E finalmente fui assistir ao filme Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008), em pré-estreia, pois não aguentei esperar que ele estreasse oficialmente aqui em São Paulo (o que ocorrerá na sexta-feira próxima). Conforme prometido, farei aqui a minha crítica a esse filme, ganhador de 8 Oscars.
Bom, antes repetirei algumas informações já ditas. O filme é dirigido por Danny Boyle, um diretor britânico, com codireção do indiano Loveleen Tandan. É baseado no livro Q&A (2005), do indiano Vikas Swarup. No elenco do filme, temos o famoso Anil Kapoor como apresentador do Show do Milhão indiano (que embora não tenha feito nada de muito sucesso em Bollywood, atua desde 1979 e já recebeu alguns prêmios na Índia) e o outro também famoso Irrfan Khan, como o delegado. Eu também não posso deixar de lembrar que o ator que faz Jamal Malik (o protagonista) quando jovem, Tanay Hemant Chheda, é também quem faz Rajan Damodaran, o amigo de Ishaan Awasthi, em Taare Zameen Par.Bom, e Quem Quer Ser um Milionário? acabou por ganhar 8 Oscars: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Canção Original e Melhor Mixagem de Som. Ambos os prêmios de trilha sonora e canção original foram entregues ao indiano A.R. Rahman de Chenai, Tamil Nadu, sucesso absoluto nas trilhas de Bollywood, virando orgulho nacional. Aliás, Rahman fez de fato um bom trabalho, em se considerando o que é o "normal" dele em Bollywood. As músicas desse filme, embora não se destaquem tanto, são bem sensíveis e bem construídas. "Jai Ho", a música que ganhou o Oscar de Melhor Canção, é até cativante, mas na minha opinião o próprio Rahman já fez coisa muito mais bonita e empolgante em Bollywood. Mas em se considerando o que se costuma premiar em Hollywood (músicas a la "My Heart Will Go On"), "Jai Ho" é divertidíssima e merecia o prêmio. No final dessa postagem vai o clipe dela.
E falando em orgulho nacional, devo dizer que os indianos tiveram uma reação muito estranha com esse filme. Por um lado, a primeira reação foi de ódio e raiva pela obra de Danny Boyle. Ódio por não verem o que há de bonito na Índia ali na telona, segundo eles mesmos. Ódio por mostrar uma Índia muito feia; feia no sentido material, suja, bagunçada, fedida... mas mais feia ainda no sentido espiritual, rompendo com uma imagem por muitos ainda solidificada, e revelando uma estrutura social e espiritual pra lá de corrompida, mais suja e fedida que a própria realidade material. E os indianos não gostam de saber que eles são assim, não gostam mesmo. Indiano só gosta do que há de progresso na Índia, da Índia que constroi o futuro, e também da Índia que já foi, a que inventou a matemática, a medicina, a astrologia e astronomia, a navegação, a universidade, a música e muito mais. Mas a realidade presente, feita por eles neste momento, isso eles não querem saber. E nem sabem que são responsáveis também.Eu falo isso, mas sei também do que temos por aqui. Digo isso antes que receba críticas por falar dos outros. Eu reconheço, por exemplo, o que aparece nos filmes nossos que tanto sucesso fizeram, como Central do Brasil e Cidade de Deus, de Walter Salles e Fernando Meirelles, respectivamente. Ambos vão pra estética da pobreza, é verdade, mas mostram a realidade e reconhecemos isso, não temos ódio. E o filme de Meirelles, tanto dito ter inspirado Danny Boyle, eu discordo. São formas diferentes de direção e edição. Pode ter havido alguma coisa inspirada, mas só alguma coisa.
E finalmente, minha opinião é que o filme é bom e somente bom. Eu não daria um Oscar de Melhor Filme a ele. Fiquei com a profunda sensação que a Academia quer agora tirar o foco mundial da China e tranferir para a Índia. Me pareceu demais uma grande jogada política-econômica, isso sim. O roteiro não é assim tão complexo, muito pelo contrário. A direção não achei tão original, muito pelo contrário. A trilha sonora é mesmo boa, mas nada excepcional (ou será que esse ano não havia nada melhor mesmo?). E a fotografia, daí sim, essa merecia.Eu acho que talvez Danny Boyle tenha um mérito que seja de fato uma tentativa de convergência entre as estéticas do cinema ocidental e de Bollywood. Muitas das técnicas de edição utilizadas nesse filme são mesmo de Bollywood. Algumas cenas com a câmera acelerada, de maneira um pouco tosca até, lembra muito o tosco que por vezes faz Bollywood em cenas de ação. A história, ou seja, o enredo, é muito simples, na verdade. O filme é muito simples, tentando ser bonito, até. Se por um lado os indianos odeiam a realidade mostrada no filme, eu diria que é muito mais interessante a realidade que mostra Quem Quer Ser um Milionário?. O filme inteiro se desenrola com o personagem principal, Jamal Malik (Dev Patel), provando que as duras circunstâncias de sua vida construíram a sua sabedoria. Pra mim essa é a grande beleza do filme, embora chegue a tender até pra um tanto brega. Mas isso é universal, e é também muito bonito vermos como o ser humano é de fato igual em qualquer lugar. Somos muito bonitos e muito horrosos em qualquer lugar do planeta. Em alguns locais temos algumas complexidades sociais a mais, e a Índia é um campo fértil pra complexidades.
E na questão da direção ter-se baseado em alguns fatores de Bollywood, eu diria até que há inspirações além. Num dado momento do filme, Jamal combina com sua amada que ele estará sempre na mesma estação de trem, no mesmo horário. E no mesmo momento que vi isso, imediatamente lembrei-me do filme alemão Sombras do Passado (Shadows of Time, 2004), também rodado na Índia, que tem como enredo os desencontros de um casal apaixonado, e que em um dado momento o garoto combina com a amada que estará todos os dias no mesmo local e no mesmo horário, até o dia que ela aparecer.Mas fora tudo isso, o filme mostra uma realidade muito interessante - e muito real. Eu vi com meus próprios olhos a polícia corrupta da Índia, e mais de uma vez. Eu sofri as consequências diretas da malandragem indiana, friamente mostrada no filme, e me assustei com as favelas de Mumbai. Na vida real, o pai do pequeno Azharuddin Mohammed Ismail, que fez o pequeno Salim quando criança, surrou o coitado em pleno público (veja aqui). Na vida real, a mãe da pequena Rubina Ali, que fez Latika criança, reclamou que Danny Boyle poderia também dar uma casa a eles, não apenas o generoso salário, educação e saúde até que fiquem adultos (veja aqui). Parece-me que o diretor acatou a "sugestão".
O resumo é que o filme vale a pena ser visto. Se não há assim tanta coisa que o destaque efetivamente, vale muito pelo que ele vem representando nessa mobilização mundial que se criou. A reação é mesmo ambígua, mas as vezes a ambiguidade tras mais coisas a nós do que aquilo que identificamos mais facilmente.
Abaixo vão o trailer do filme e a música que ganhou o Oscar (com a letra, em hindi).











