segunda-feira, 17 de maio de 2010

Entrevista com Atul Kumar

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Conforme havia sido anunciado na postagem sobre o espetáculo The Blue Mug, que ocorreu aqui em São Paulo há duas semanas, hoje trago a entrevista concedida a nós pelo diretor da peça, Atul Kumar

Numa conversa super descontraída, Atul contou-me como é viver do teatro na Índia e como foi a preparação do espetáculo The Blue Mug, antes e depois dos atores serem famosos, dentre outras coisas. A entrevista foi originalmente feita em inglês, e ao vivo. Isso significa que esta versão aqui presente está transcrita, ligeiramente editada e traduzida. Confiram!

Cinema Indiano: Atul, muito obrigado por essa oportunidade. Por favor, faça um pequeno resumo de como você chegou ao mundo do teatro.

Atul: Isso começou na escola, quando costumávamos fazer algumas peças. Nós fazíamos outras coisas, como esportes e outras atividades, mas isso realmente tomou minha atenção. E então... eu cresci em Delhi, eu nasci lá. Um dia eu estava vendo uma peça de teatro, numa noite e o Rajat Kapoor estava na plateia também. Ele me viu, chegou até mim, viu esse rapaz novo assistindo o espetáculo, perguntou se eu estava interessado em teatro e eu disse "sim!". Rajat fazia parte de um grupo maior e perguntou-me se eu não queria juntar-se a eles. No dia seguinte eu já estava lá. E então 15 anos se passaram e nós fizemos várias peças juntos e pra mim isso ficou sem volta. Foi assim que tudo começou, em 1984.

CI: E então você começou atuando?

A: Sim, e eu ainda atuo. Eu sou principalmente ator, mas amo dirigir, faço as duas coisas.

CI: Desde 1984 você só faz teatro?

A: Apenas teatro, não fiz nada mais.

CI: Você gostaria de ir pro cinema?

A: Não, não... eu amo assistir filmes, mas eu ficaria muito cansado com cinema. Na verdade eu fiz um filme ou outro, mas não gostei. Eu achava muito chato. Amo assistir, mas o processo de fazer cinema não me atrai em nada.

CI: Mesmo se for pra dirigir?

A: É muito técnico, tem muita espera... no teatro eu tenho a reação imediata da plateia, entende? É vivo, são meus atores pessoalmente, é emocional, é menos técnico... eu prefiro isso. Eu vejo beleza nisso, na coisa do momento, gosto disso.

Mas amo bom cinema. É lindo assistir e reassistir os filmes, comprar DVDs, ou se há um festival de cinema eu posso ir e assistir. Ver Chaplin de novo, Casablanca de novo, o que seja, entende? É bonito ver e rever eles. Mas... são coisas diferentes, na verdade. O público é completamente diferente. O teatro é vivo e essa é a beleza. Se você comete um erro, será um erro. E ele fica pra sempre. É um bonito momento que vem e passa.

CI: Então vamos falar do Blue Mug. Vocês começaram em 2002, certo? Quem teve essa ideia?

A: Eu li o livro "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu" [The Man Who Mistook His Wife For a Hat], de Oliver Sacks, que é um neurologista do Reino Unido. O livro tem um monte de ensaios, que são histórias de seus próprios pacientes, e a maioria fala sobre anormalidades do cérebro. Algumas sobre perdas de memória, outras sobre perda de movimentos do corpo. Daí a parte da perda de memória realmente me atraiu e eu fiz todos lerem essa história. Eu ficava me questionando sobre o que fazer com essa história. Então percebi que não seria legal atuarmos a história, mas sim basearmos-nos nela e explorarmos nossas próprias memórias, nossas próprias perdas de memória. E daí foi assim que o processo começou.

CI: Quem escreveu a peça?

A: Nós não escrevemos. A peça é improvisada. Os atores vão ao palco e começam a narrar suas próprias memórias. Então ontem à noite [no espetáculo em São Paulo], por exemplo, houve muitas coisas que eles disseram que eles nunca tinham dito antes. E de novo na próxima apresentação, em Chicago, haverá novas coisas. Apenas as memórias que eles contam são fixas, mas o jeito que eles contam elas sempre muda. Não há roteiro escrito.

