quinta-feira, 25 de junho de 2009

Caminho das Índias, por B.S. Prakash, Embaixador da Índia no Brasil

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Hoje recebi um artigo que de novo foge um pouco do tema central de nosso blog, mas eu achei ele bem interessante e que merecia ser compartilhado. E na verdade, como as coisas do mundo estão todas conectadas, eu acredito que o que se fala nesse artigo pode no fim das contas ter muito a ver com a propagação do cinema indiano por nossas bandas de cá. E é sobre isso que vínhamos falando nos últimos artigos publicados.

Esse de hoje, porém, tem uma importância um tanto maior. Trata-se de um texto escrito por B.S. Prakash, o embaixador da Índia no Brasil, e publicado na Rediff.com, um dos mais importantes sites de notícias e entretenimento da Índia. O texto original está em inglês e o que se segue é uma versão em tradução livre ao português feita por mim mesmo.


A novela sobre a Índia que pegou o Brasil de surpresa

Quando chego na embaixada e abro meu email, costumo receber as coisas normais de novas oportunidades de negócios, reclamações sobre vistos e passaportes, convites para eventos etc.

Mas nos últimos tempos ando recebendo coisas inesperadas. Recebo emails perguntando sobre o significado do bindi. "Um sari pode ser vestido sem a blusa?". Ou "Kali é o nome de um curry ou alguma coisa apimentada?" e outras coisas sobre a Índia. E tudo isso no Brasil, onde sou embaixador, experimentando agora a mais forte e mais estranha manifestação do poder da Índia nunca vista na minha carreira.

Como essa curiosidade sem precedentes sobre a Índia apareceu em terras tão distantes?

Isso é o resultado de uma novela que está passando no canal de televisão mais importante do Brasil, que começou em janeiro e seguirá até setembro, passando todos os dias por sete meses. Essa novela, chamada Caminho das Índias, todas as noites está trazendo a Índia para a grande maioria das casas brasileiras.

Antes de dizer do que se trata a história dessa novela, devo falar da importância que tem o fenômeno das novelas na América Latina e de seu forte impacto na vida das pessoas.

Uma novela de sucesso no canal Globo, no Brasil, tem mais impacto que Saas Bhi Kabhi Bahu Thi [novela indiana de super sucesso] e seu apelo pode apenas ser comparado com a série do Ramayana que no passado juntava multidões de indianos em torno das televisões.

As novelas brasileiras tem suas próprias fórmulas de amor, luxúria, falsidades e destruições com finais felizes. Elas são produções sofisticadas e espetaculares, realizadas com um altíssimo orçamento. Hoje em dia, mais de 60% das casas brasileiras assistem à novela, num país de quase 200 milhões de habitantes, sendo que essas mesmas novelas são depois exportadas para os países da América Latina e para os que falam a língua portuguesa.

As novelas comuns são feitas no Brasil e passam no Brasil, mas Caminho das Índias tem parte da trama sediada na Índia e outra parte no Brasil, com lindas garotas brasileiras apaixonando-se por indianos e vice-versa.

O que é importante dizer é que todos os atores são super conhecidos no Brasil, mesmo os que fazem os papéis dos indianos. Toda a história é contada em português, com algumas poucas frases não muito fiéis em hindi, como theek hai, chalo, bhagwan ke liye, arre baba etc, que são faladas pelos personagens indianos.

Essas palavras são hoje faladas pelos brasileiros por todos os lados e várias revistas já publicaram pequenos glossários dessas palavras em hindi usadas na novela.

E como Brasil e Índia se uniram nessa história? Isso ocorre a partir da bem sabida competência indiana em tecnologia da informação. Assim, o garoto dalit sai de sua pátria-mãe frustrado no amor por ter se apaixonado por uma garota brâmane e vai parar no Brasil como um engenheiro de computação. Notem que tanto o oprimido dalit quanto a garota brâmane são ambos interpretados por lindos atores brasileiros, caracterizados em lindas kurtas, salwars e saris e falando português.

Ao mesmo tempo, garotas brasileiras adolescentes apaixonam-se por rapazes indianos através das câmeras do Skype. A parte indiana é filmada sobretudo em e nos arredores de Jaipur e a parte brasileira passa no Rio de Janeiro. Um pouco de Dubai também faz parte dessa masala.

Se a conexão de Índia e Brasil veio pelo TI, o que dá o sabor à novela são outras questões: castas, casamento arranjado, cerimônias exuberantes, rituais exóticos e os tantos deuses estranhos. Tudo isso aparece com abundância, assim como os email que hoje chegam à embaixada.

