente a única opção por enquanto viável. E pra complicar, na maioria dos casos você só vai encontrar com legendas em inglês. Caso você fale inglês então isso não será problema...

Carlos disse...

Bom, que a Academia "do Oscar" dá seus prêmios a bons filmes e não a magníficos filmes é uma constante. Achei desde o começo uma jogada muito política também, apesar de não conhecer tanto de cinema assim.
Ainda estou curioso para ver o filme, porque gosto de produções Indianas e com essa temática também, apresentando ao povo um lado verdadeiro e não mascarado do nosso mundo.

Profª Sandra Bose disse...

Por favor fale algo sobre o curta Smile Pinki que coloquei no meu blog. De a ficha tecnica etc pois creio que merece uma postagem sua.
Om Shanti

Profª Sandra Bose disse...

Eu creio que o filme recebeu o Oscar merecidamente pois teve a coragem de fazer o que faco, ou seja, mostrar a verdadeira India, e isso nao tem preco! O mundo precisa saber e conhecer as atrocidades que sao diariamente cometidas aqui.
Agora vc vai discordar mas o que menos merecia o Oscar foi justamente a musica Jai Ho e a trilha sonora que eh HORRIVEL. Ha musicas LINDAS aqui em Bollywood e estas foram bem fraquinhas, logo se ve que ocidentais nao conhecem nada de nossas belas musicas indianas.
Om Shanti

Ibirá Machado disse...

Sim, eu não só acho que o Oscar é merecido por isso, mas também por realizar a convergência cinema ocidental-Bollywood. Mas em termos de cinema é que eu não daria o prêmio. O filme é bom, como eu disse, mas vale mais pelo entretenimento do que pela exuberância da arte. Enfim.

E em relação à trilha sonora, eu não discordo de você, não, Sandroca. E o próprio Rahman já fez tanta coisa melhor. A trilha do Jodhaa Akbar, por exemplo, é linda e é dele, mil vezes melhor que a do Slumdog. MAS, de novo eu tive que relativizar. A Índia é um mundo e o ocidente é outro. Slumdog, com a convergência realizada, levou ao ocidente a música de Bollywood, que, embora de menor qualidade que o normal, é bem melhor e mais interessante que as melosas músicas-temas hollywoodianas a la My Heart Will Go On, como eu disse. As músicas que vinham ganhando o Oscar eram um saco e sempre muitíssimo parecidas. Jai Ho, embora não empolgante mesmo, quebra com tudo isso.

Espero que agora coisas melhores venham nessa esteira. Slumdog é apenas um símbolo de um movimento há tempos desejado, seja ele bom ou não. Da mesma maneira é a trilha do filme.

FRIZERO disse...

Sejamos francos:
1. "Jai Ho" era a melhor canção concorrendo ao oscar este ano e, portanto, mereceu o prêmio. O "Oscar" não é um Festival da Canção, muito menos da Canção Indiana, e não tem obrigação nenhuma de premiar quem não foi indicado... Vocês dariam o prêmio para aquela coisa melosa que era a canção de "Wall-e"? :)

2. O filme inspira-se claramente, em termos visuais, no nosso "Cidade de Deus" - o próprio diretor já declarou ser fã do trabalho de Meirelles;

3. O Oscar é uma premiação norte-americana; por sua fama e prestígio construída ao longo de décadas, acabou se abrindo, há muito tempo, para o cinema de outras partes; a indicação de diretores e atores em filmes falados em outras línguas que não o inglês é, para mim, sinal de que Hollywood reconhece seu talento ao ponto de não indicar alguém de seu próprio "clubinho"; mas o Oscar não é a festa do cinema mundial, que tenhamos isso claramente - é a festa do cinema norte-americano, com generosa abertura para o cinema inglês e laivos de reconhecimento para o cinema de outras partes; mas nunca, por exemplo, uma Fernanda Montenegro ganharia um Oscar de Melhor Atriz, pois não há interesse do mercado cinematográfico norte-americano nisso;

4. Eis o ponto principal: interesse mercadológico. Hollywood sabe que a Índia é a grande produtora de cinema do mundo, um cinema que não depende de Hollywood e seus distribuidores internacionais para sobreviver; parece que agora, por fim, está premiando em "Slumdog Millionaire", toda a tradição do cinema da Índia; pena que Hollywood precisa fazer isso por meio de uma produção INGLESA, de um diretor INGLÊS... Eu torci por "Lagaan" há alguns anos, mas não levamos, enfim... :)

5. "Slumdog Millionaire" não é um filme excepcional (é bom, cativa, eu particularmente gostei, mas não é extraordinário como "O Leitor") para merecer um Oscar de Melhor Filme; mas "Rocky, um lutador" também não era... :))

Abração a todos, em especial ao Ibirá, que nos dá este espaço para trocarmos idéias sobre esse cinema que não chega às telas brasileiras!