CI: Na apresentação de São Paulo não tivemos Konkona Sen Sharma. Como vocês se viraram?

A: Na verdade a Konkona já não estava nas últimas três apresentações. Ela ficou doente na apresentação de Nova Iorque. Ela foi operada e teve de ficar de cama. Talvez a tenhamos no próxima apresentação, mas não temos certeza. Bom, no começo eu estava em pânico, mas logo tive a ideia de me colocar no lugar de Konkona e eu fiz o médico no microfone. E é esse o papel dela no espetáculo, ela vai no palco e faz o médico, ao lado do Ranvir. Então conseguimos nos virar. Mas ela faz muita falta, a peça toda sofre porque ela não está, claro. Ela é uma ótima atriz.

CI: Considerando que em São Paulo a comunidade indiana é muito menor se comparado às cidades dos Estados Unidos, e que aqui as pessoas não conhecem o cinema e atores indianos, posso imaginar que aqui vocês tiveram uma experiência muito diferente. Fale um pouco sobre isso.

A: Eu vou dizer sobre meu ponto de vista, com sinceridade. Quando fizemos esse espetáculo em 2002, esses atores eram rostos desconhecidos e as pessoas vinham ver o espetáculo pelo espetáculo. Quando retornamos nos anos recentes, primeiro na Índia, depois no Oriente Médio e agora nos Estados Unidos, posso dizer que algo em torno de 75% a 80% do público vem principalmente pra ver seus atores favoritos no palco. Mas isso é bom, ou seja, se eles são famosos, são rostos conhecidos e trazem audiência, por que não?

Mas sempre há um pequeno grupo que vem apenas pra ver o espetáculo, pra apreciar a peça. Então fica um pouco difícil de saber no meio da plateia quem está se conectando a que, se a pessoa realmente se conectou à essência do espetáculo ou se houve apenas uma ligação superficial com seus astros do cinema. Então, de certa maneira, pra mim, ontem [na apresentação em São Paulo] foi fabuloso. Pra mim foi muito bom. Ninguém conhecia direito os atores, eles eram apenas atores, o público não sabia muito que eles eram estrelas de cinema. Então nesse sentido achei muito bom.

Mas isso também é um desafio pra gente. Eu geralmente faço peças que são muito mais físicas, visuais, e então se o espetáculo é em alguma língua específica não tem problema, já que pela linguagem corporal nós podemos nos comunicar com diferentes públicos. No entanto, essa peça é extremamente verbal, e é extremamente voltada ao público indiano, às suas memórias passadas. Então ela funciona muito bem na Índia, porque eles podem facilmente se comunicar a essas memórias, assim como nos locais fora da Índia onde haja a diáspora indiana.

Eu recebi uma oferta pra ir pro Festival de Edimburgo com esse espetáculo e eu tive de recusar. A peça não funcionaria ali simplesmente por ser muito verbal e ali haveria um público internacional que não se conectaria a ela. Se eu fosse levar a peça ao Festival Edimburgo eu teria de refazê-la, fazê-la menos verbal e deixá-la mais visual. Mas eu não quis fazer isso. Então a peça funciona nos Estados Unidos, vai funcionar no Reino Unido, quando formos em outubro pra lá, porque lá há a diáspora e o público vai poder se conectar às memórias... na África do Sul igual... mas com as plateias que não são indianas eu acho um tanto difícil de se comunicar nesse caso. As memórias são universais, mas eu tenho que encontrar a linguagem de cada público, talvez mais corporal, talvez mais visual, o que eu sempre costumo fazer com meus espetáculos, mas não nesse caso.

De repente eu poderia mudar o Blue Mug e deixá-lo sem falas, apenas linguagem corporal, apenas movimentos, alguma coisa que fizesse a plateia entender sobre a perda de memória... [nessa hora o Atul fez uma mímica com o corpo e o rosto mostrando como isso pode ser feito sem fala] Isso é memória, isso é perda de memória, entende o que digo? Não preciso falar nada pra fazer você me entender, porque a ideia é se comunicar, se eu perder alguma coisa eu posso te mostrar isso usando outras linguagens. Há milhões de maneiras de se comunicar, eu não preciso usar a fala.