Como um diplomata, eu sempre soube da importância das mídias de massa na construção da imagem de um país e de sua cultura, especialmente quando desconhecidos entre si, como Índia e Brasil. Então quando ouvi pela primeira vez sobre a novela que a Globo faria, meu sentimento foi um misto de estasia com apreensão.

Meu coração pulou quando eu soube que o eixo central da história seria sobre a rejeição de um dalit pelas castas superiores e coisas relacionadas a isso. Curioso mas cauteloso, eu encontrei a escritora, a produção etc, e tentei saber ainda mais. Aos poucos percebi que uma imagem negativa da Índia não seria transmitida ao Brasil. A história seria incrível, os atores lindos, os cenários exuberantes, e a imagem resultante da Índia seria suntuosa.

Aqui, o Brasil, também um país em desenvolvimento, também com seus problemas relacionados à pobreza, disparidades, favelas etc, mas com uma cultura totalmente diferente, agora olhando curioso à Índia, com seus costumes diferentes, suas artes, sua culinária.

Algumas das coisas são exageradas ou incorretas, mas em nenhum momento são mal intensionadas. Ao contrário, a intenção é ter respeito no transmitir de uma cultura tão diferente, propondo assim uma assimilação. Os interesses são mais no Hawa Mahal, não em Dharavi [maior favela da Índia, em Mumbai]. Se os brasileiros pensam hoje que moramos em pequenos palácios de mármore, usamos lindas roupas de seda e estamos sempre dançando músicas de Bollywood, eu não tenho por que reclamar. Desde então, estamos apenas curtindo o interesse pela Índia nunca antes visto.

Os containers carregados com kurtas, kameez e incensos que agora vemos não alteram nossos comércios bilaterais. Mas confesso que essa atenção toda toma estranhas formas. Outro dia, um empresário indiano estava reclamando comigo, em São Paulo, dizendo que a vida dele estava insuportável. "O que foi?", perguntei. "Eu estava em uma plataforma de petróleo, quando um brasileiro chegou perto e perguntou se eu era indiano. Disse que sim e ele me perguntou se eu era um brâmane ou um dalit", disse ele.

Nós rimos. A pequena comunidade indiana no Brasil ficou expert sobre a história e evolução do sistema de castas e hoje expalham exemplos de dalits bem sucedidos na Índia!

Mas se alguns indianos estão compreensivelmente chateados com a novela, também alguns brasileiros estão. Eu recebi uma mensagem de uma pessoa do alto escalão da Igreja Católica do Brasil. "Nós temos imenso respeito pela Índia e sua cultura, mas essa invasão de cultura indiana, a cultura hindu com vários deuses e deusas, com as práticas pagãs e estranhos rituais, vai corromper o cristianismo do Brasil. Não é justo que reclamemos sobre essa propagação da Índia?", ele perguntou sinceramente.

"O que você pensa da novela?", perguntam-me amigos brasileiros. "É autêntica?". Mas eu não quero entrar num debate sobre se o que mostra a novela é mesmo real ou não. "Essa novela fez a Índia tão popular, que nenhum embaixador pediria por uma plataforma melhor que essa pra projetar a Índia", eu respondo. "E estou pensando na minha 'vingança', na ideia de fazer uma novela indiana sobre o Brasil com todas as suas imagens típicas: dançarinas de samba sensuais, sensacionais modelos de biquíni e grandes jogadores de futebol jogando críquete numa praia de Mumbai", continuo.

Quando respondo isso eles recuam.

Interessada, Ekta Kapoor? [escritora e produtora indiana]


Colaboraram: Rajesh TK e Lígia Paganini

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Madhuri Dixit - माधुरी दीक्षित

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Eu deveria agora fazer uma postagem sobre algum ator, não atriz, mas resolvi ser rebelde comigo mesmo e falar sobre Madhuri Dixit, que também há tempos merece ser destacada aqui no Cinema Indiano.

Nascida em Mumbai no dia 15 de maio de 1967 (ou seja, neste momento com 42 anos! Confesso que achava que ela fosse mais nova!), Madhuri Shankar Dixit é filha de Shankar e Snehlata Dixit, de família brâmane, da linha marata Chitpavan. Estudou na Divine Child High School e depois entrou no Parle College, da Universidade de Mumbai. Seu sonho era ser microbiologista.

Enquanto estudava, porém, acabou entrando no mundo da moda e virou modelo. Daí ganhou fama e da fama nem precisou dar um pulo pra entrar em Bollywood. Já no ano de 1984, ainda com 17 anos e no primeiro ano da faculdade, estreou em Bollywood no filme Abodh. Depois disso fez outros pequenos papéis, mas todos sem sucesso.