Ibirá Machado disse...

Frizero, muito obrigado por esse seu comentário! Nem preciso dizer mais nada, é exatamente isso que penso!

Abração pra você também!

Luiz लुइज़ disse...

Acabo de chegar do cinema, e finalmente assisti o filme.
Olha, vou te falar que gostei bastante dele viu. Até estava esperando menos. Não é o filme da minha vida, mas acho que foi um belíssimo trabalho em todos os sentidos.

Concordo com o que vcs falaram da trilha sonora. Eu achei Jai Ho simpática, mas com certeza o Rahman jah fez coisa MTO melhor (Jodhaa Akbar foi um ótimo exemplo), mas como um primeiro filme pseudo-india-export acho que já valeu bem a pena.

Ibirá Machado disse...

Hahahaha, pseudo-india-export foi o melhor...

Amanda disse...

chavaliiiiiiiin, vamos lah rs
vc bem sabe que eu nao concrdo com muita coisa do q esta escrito aqui (claro q vc sabe) mas uma coisa eu nao posso deixar de dizer: nao importa, na verdade, se as musicas de compositor sao isso ou aquilo, se o co diretor eh indiano, se o Boyle teve coragem de mostrar qquer coisa, etc etc etc.... nao importa a temática, esse é um filme britanico, dirigido por um britânico e (meu deus!) com uma estética britânica... e esse eh o ponto principal.
as musicas nao precisam ser boas para fazerem parte do filme e menos ainda para ganharem um Oscar, elas precisam sim, estar em sintonia com o filme (por isso tanto faz o q o compositor fez antes, em Bollywood ou nao); sobre a direçao e a edição do filme lembrarem um pouco Bollywood, eu acho que antes de falar sobre isso, é melhor assistir a outros filmes do diretor (trainspotting e shallow grave, principalmente); a temática desses filmes nao tem nada a ver com a India, muito pelo contrário, sao filmes independentes britânicos, e neles a camera celerada e os enquadramentos do Boyle ja existiam (e shallow grave, por exemplo, jah tem 14 aninhos de idade, nao eh uma novidade).
e é lógico que eu discordo (e muito) sobre o filme nao ter tanta coisa que o destaque. ao contrário dos outros filmes que concorriam ele teve sim vários destaques (e nao soh um destaque em especial); eu detesto o Oscar, mas dessa vez (feliz ou infelizmente) eles acertaram... e, ainda bem, eles nao premiaram um filme indiano!

(e vamos tomar chá qdo mesmo? rs)

sheila alvarenga gogoi disse...

Ibirá, vc acredita q eu só vi este filme hoje??? Justamente qdo estreou em Salvador,eu tava na India. Acabei de assistir o DVD que trouxe de lá, e me DECEPCIONEI. Achei o roteiro bobooooo, Dan Boyle já fez coisa muito melhor! Eu reparei que só quem achou o filme maravilhoso é quem nunca teve contato com a cultura indiana, então deve achar tudo exótico, novo.
Eu achei que não merecia tantos Oscars assim... tá na cara que foi jogada de Hollywood, até o cantor cego do filme vê isso!

madhu disse...

É um bom filme...
Mas gosto muito também de Delhi-6 (que tb chamam de "Massakali")filme lançado em 2009. Gosto de Delhi 6, pois tb mostra algumas coisas absurdas da India, como a ignorância regida pela religião, a fé cega, a ingenuidade das pessoas ao acreditarem no macaco negro que ataca as pessoas no filme, mostra o abuso de poder da polícia (geralmente muito corrupta na India, assim como no Brasil) hehe. Aborda tb o casamento arranjado e negociação do dote, etc... E o mais legal, é saber que o filme foi todo feito por indianos. Quase uma auto crítica. Assistam, vale a pena!

=)

Ibirá Machado disse...

É verdade. Logo vou falar sobre Delhi-6, ele é bem excelente nessa questão da autocrítica :)

Soraia disse...

E Jodhaa Akbar não ter nenhuma indicaçãozinha??? Fotografia, Figurino, Canção, Melhor Filme Estrangeiro, qualquer coisa... mas naaaada, é difícil de engolir. Ah, não me conformo com isso.

Ibirá Machado disse...

Não nos conformamos. No mínimo poderia concorrer a melhor figurino.