CI: Você trabalha somente com teatro. Como é isso na Índia? No país do cinema, como é o público para o teatro?

A: Há um imenso público pra teatro em toda a Índia. Teatro é muito popular por lá. E há muitos tipos de teatro, também. Há o teatro clássico, que é basicamente o teatro religioso e que há em cada vila, há o teatro folclórico e que está sempre presente em festivais em toda a Índia, mas não estamos falando nem de teatro clássico e nem do folclórico. Estamos falando do teatro moderno. O teatro moderno era muito popular em Delhi pós-Independência, em 1947. Depois mudou-se pra Calcutá e agora é muito popular em Mumbai e Bangalore. Hoje, essas duas cidades abrigam o maior número de companhias de teatro e de espetáculos. Mas ainda assim há muito acontecendo em Pune, Delhi, Chennai, Hyderabad, Calcutá e em cidades menores. Há milhares de grupos de teatro. 

Eu li no guia cultural de São Paulo que vocês tem entre 50 a 60 peças acontecendo todos os dias na cidade! Em Mumbai e Bangalore é mais ou menos assim, há muitos espetáculos acontecendo... e lá nós temos a tradição antiga do teatro, o que ajuda muito a garantir nossa audiência. Mas o teatro não é profissional, quer dizer, cerca de 90% das pessoas que fazem teatro pagam do próprio bolso e na verdade acabam tirando o sustento de outra coisa. Então isso não é profissional, não é uma indústria, como é Bollywood, e acaba sendo necessário muito esforço pra sustentar isso, e mesmo assim as pessoas continuam fazendo teatro, porque sempre há maneiras de fazer tudo acontecer.

CI: Você já tinha trabalhado com atores famosos como agora? Você sente diferenças na maneira de atuar deles em relação a atores "comuns"?

A: Nunca, eles são os mais famosos com que já trabalhei. E... nenhum desses atores são apenas atores de teatro... há uma imensa diferença entre pessoas que apenas fazem teatro e pessoas que fazem outras coisa E teatro, mesmo se for cinema, há uma imensa diferença. Eu irei te responder em partes. Em primeiro lugar, o meu maior problema com esses atores são as datas, porque se preciso fazer mais apresentações eu tenho que pedir para cada um deles por mais dias... em algum lugar algum deles está gravando, então isso é um grande problema.

Em segundo lugar, eles me dão data, mas há também os ensaios que são ultra importantes. Daí há mais dias necessários e de novo isso se torna um problema. De qualquer forma, tudo é questão de termos um calendário pra isso. Mas o maior dos problemas é: esses atores não são somente atores de teatro. Porque, normalmente, o que atores de teatro fazem é estarem constantemente treinando, ou ao menos atores sérios de teatro fazem isso. Eles estão sempre treinando, praticando, nunca param, nem quando se consolidam como atores reconhecidos. Significa que por toda a vida eles treinam a voz, o corpo, todas as suas capacidades, porque eles têm que estar constantemente vivos, constantemente mudando com o tempo. Eles são rascunhos, rascunhos de atores, mudando com o tempo.

E sobre os atores do Blue Mug, eles são bons, mas para por aí, eles não mudam. Eles são o que eram em 2002, são exatamente os mesmos. Não há treinamento, não há prática, não há workshops, não há estudos... apenas aprendem com a experiência, apenas isso. Então, nesse sentido, nas minhas outras peças, eu trabalho só com atores de teatro, não com eles, porque é muito diferente, é uma experiência diferente.

CI: E agora falando da apresentação em São Paulo, como foi que isso aconteceu no meio de uma turnê pelos Estados Unidos?

A: Quando começamos a planejar a turnê pelos EUA, nossa agente lá falou da possibilidade de virmos também ao Brasil, já que ela tinha contato com o cônsul de São Paulo. E isso foi muito inesperado pra nós. E todos nós tínhamos uma vontade imensa de visitar o Brasil, então dissemos "sim! Por que não??".