Em 1988, porém, fez o papel principal no filme Tezaab, que a levou ao sucesso absoluto e já deu a ela a primeira indicação no Filmfare Awards. Em seguida já começou a aparecer em vários filmes, mas teve destaque em Lakhan (1989), Parinda (1989), Tridev (1989) e Kishen Kanhaiya (1990). Neste momento, Madhuri era simplesmente o maior sucesso feminino de Bollywood. Chamavam-na de Marilyn Monroe da Índia.

Em 1990 ela estrelou o filme Dil, ao lado de Aamir Khan, dando a ela o primeiro prêmio de melhor atriz pelo Filmfare Awards. Depois veio os sucessos Saajan (1991), Beta (1992), Khalnayak (1993), Hum Aapke Hain Haun! (1994) e Raja (1995). Por Beta, ela ganhou o segundo Filmfare Awards e por Hum Aapke Hain Haun! veio o terceiro prêmio. Esse filme, aliás, foi um dos mais lucrativos da história de Bollywood.

O ano de 1996 não teve sucessos pra Madhuri, mas em 1997 ela estrelou o mega sucesso Dil To Pagaal Hai, que deu a ela o quarto Filmfare Awards de melhor atriz.

A qualidade de Madhuri não se resume somente à sua atuação, mas também às suas habilidades com a dança. Ela é formada profissionalmente em dança Kathak, que estudou por oito anos. Algumas cenas de dança em que ela aparece fazem parte do repertório dos indianos até hoje, como nas músicas Ek Do Teen (de Tezaab), Bada Dukh Deenha (de Ram Lakhan), Dhak Dhak (de Beta), Chane Ke Khet Mein (de Anjaam), Choli Ke Peeche (de Khalnayak), Akhiyan Milaun (de Raja), Piyar Ghar Aya (de Yaarana), Key Sera (de Pukar), Maar Daala (de Devdas), dentre várias outras.

Este último filme, Devdas (2002), que já foi falado aqui no Cinema Indiano, foi um dos maiores sucessos de todos os tempos de Bollywood, no qual Madhuri estrelou ao lado dos protagonistas Shahrukh Khan e Aishwarya Rai. Para muitos, este filme de Sanjay Leela Bhansali é o melhor que Bollywood já fez. Madhuri levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Filmfare.

Madhuri é o tipo de atriz que já está tão consolidada no cinema indiano que em 2003 um filme foi lançado com o nome Main Madhuri Dixit Banna Chahti Hoon! (Eu quero ser Madhuri Dixit). Ela própria não aparece no filme.

No ano de 1999 Madhuri casou-se com Sriram Madhav Nene, um cirurgião cardiovascular residente nos Estados Unidos, para onde se mudou. Por causa da nova residência fora da Índia e das duas maternidades, Madhuri acabou ausentando-se quase que completamente do cinema indiano, tendo atuado em Devdas e Hum Tumhare Hai Sanam em 2002 e depois somente em Aaja Nachle, em 2007. Seu primeiro filho, Arin, nasceu em 2003 e o segundo, Raayan, nasceu em 2005.

Até o momento, Madhuri tem uma lista de 67 filmes e dez prêmios recebidos. É uma das poucas personalidades do cinema indiano que não enfrenta rejeição, mas ao contrário. Em 2007, a Rediff, uma rede de informação e entretenimento indiana, afirmou que Madhuri Dixit é a melhor atriz de Bollywood de todos os tempos.

terça-feira, 23 de junho de 2009

"Filmes Hindi são apenas parte do Cinema Indiano"

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Enquanto não chegam postagens sobre atores e novos filmes (que sei que é o que vocês mais gostam!), passo mais um artigo que encontrei em consonância com o artigo anterior. Vale também para os novos leitores do Cinema Indiano, que ainda não sabem - ou sabem pouco - que o cinema indiano é muito mais que Bollywood e seus filmes em hindi. Não acho que esse artigo seja dos melhores, mas é interessante por mostrar que os indianos estão cada vez mais preocupados com a projeção deles próprios para o mundo, o que até pouco tempo não havia. Talvez essa nova década que está por entrar traga novas perspectivas para o cinema da Índia e mesmo para o cinema do mundo, pela inserção de uma nova estética, muito diferente da que estamos acostumados no ocidente.

Filmes Hindi são apenas parte do Cinema Indiano
por Laxmi Birajdar, do The Times of India, 23/6/9

PUNE: Quem decide o que é sério e o que é café-com-leite no cinema indiano? Qual é a percepção do que é popular no cinema? E, ainda mais importante, quais são os parâmetros pra julgar o bom cinema? Essas foram algumas das questões levantadas pelo cineasta K. Hariharan durante sua palestra sobre o cinema popular indiano, no curso sobre cinema no Film and Television Institute of India (FTII), recentemente.

"Hoje, filmes populares são feitos de maneira democrática. Existe um certo processo nos filmes que vemos. Os espectadores precisam entender o ponto de vista do diretor. Apenas gostando ou não gostando de um filme não nos ajudará a entender melhor o cinema", diz Hariharan, conhecido por filmes como Current (hindi), Ghashiram Kotwal (marathi) e Ezhavathu Manithan (tamil), dentre outros.

A definição precisa do cinema indiano, seja popular, seja outro, precisa ser entendida. "A percepção no ocidente é que o cinema hindi é o cinema indiano. Mas isso não é verdade. Bollywood representa a indústria hindi, o que é, por sua vez, também um cinema regional. As outras indústrias regionais, em outras línguas, são também parte do que é chamado Cinema Indiano", diz Hariharan.

Explicando a psique do público comum indiano, Hariharan diz que apenas na negação nós vemos a verdadeira arte, ou profundidade. "Tudo o que é feliz ou legal não é necessariamente profundo ou bom cinema. Nós indianos vemos arte na negação das emoções, como em filmes que abordam emoções negativas e fortes melodramas. No entanto, os filmes indianos populares estão refinando seus melodramas", acrescenta. De acordo com ele, são os cinemas regionais que podem mostrar a riqueza das produções cinematográficas. "A verdadeira arte do cinema está nas indústrias regionais".

Mas a necessidade de grandes investimentos em publicidade e estratégias de marketing usadas para os filmes, em especial para as grandes produções hindi, está levando os cineastas indianos a acreditarem na ilusão do cinema indiano, diz Hariharan. "Primeiro, temos uma grande impressão de que há um enorme público de fora da Índia que curte os filmes populares de Bollywood. Mas na verdade são os indianos residentes no exterior que assistem a nossos filmes, e não os estrangeiros".

E tocando na questão da corporatização das grandes produções do cinema indiano, especialmente dos filmes hindi de Bollywood, Hariharan diz que "estamos sob a ilusão de que há muito financiamento acontecendo para filmes hindi. Mas na verdade há investimento para poucos. A grande maior parte das produções sobrevivem com a fórmula bem sucedida de levantar verbas de infinitas fontes".

E mais importante, o público indiano é esperto em escolher o que quer. "Dos mais de 900 filmes lançados todos os anos, eles rejeitam 800 deles. Isso significa que eles sabem o que querem e o que não querem", conclui Hariharan.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Crescimento de Bollywood

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Queridos, em breve estarei de volta, com várias novas postagens. Mas enquanto não posso dar a dedicação merecida, passo a vocês uma reportagem que é de interesse de todos nós:

Com internacionalização, Bollywood deve crescer 12,5% até 2013
por Elisa Campos, enviada especial a Joinville, Época Negócios, 18/6/9


A indústria de cinema indiana, mais conhecida mundialmente como Bollywood, está passando por mudanças que possibilitarão nos próximos cinco anos um forte crescimento de 12,5%. Mas a expansão desse mercado não virá somente do 1,2 bilhão de indianos, o equivalente a um quinto da população mundial, mas sim, da internacionalização da sétima arte indiana.

Em apresentação na ExpoGestão 2009, nesta quinta-feira (18/6), Sharada Ramanathan, cineasta indiana e diretora da Golden Square Films, descartou um forte impacto da atual turbulência econômica no ramo do entretenimento. “Apesar da crise, as pessoas continuam indo ao cinema, continuam querendo se divertir”.

“Na Índia, a cada ano empregamos mais e mais pessoas”, conta a artista e empresária. De fato, são números respeitáveis. O setor emprega cerca de 15 milhões no país.

São os milhões que movem a nação responsável pelo maior número de filmes produzidos por ano no mundo. São mil, falados em dezenas de línguas. A Índia possui 22 idiomas oficiais, além de 2 mil dialetos que variam de acordo com a região do país. A maioria dos filmes, no entanto, é produzida em hindi.

“O cinema é definitivamente um modo de vida na Índia”, afirma Ramanathan. Um modo de vida que, daqui para frente, deve ganhar os quatro cantos do mundo. Com orçamentos que variam entre US$ 500 mil e US$ 10 milhões, há um esforço de levar os filmes indianos para o exterior. “Estamos fazendo co-produções com Hollywood e lançando canais com a nossa produção em outros países”.