CI: Vocês chegaram aqui há apenas dois dias e já irão hoje à noite. Nem tiveram tempo de andar pela cidade direito. Mas mesmo assim, o que você pode dizer sobre o que viu e o que sente daqui?

A: Eu estou amando o Brasil. Estou amando estar aqui esses dias, amando essa sensação de estar no Brasil, muito mais do que é sentir estar na Europa, por exemplo. Não consigo explicar direito essa sensação, mas é muito boa, é como se eu me sentisse em casa. Quero muito voltar, seja com algum espetáculo de novo, seja apenas para visitar, mesmo.
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18 comentários:

Isa disse...

Fico feliz pelo Atul ter gostado do Brasil. Muita gente que vem pra cá adora, né, fazer o quê? É o encanto do nosso lindo país. Tomara que eles (ou só ele) voltem, e que cada vez mais as indianices venham.

O fato de a peça ter sido muito verbal deve ter causado as pequenas controvérsias do Blue Mug. Gostaria, mas gostaria mesmo, te poder ter tido uma conversa com o nojentinho do Ranvir.

E, Ibie, um dia seremos nós em Mumbai! ;)

Ibirá Machado disse...

Isa, pois é, não sei bem o que fazemos pra encantar tanto o povo de fora ;)

Eu acho que o Ranvir não gostou do espetáculo daqui porque a plateia não estava cheia, diferente de todos os outros espetáculos em todos os outros anos...

E sim! Bora pra Mumbai! :D

Izis Negreiros disse...

Não tem jeito, o Brasil cativa apenas com um sorriso.....adorei a materia, pena que não pude comparecer, mas gostaria que se você me permitir de transcrever uma matéria no meu blog:-)eu sempre escrevo em inglês e português para meus amigos lerem.

ju disse...

Parabens pela entrevista Ibirá. Adorei!

karma kunzang disse...

Ibirá, grande entrevista.
Pena que estou tão longe de São Paulo e não pude assistir... Mas vou enviar esse link para meus estudantes da graduação em teatro lá do UFSM. Tenho muito interesse no teatro contemporâneo indiano..
Abraço desde o RS, Staaaart again, do Daniel.

Pedro disse...

adorei a entrevista :) mas uma vez Parabéns :)

Ibirá Machado disse...

Izis, deve ser nosso sorriso mesmo :D
E eu não entendi bem o que você quer... você gostaria da minha versão original em inglês pra por no seu blog, é isso?

Daniel! Que surpresa um comentário seu! Muito obrigado, fiquei super feliz :)
Não sabia que você tinha voltado pro RS. Bhavatu Sabba Mangalam!

Ju e Pedro, obrigado! :)

Vinicius disse...

Ibirá Adorei a entrevista também! Parabéns!

Achei o Diretor da peça muito legal na entrevista!

Ibirá Machado disse...

Obrigado, Vini! O Atul realmente foi bastante simpático :)

Izis Negreiros disse...

Sim a versão em inglês e portugues com fotos suas e deles:-)

Gabriela Dória disse...

Ib's, só agora tive tempo de ler a entrevista e.. que sensação boa em ler. Não me peça para explicar o motivo da sensação.
É massa demais saber que o nosso grande representante do QCINB só nos enche de orgulho e de mais conhecimento sobre as inúmeras artes desse país.
Parabéns pela entrevista!!
=**

Ibirá Machado disse...

Gab's! Super, super obrigado! :D

Guacira disse...

Ninguém segura o Ibirá!!!! \o/

Ibirá Machado disse...

:)

Pri disse...

O Atul é bem simpático!

Ótima entrevista Ibis!! *_*

É bom saber o que os artistas indianos, que admiramos tanto, pensam sobre o nosso país. É como uma pequena resposta para a vontade que temos, bem aqui dentro, de dizer: "Ei, estamos aqui e amamos a arte indiana!!!"

Ibirá Machado disse...

Obrigado, Pri :D

Carol disse...

Senhor, não li isso até agora!

Ibirá Machado disse...

Preguiça engorda, já diria a vizinha.