Com essas ações, estima-se que a indústria cinematográfica indiana passe a movimentar US$ 225 milhões em 2013, contra os US$ 125 milhões registrados em 2008: um crescimento de 12,5%.

Com influência de tradições antigas indianas e do Ocidente – Michael Jackson é considerado a maior influência do século passado lá -, o cinema indiano também aposta em expandir suas fronteiras dentro da própria Índia. “Estamos ganhando espaço em cidades menores em que não tínhamos representatividade. São eles que crescem com mais rapidez”, diz Sharada.

Como obstáculos ao final feliz para o cinema indiano, estão a pirataria, responsável por movimentar US$ 45 milhões no país por ano, e a competição com a TV a cabo, aponta a cineasta.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

1 ANO DE CINEMA INDIANO!

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Namaste, caros leitores,

Há exato um ano, na noite do dia 12 de junho de 2008, eu decidia dar vida a algo que eu não tinha a menor ideia do tamanho que teria - e nem dos frutos que eu colheria. Eu nunca havia feito um blog antes e o único que eu acompanhava era o Indi(a)gestão, mas, de repente, eis que nascia o nosso Cinema Indiano.

Foram três os motivos que me fizeram decidir criá-lo: eu voltei da Índia gostando mais ainda do que já gostava do cinema indiano, mas em especial eu estava apaixonado por uma obra: Taare Zameen Par; por causa disso, dei-me conta de que praticamente não havia nenhuma fonte em português sobre o cinema indiano, embora a procura por isso fosse relativamente expressiva aqui no Brasil; e por fim, a sugestão de uma amiga de criar um blog sobre o cinema da Índia foi decisiva.

As duas primeiras postagens inaugurais foram, logicamente, sobre a obra prima de Aamir Khan. Sem pretensões, mas ao escrever sobre Taare Zameen Par, eu sabia que estava fazendo um favor à humanidade. No entanto, após isto feito, eu deveria iniciar uma sequência de postagens que passariam a ter apenas a função de contribuir a cobrir uma lacuna cultural no Brasil, tão dominado pela cultura estadunidense.

Pouco a pouco, conforme fui falando sobre alguns filmes, atores, indústrias regionais de cinema e curiosidades, o blog foi ganhando alguns leitores fiéis. Logo o Cinema Indiano estava referenciado em alguns outros blogs e uma pequena rede foi se conformando. Mas mesmo assim, seis meses depois nem 20 pessoas entravam por dia neste blog, e no início de janeiro desse ano a taxa raramente passava das 30 visitas diárias.

O salto - e que belo salto - ocorreu quando teve início a novela global Caminho das Índias e eu decidi, a pedidos, fazer postagens sobre as músicas indianas que estavam tocando na trilha da novela. De repente, em menos de uma semana, o blog passou de 30 para quase 300 visitas por dia. No final de março, centralizei as postagens sobre as músicas e criei uma postagem sobre como e onde fazer download de filmes indianos. Daí o blog subiu para um outro patamar, tendo hoje uma média diária entre 300 e 400 visitas. E perto de 90 mil visitas já foram computadas no total, desde que o blog foi criado.

Desde que iniciei as medições, as visitas vieram de 91 países, sendo o Brasil disparado em primeiro lugar, seguido de Portugal, Estados Unidos, Índia e Japão. Dentro do Brasil, já tivemos visitas vindas de mais de 250 cidades em todos os 26 estados da federação.

Onze das doze postagens mais vistas até agora no blog são relacionadas às músicas indianas de Caminho das Índias. A décima-segunda postagem mais visitada é a sobre como fazer download de filmes. Mas o dado mais importante aqui diz respeito à décima-terceira postagem mais visitada, que é a minha crítica ao filme Taare Zameen Par. A cada dia que passa, mais e mais pessoas chegam ao Cinema Indiano procurando mais informações sobre esse filme, ou porque de alguma maneira conseguiram vê-lo e querem saber mais, ou porque souberam dele mas ainda não viram - e querem muito ver. É a minha realização, confesso.

Hoje, com quase 170 postagens, 4 selos de reconhecimento e 70 seguidores fiéis inscritos, tenho a confirmação de que o trabalho vem sendo razoavelmente bem feito. Mas a cada instante um novo desafio aparece, e a cada instante novas mudanças ocorrem. Talvez nem sequer os mais assíduos percebam, mas quase toda semana uma pequena mudança no Cinema Indiano aparece, seja na forma com que as postagens são feitas, seja no próprio layout do blog, seja nas informações adicionais que ofereço. Uma das mudanças recentes mais importantes não teve a ver com o visual do blog em si, mas sim com o seu conteúdo; o Cinema Indiano passou a oficialmente oferecer postagens também sobre as produções publicitárias da Índia.

Os inesperados frutos colhidos até agora já estão sendo maravilhosos, mas espero que muitos mais anos venham com muitos outros frutos. E não fosse a contínua contribuição de todos vocês, presentes e ausentes com seus comentários, sugestões e críticas, nada disso estaria sendo feito. Se alguém merece parabéns, esse alguém são todos vocês, que - por mais clichê que possa parecer -, são a razão de meu esforço com o Cinema Indiano. E eu só tenho a agradecer, hoje e sempre.

Om Shanti Om

sábado, 6 de junho de 2009

Pausa

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Meus queridíssimos leitores do Cinema Indiano, a partir de hoje até o dia 22 de junho, este blog estará descansando sob uma merecida licença sabática, após um ano de serviço quase ininterrupto. Eu deixei uma postagem especial programada para vir ao ar no dia 12 de junho, não deixem de conferir! Não, não, não terá nada a ver com o dia dos namorados que é celebrado nesse dia aqui no Brasil. É por uma razão muito mais especial e que deve ser compartilhada com todos vocês.

Aproveite esse tempo pra ler as postagens mais antigas que vocês ainda não leram, além de conhecerem a coluna da esquerda que vocês sempre tiveram curiosidade de saber o que tinha mas sempre ficaram com preguiça de ver. E até, quem sabe, falando em preguiça, por que não aprender logo a fazer download de filmes indianos?

Bom, é isso, informação dada. Aguardem o retorno de nossas atividades, que muita coisa ainda tem por vir!

Beijos e abraços a todos, bom feriado de Corpus Christi, feliz Dia dos Namorados e até o fim do mês!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sita Sings the Blues (2008)

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Estava eu fazendo minha visita matinal ao blog Grand Masala e dei de cara com uma postagem sobre a animação em computação 2D chamada Sita Sings the Blues (Sita Canta Blues). Lembrei-me que há muitos meses eu tinha ouvido falar sobre isso, mas havia esquecido completamente. Li a postagem, escrita pelo Rodolfo, e fiquei animado. No mesmo instante entrei no youtube pra ver algo como um trailer, mas achei o filme todo dividido em dez partes, em alta qualidade.

Comecei a ver a primeira parte, descompromissadamente, só pra ter uma ideia de como era a coisa - e esse foi meu grande erro. Eu comecei a ver e não consegui parar!

Não se trata de uma produção indiana, devo ressaltar desde já, mas se demos tanto espaço aqui para Quem Quer Ser um Milionário?, por que não a esta obra, que tem vários indianos na equipe?

Bom, Sita Sings the Blues é basicamente a história bem resumida e pouco detalhada do grande épico indiano Ramayana. No entanto, o objetivo real da obra nem é muito esse, e é por isso que essa animação me pareceu muitíssimo interessante. A autora, a artista plástica Nina Paley, escolheu essa maneira de elaborar o seu próprio rompimento de um relacionamento. Mas não só bastasse isso, toda a forma com que ela optou fazer a animação me pareceu um tanto inusitado e super harmônico. Na minha simples opinião, o resultado final ficou muito bonito.

A história do Ramayana nesta animação é narrada por três bonecos de sombra que fazem as vezes de indianos comuns que não sabem direito narrar a história oral mais famosa da Índia, e se atrapalham e se completam a todo instante, como se estivessem numa conversa informal (e parece que estavam mesmo!). O épico em si, por sua vez, aparece em duas formas de animação. Quando partes da história está sendo contada, a animação é feita com pinturas meio-fixas super inspiradas nos traços da pintura clássica indiana da tradição Rajput. No entanto, quando Sita aparece cantando Blues (dando o nome ao filme) todos os personagens ganham novas características frutos da animação em computação gráfica, mas não em 3D. As músicas que Sita canta são originais de Annete Hanshow, uma cantora estadunidense da década de 20, cujas músicas caíram como uma luva no sofrimento de Sita com sua separação e rejeição de Rama.

E é daí que a vida real de Nina Paley é intercalada, com animações em traço simples e rústico, contando pouco a pouco a sua própria história de separação e rejeição e como isso resultou no estudo do Ramayana. E no fim das contas, como tudo resultou nessa obra.

E claro, como não tinha de ser, alas hindus radicalíssimas ficaram muito revoltadas com essa animação e tentaram de tudo para banir esse filme, em vão. Além disso, Nina acabou tendo problemas com os direitos autorais das músicas de Annete Hanshow. As músicas de Annete eram de domínio público até 1994, quando o governo estadunidense alterou a lei. No entanto, ao que consta, Nina começou seu projeto antes mesmo de 1994, desculpa que, porém, não foi aceita. Assim, como forma de "protesto artístico", Nina lançou 4.999 DVDs, pois seria o máximo que ela poderia pagar pelos direitos, e um ano depois do lançamento, em março deste ano, ela liberou todos os seus próprios direitos autorais e colocou o filme à disposição para todos baixarem no seu próprio site.

Enfim, achei a obra muitíssimo divertida e muitíssimo criativa, sobretudo pela narração. Talvez quem não conheça a história do Ramayana fique um pouco perdido, pois vários e vários detalhes são omitidos. Mas esse filme é mais uma obra de uma artista que vive um mito do que a história do mito em si.

Ah sim, e o trailer, que não vi na hora que devia, existe:



segunda-feira, 1 de junho de 2009

Kareena Kapoor - करीना कपूर

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E agora é a vez de falar sobre mais uma das grandes (e lindas!) personalidades do cinema indiano, Kareena Kapoor. Eu fico até com uma quase vergonha por não ter falado até agora sobre essa atriz, unanimidade em Bollywood, praticamente um ano depois da fundação do blog Cinema Indiano. Mas a hora chegou!

A principal representante em atuação da Família Kapoor em Bollywood, Kareena nasceu em Mumbai no dia 21 de setembro de 1980. O cinema já faz parte até dos cromossomos de Bebo, como é carinhosamente chamada, já que não só seus pais são atores (Randhir Kapoor e Babita), mas também era seu avô (Raj Kapoor) e seu bisavô (Prithviraj Kapoor). Todos parte da linhagem da imensa Família Kapoor que domina cenários de Bollywood. Ela é também a irmã mais nova da também atriz Karisma Kapoor, sobrinha de Rishi Kapoor e prima de primeiro grau de Ranbir Kapoor. E pelo que ela mesma diz, seu nome, Kareena, é uma adaptação feita por sua mãe ao nome Anna Karenina, livro de Leon Tolstói que ela leu durante a gravidez.

Embora quando crianças ambas Karisma e Kareena Kapoor quisessem ser atrizes, seu pai desaprovou dizendo que isso não seria bem visto dentro da família. Por incrível que pareça, esse desejo das duas meninas resultou em um sério atrito entre seus pais, que acabaram por se separarem. Babita mudou-se então com suas duas filhas e trabalhou duro para sustentá-las.

Kareena estudou na Jamnabai Narsee School, em Mumbai, e depois foi para a escola interna Welham Girls, em Dehradun, em Uttarakhand, no norte do país. Depois estudou comércio na Mithibai College, em Mumbai, embora não gostasse disso. Pelo que ela mesma diz, concluiu o ensino superior pois dessa maneira ela podia ficar perto de sua família. Mas depois ela quis tentar uma outra área de estudos, ao passar três meses nos Estados Unidos estudando microcomputação na Universidade de Harvard. Ainda assim Kareena não ficou feliz, mas achou que poderia realizar-se estudando direito na Government Law College, em Mumbai. No entanto, um ano depois, assumiu pra si mesmo que o que ela realmente queria era atuar. Antes tarde do que nunca! Ela então entrou na escola de atuação Kishore Namit Kapoor Acting Institute. E lógico, daí foi direto pra Bollywood.

Sua estreia deveria ocorrer no filme Kaho Naa... Pyar Hai (2000), de Rakesh Roshan (pai de Hrithik Roshan, que também estreou nesse filme), mas poucos dias antes de iniciar as filmagens ela abandonou. Eu diria que bateu aquela insegurança nela, mas sua justificativa foi de que o filme seria focado exclusivamente em Hrithik e que não seria um bom projeto pra sua estreia.

Mas não pense que ela adiou sua estreia em Bollywood. No mesmo ano ela estreou e estrelou no filme Refugee, que conta a história de um refugiado (interpretado por Abhishek Bachchan, que também estreava sua carreira nesse filme) na guerra Indo-Paquistanesa, de 1971, e ela era Naaz, uma imigrante de Bangladesh que se apaixona pelo refugiado. O filme não fez muito sucesso, mas deu a ela o prêmio de Melhor Atriz Estreante no Filmfare Awards. Mas convenhamos, eu diria que ela foi muito esperta ao escolher estrear ao lado do filho de Amitabh Bachchan do que do lado do filho de um diretor. Por mais famoso que Rakesh Roshan possa ser (e nem é tanto), o peso de Big B é muito maior. Kareena não é boba, não!

No ano seguinte apareceu em Mujhe Kuch Kehna Hai, que fez mais sucesso e confirmou seu talento. No entanto, os filmes seguintes, Yaadein e Ajnabee fracassaram na bilheteria e na crítica. Em 2001, porém, ela fez par com Shahrukh Khan no super sucesso Asoka, de Santosh Sivan, que conta a história do Imperador Ashoka que unificou a Índia e espalhou o budismo por volta do século três antes de Cristo. Esse filme deu a ela a primeira indicação ao prêmio de melhor atriz no Filmfare Awards. E curiosamente, Asoka é um dos únicos filmes de Bollywood que pode ser encontrado em algumas locadoras aqui do Brasil.

No mesmo ano ela também atuou em Kabhi Khushi Kabhie Gham, que foi um super sucesso e deu a ela o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Filmfare Awards. Kareena estava feliz com os sucessos de 2001, mas acabou passando por um longo momento de descrédito da crítica em 2002 e 2003, quando atuou nos super fracassados Mujhse Dosti Karoge!, Jeena Sirf Merre Liye, Talaash: The Hunt Begins..., Khushi, Main Prem Ki Diwani Hoon e LOC Kargil. A crítica bombardeou Kareena dizendo que ela havia se tornado uma atriz qualquer, fazendo sempre os mesmos tipos de papéis, sem qualidade alguma.

Em 2004, portanto, ela decidiu que não pegaria mais qualquer filme, mas sim aqueles que exigissem mais dela enquanto atriz. Foi assim que apareceu em Chameli, em que fez uma prostituta que se envolve com um investidor viúvo. O filme foi um sucesso e um divisor de águas em sua carreira, dando a ela o prêmio de Performance Especial, que é dado esporadicamente pelo Filmfare Awards apenas a quem realmente faz algo de grande destaque.

No mesmo ano também apareceu ao lado de Amitabh Bachchan no filme Dev, em que ela fazia a muçulmana Aaliya, vítima dos massacres contra os muçulmanos no Gujarat, em 2002, levando consigo o prêmio de melhor atriz pela crítica no Filmfare Awards. Em 2004 apareceu também em Fida, em que fez sua primeira vilã, e em Aitraaz e Hulchul.

Em 2005 estrelou Bewafa, Kyon Ki e Dosti: Friends Forever. Nenhum foi bem sucedido. Já em 2006 foi a vez de aparecer em 36 China Town e na comédia Chup Chup Ke, ambos medianos. Depois, Omkara finalmente voltou com o sucesso na carreira de Kareena, que levou o segundo prêmio de melhor atriz pela crítica no Filmfare Awards. Ainda em 2006, ela também apareceu em Don - The chase Begins Again.

Em 2007 apareceu em Jab We Met, ao lado de Shahid Kapoor, levando o primeiro prêmio de melhor atriz no Filmfare Awards. Em 2008 apareceu em Tashan ao lado de Akshay Kumar, Anil Kapoor e seu atual namorado Saif Ali Khan. No mesmo ano ela dublou a cachorrinha Laila na primeira animação em longa metragem indiana Roadside Romeo, que estreará na próxima semana aqui no Brasil.

No final de 2008 ainda apareceu em Golmaal Returns, que foi um super sucesso de bilheteria. E agora em 2009 ela aparece em Kambakkht Ishq, Main Aur Mrs. Khanna, Three Idiots, Milenge Milenge e Qurbaan.

Bom, e diferentemente de boa parte das personalidades do cinema indiano, Kareena Kapoor é de alguma maneira engajada nas questões sociais de seu país. Ao longo dos anos 2000, desde que começou sua carreira, participou de shows beneficientes por toda a Índia, desde para angariar fundos às vítimas do tsunami, em 2004, até dar apoio às tropas indianas que ficam isoladas no meio do deserto de Thar, no Rajastão.

E como a fofoca faz parte de nosso trabalho, preciso também dizer que antes de namorar Saif Ali Khan, Kareena já namorou Shahid Kapoor, terminando com ele durante as filmagens de Jab We Met, no qual contracenavam. Outra fofoca que a mídia indiana adora tocar diz respeito ao corpo de Kareena. Em 2006 houve rumores de que ela estaria anoréxica, mas Kareena desmentiu dizendo que havia virado vegetariana e que estava praticando muita yoga e natação para ter um corpo mais saudável. Mas os rumores voltaram quando ela desmaiou durante as filmagens de Tashan que, segundo ela, foi apenas um mal-estar. E além disso, todos se perguntam quando o casal Kareena e Saif irão se casar; aparentemente, Saif Ali Khan parece estar muito mais engajado na ideia, e Kareena desconversa. É o que a mídia gosta de explorar, a verdade mesmo nós não sabemos!